a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
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101Então Samuel pegou num frasco de azeite e derramou-o sobre a cabeça de Saul. Depois beijou-o e disse-lhe: «O Senhor consagrou-te como chefe do seu povo10,1 A antiga versão grega acrescenta: Tu é que hás de guiar o povo do Senhor e libertá-lo das mãos dos seus inimigos. E aqui fica a prova de que foi o Senhor que te consagrou.. 2Hoje mesmo, quando te separares de mim, encontrarás dois homens perto do túmulo de Raquel, em Selça, no território de Benjamim. Eles te dirão que os animais que procuras já foram encontrados. O teu pai já esqueceu o caso dos animais, mas está muito preocupado contigo e pergunta continuamente o que é que pode fazer pelo filho. 3Dali, seguirás sempre em frente até chegares ao carvalho sagrado do Tabor10,3 Tabor. Não é com certeza o atual monte de Tabor (Jz 4,6)., onde encontrarás três homens que vão oferecer sacrifícios a Deus, em Betel. Um deles leva três cabritos, outro leva três pães e o terceiro um odre de vinho. 4Eles hão de saudar-te e oferecer-te dois pães, que deves aceitar. 5Depois seguirás para a colina de Deus, Guibeá, onde se encontra um acampamento dos filisteus. Ao entrares na cidade, vais encontrar um grupo de profetas que desce do monte do sacrifício, tocando liras, tambores, flautas e harpas, em atitude de exaltação profética. 6Então o Espírito do Senhor cairá sobre ti e tornar-te-ás profeta com eles, ficando um homem diferente. 7Quando vires que tudo isto acontece como eu te disse, faz tudo o que quiseres porque Deus está contigo. 8Depois vai para Guilgal e espera lá por mim. Mais tarde, irei lá ter contigo para oferecer a Deus holocaustos de animais e sacrifícios de comunhão. Espera lá por mim, durante sete dias. Quando eu chegar, te direi o que deves fazer.»

9Quando Saul se voltou para deixar Samuel, Deus transformou-o num homem diferente e tudo quanto Samuel lhe tinha dito aconteceu naquele dia. 10Saul e o criado chegaram a Guibeá e logo lhes veio ao encontro um grupo de profetas. O Espírito de Deus desceu então sobre Saul e ele tornou-se profeta juntamente com os outros. 11Todos quantos o conheciam, ao verem o que lhe estava a acontecer, diziam uns aos outros: «Que é que sucedeu ao filho de Quis? Será que Saul também se tornou profeta?» 12Alguém que vivia naquele lugar perguntou: «Mas quem é o chefe10,12 Literalmente: pai. A pergunta do aldeão tem sentido negativo: gente de baixa condição (sem pai que tome conta deles), ou um grupo desorganizado sem chefe. destes profetas?» E foi assim que nasceu o ditado popular: «Também Saul está entre os profetas!»

13Entretanto, terminado o estado de exaltação profética, Saul dirigiu-se para o lugar do sacrifício, na montanha.

14Um tio de Saul perguntou-lhe, a ele e ao criado: «Onde é que vocês estiveram?» Saul respondeu: «Fomos procurar os animais que se perderam, mas não os pudemos encontrar e acabámos por ir consultar Samuel.» 15O tio perguntou-lhe ainda: «E o que é que ele vos disse?» 16Saul respondeu: «Disse-nos que os animais já tinham sido encontrados.» Mas nada contou ao tio do que Samuel lhe tinha dito a respeito de ele vir a ser rei.

Saul aclamado rei

17Samuel convocou o povo para uma assembleia religiosa em Mispá, 18e disse: «Assim fala o Senhor, Deus de Israel: “Eu tirei-vos da terra do Egito e libertei-vos do poder dos egípcios e de todos os outros reis que vos oprimiam.” 19Este é o vosso Deus, que vos livra de todas as dificuldades e tristezas, e foi a quem rejeitaram, ao pedirem um rei. Pois bem, reúnam-se agora diante do Senhor, por tribos e clãs.»

20Samuel pediu que cada uma das tribos se apresentasse e a sorte10,20 A sorte. Provavelmente usaram-se os urim e tumim (Ex 28,30). calhou à tribo de Benjamim. 21Depois mandou vir as famílias da tribo de Benjamim, e a sorte calhou à família de Matri. E dela foi escolhido Saul, filho de Quis; foram procurá-lo, mas não o encontraram. 22Consultaram novamente o Senhor e perguntaram: «Há mais alguém aqui desta família?» O Senhor respondeu: «Há um, que está escondido entre as bagagens.» 23Foram buscá-lo a toda a pressa e trouxeram-no para o meio do povo. E viram que ele era o mais alto; ninguém lhe passava do ombro. 24Samuel disse ao povo: «Aqui está o homem que o Senhor escolheu! Não há ninguém como ele em todo o país!» E todos o aclamaram com alegria: «Viva o rei!»

