a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
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David poupa a vida de Saul

241David saiu dali e foi viver nos refúgios naturais de En-Guédi24,1 En-Guédi. Localidade, rica em água doce, na margem ocidental do mar Morto.. 2Mas quando Saul voltou da guerra contra os filisteus, foram-lhe dizer que David se encontrava no deserto de En-Guédi. 3Então Saul escolheu três mil homens do exército de Israel e foi procurar David e os seus companheiros nos penhascos escarpados.

4Chegou junto de uns currais de ovelhas, onde havia uma gruta, e Saul foi lá para fazer as suas necessidades. Ora aconteceu que era mesmo no fundo daquela gruta que estavam escondidos David e os seus homens. 5E estes disseram a David: «É este o dia em que se cumpre o que o Senhor te disse, que poria nas tuas mãos o teu inimigo e o tratarias como quisesses.» David levantou-se e cortou furtivamente a ponta da capa de Saul. 6Mas logo a seguir ficou com remorsos por ter feito aquilo. 7E disse aos seus companheiros: «O Senhor me livre de cometer semelhante crime, contra o meu rei, o escolhido do Senhor. Não levantarei a mão contra ele pois ele é o escolhido do Senhor8Com semelhantes palavras David conteve o ímpeto dos seus companheiros e não deixou que agredissem Saul, que pôde sair da gruta e seguir o seu caminho.

9David saiu também atrás de Saul e gritou-lhe: «Ó rei, meu senhor!» Saul olhou para trás e David, inclinando-se até ao chão, em sinal de respeito, 10disse-lhe: «Por que é que o meu senhor presta atenção a quem lhe anda a dizer que David lhe quer fazer mal? 11O meu senhor pode reconhecer agora mesmo, que o Senhor o pôs ao alcance das minhas mãos, na gruta. Pediram-me para o matar, mas tive compaixão. Eu nunca levantarei a minha mão contra o meu rei, pois é meu senhor, o escolhido do Senhor. 12Veja bem, meu senhor, como eu tenho um pedaço de pano da sua capa. Cortei-o, mas não quis matar o rei. Fique, pois, a saber que não há em mim nem maldade nem revolta contra o rei. Nunca pequei contra o meu senhor. O rei é que tenciona tirar-me a vida. 13Que o Senhor julgue entre nós dois e me defenda. Quanto a mim, nunca levantarei a minha mão contra o rei. 14Como diz o antigo ditado popular, “o mal vem dos maus”; por isso nunca levantarei a mão contra o meu rei. 15Atrás de quem é que saiu o rei de Israel a combater? A quem é que ele persegue? A mim, que sou como um cão morto ou como uma pulga?! 16Por isso, que o Senhor decida e julgue entre nós os dois. Que ele examine a minha causa e me defenda das tuas mãos.»

17Logo que David acabou de falar, Saul exclamou: «És realmente tu, David, meu filho, quem me falas?» Saul começou a chorar 18e disse-lhe: «De facto tu és mais justo do que eu, pois fizeste-me bem em troca do mal que te fiz. 19Provaste hoje a tua bondade para comigo, pois o Senhor colocou-me nas tuas mãos e não me mataste. 20Não há ninguém que, ao encontrar o seu inimigo, o deixe ir são e salvo. Que o Senhor te recompense pelo que me fizeste hoje. 21Agora compreendo que tu serás o rei, e que o reino de Israel há de ser glorioso contigo. 22Jura-me, pois, pelo Senhor, que não acabarás o meu nome, que não exterminarás a minha descendência.»

23David jurou a Saul que assim faria. Este regressou a sua casa, e David e os seus homens foram para o seu refúgio.

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Morte de Samuel

251Samuel morreu; todos os israelitas se juntaram para chorarem a sua morte e enterraram-no na sua propriedade, em Ramá. Depois David decidiu ir para o deserto de Paran.

David e Abigail

2Havia em Maon25,2 Maon, Carmelo e Jezrael (v. 43) encontravam-se na parte sudeste do território da tribo de Judá. Há uma outra Jezrael na Galileia, bem como um monte Carmelo junto do Mediterrâneo. A tosquia tinha lugar na primavera e era ocasião de uma festa (2 Sm 13,23–27). Caleb era um antepassado, chefe de um clã da tribo de Judá. um homem muito rico. Possuía três mil ovelhas e mil cabras e tinha as suas propriedades no Carmelo, onde se encontrava para a tosquia das suas ovelhas. 3Era descendente de Caleb e chamava-se Nabal. Enquanto ele era um homem muito rude e mau, a sua esposa, Abigail, pelo contrário, era inteligente e bonita.

4Estava David no deserto quando ouviu dizer que Nabal tosquiava as ovelhas no Carmelo. 5Mandou-lhe então dez dos seus homens com este recado: 6«Envio-te os meus votos de felicidades, para ti, para todos os teus e para todos os que estão contigo, desejando que tudo te vá pelo melhor. 7Soube que estás a fazer a tosquia das ovelhas. Tu tens conhecimento de que os teus pastores estiveram no Carmelo connosco e que, durante todo esse tempo, ninguém lhes fez mal nem lhes tirou nada. 8Pergunta aos teus criados, que eles te informarão. Por isso, peço-te que tenhas consideração por estes meus homens, que vão ter contigo em dia de festa, e que nos dês, tanto a eles, como a mim, o que puderes, pois sou como teu filho.»

9Os enviados de David foram dar o recado a Nabal e esperaram pela resposta. 10Mas Nabal disse-lhes: «Mas