25A seguir, Samuel explicou ao povo o estatuto do rei10,25 Cf. 1 Sm 8,11–18; Dt 17,14–20; Js 24,26–28. Estes textos apresentam o parecer dos que eram contra a monarquia. e escreveu-o num livro, que colocou no santuário do Senhor. Depois mandou o povo para as suas casas. 26Saul voltou também para sua casa em Guibeá, acompanhado de alguns homens valentes, a quem Deus tinha tocado o coração. 27Mas alguns que eram contrários diziam: «Este será capaz de nos salvar?» Por isso, desprezaram-no e não lhe levaram qualquer presente. Mas Saul não se incomodou.

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Saul derrota os amonitas

111O rei Naás de Amon decidiu fazer guerra à cidade de Jabés, no território de Guilead. O povo de Jabés disse a Naás: «Faz uma aliança connosco e serás o nosso rei.» 2Naás respondeu: «Só farei aliança convosco com uma condição: se tirar a cada um o olho direito, para que sirva de vergonha para todo o povo de Israel.»

3Os responsáveis do povo de Jabés disseram: «Dá-nos sete dias para enviarmos mensageiros por toda a terra de Israel. Se ninguém nos vier ajudar, entregamo-nos a ti.»

4Os mensageiros chegaram a Guibeá, onde vivia Saul, e contaram aquilo ao povo, que se pôs a chorar desesperadamente. 5Saul estava a chegar do campo com os seus bois, e perguntou: «Que é que se passa? Por que é que toda a gente está a chorar?» E contaram-lhe o que tinham dito os mensageiros de Jabés. 6Quando Saul ouviu tais coisas, o Espírito de Deus apoderou-se dele11,6 Ver 1 Sm 16,13; Jz 3,10; 6,34; 11,29; 13,25; 14,19. e ficou furioso. 7Agarrou numa junta de bois, cortou-os aos bocados, e mandou mensageiros por todo o território de Israel com esses bocados e com o seguinte aviso: «Quem não for com Saul e Samuel para a guerra, verá os seus bois tratados desta maneira.»

O povo de Israel ficou cheio de temor do Senhor e foram todos juntos para a guerra. 8Saul passou revista às suas tropas em Bezec: eram trezentos mil homens de Israel e trinta mil de Judá. 9Eles responderam aos mensageiros que tinham vindo de Jabés: «Avisem o vosso povo de que amanhã, por volta do meio-dia, serão socorridos.» Quando o povo de Jabés recebeu as notícias, ficou muito contente 10e foi dizer a Naás: «Amanhã vamo-nos entregar e farás de nós o que bem te apetecer.»

11No dia seguinte, pela manhã, Saul dividiu os seus homens em três grupos. Penetraram no campo inimigo ainda antes de o Sol nascer e atacaram os amonitas até ao meio-dia. Os sobreviventes fugiram cada um para seu lado.

12Então o povo de Israel disse a Samuel: «Onde é que estão os que não queriam Saul para nosso rei? Entreguem-nos para os matarmos.» 13Mas Saul disse: «Ninguém será morto hoje, porque é o dia em que o Senhor salvou Israel.»

14Samuel disse depois ao povo: «Vamos a Guilgal e proclamemos uma vez mais o rei.» 15Todo o povo se dirigiu para Guilgal e todos proclamaram Saul como seu rei, naquele santuário. Ofereceram sacrifícios de comunhão ao Senhor; e Saul e todo o povo celebraram com alegria o acontecimento.

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Mensagem político-religiosa de Samuel

121Samuel disse ao povo de Israel12,1 Discurso final de Samuel, como se fora o seu testamento, à maneira das grandes figuras do Antigo e do Novo Testamento. Ver Gn 49; Js 24,1–28; Jo 14–17.: «Dei-vos tudo quanto me pediram. Dei-vos um rei para vos governar, 2que já vos conduz no campo de batalha. Eu estou velho e de cabelos brancos e os meus filhos estão ao vosso lado. Tenho sido o vosso chefe, desde a minha juventude até agora. 3Aqui estou. Se fiz alguma coisa de mal digam-mo agora, na presença do Senhor e na presença do rei que ele escolheu. Acaso me apoderei do boi ou do jumento de alguém? Acaso explorei ou oprimi alguém? Deixei-me subornar por alguém? Se fiz alguma destas coisas, tudo restituirei.»

4O povo respondeu: «Não! Tu nunca nos exploraste nem oprimiste e nunca aceitaste nada de ninguém.» 5Samuel voltou a dizer: «O Senhor e o rei que ele escolheu são hoje testemunhas de que vocês nada encontraram de mal no meu proceder.» Eles responderam: «Sim, é verdade!»

6Samuel continuou: «O Senhor escolheu Moisés e Aarão e libertou os vossos antepassados do Egito. 7Preparem-se, porque eu vou discutir convosco diante do Senhor a maneira como têm recebido tudo quanto o Senhor fez para vos salvar e aos vossos antepassados12,7 O narrador aplica aos contemporâneos a memória histórica daquilo que Deus fez com os seus antepassados.. 8Depois de Jacob ter ido para o Egito, os vossos antepassados pediram ajuda ao Senhor e ele mandou Moisés e Aarão, que os retiraram do Egito e os colocaram nesta terra. 9Mas eles esqueceram-se do Senhor12,9 Situação idêntica à que encontramos em Juízes e Deuteronómio, e o mesmo paralelismo literário: esqueceram-se do Senhor; por isso entregou-os… então suplicaram ao Senhor… o Senhor enviou (um libertador); assim vos libertou dos vossos inimigos, para poderem viver em paz. Ver Jz 3,7–11., seu Deus, e por isso entregou-os ao poder de Sísera, chefe dos exércitos da cidade de Haçor, ao poder dos filisteus e ainda do rei de Moab, e tiveram de lutar contra eles. 10Então suplicaram ao Senhor: “Nós pecámos, porque te abandonámos, Senhor, adorando os ídolos do deus Baal e da deusa Astarté. Livra-nos agora dos nossos inimigos e nós te serviremos!” 11E o Senhor enviou Jerubaal, depois Bedan12,11 Jerubaal. Outro nome de Gedeão (Jz 6,32). Bedan. Algumas versões antigas têm Barac., depois Jefté e finalmente a mim, Samuel. Assim vos libertou dos vossos inimigos para poderem viver em paz. 12Mas quando viram que o rei Naás de Amon vos queria combater, disseram-me: “Nós queremos é um rei que nos governe.” Contudo o Senhor, vosso Deus, é que é o vosso rei.

13Aqui têm, pois, o rei que quiseram e pediram. O Senhor é que vos deu esse rei. 14Tudo estará bem convosco se honrarem o Senhor, vosso Deus, se o servirem, se o ouvirem e obedecerem aos seus mandamentos e se, tanto vocês como o vosso rei, o seguirem. 15Pelo contrário, se não ouvirem o Senhor, mas desobedecerem aos seus mandamentos, ele há de castigar-vos, como fez aos vossos antepassados.

16Por isso, esperem aí e verão os prodígios que o Senhor tem para vos mostrar. 17Estamos no tempo da ceifa do trigo, não é verdade? Mas eu vou invocar o Senhor e ele mandará trovões e chuva. Desta maneira hão de compreender que cometeram um grande pecado contra o Senhor em lhe terem pedido um rei.»

18Samuel orou ao Senhor e, naquele mesmo dia, o Senhor mandou trovões e chuva. 19E todo o povo, cheio de temor pelo Senhor e por Samuel, disse a Samuel: «Pede por nós ao Senhor, teu Deus, para não morrermos. Agora compreendemos que, além de todos os nossos pecados, cometemos ainda mais este, o de pedirmos um rei.» 20Samuel respondeu-lhes: «Não tenham medo! É verdade que cometeram um grande erro. Mas não se afastem do Senhor e sirvam-no com todo o coração. 21Não sigam os falsos deuses, porque eles não vos podem salvar nem ajudar, pois eles não são nada. 22O Senhor prometeu firmemente que não vos abandonaria, pois decidiu que fossem o seu próprio povo12,22 Ver Dt 26,17–18; 27,9; 29,12; 2 Sm 7,24.. 23Quanto a mim, Deus me livre de pecar contra o Senhor, deixando de lhe pedir por vós. Continuarei a ensinar-vos sempre o caminho bom e reto. 24Respeitem, pois, o Senhor e sirvam-no com fidelidade e com todo o coração. Lembrem-se das maravilhas que ele fez no vosso meio! 25Mas se continuarem a praticar o mal, serão destruídos, assim como o vosso rei.»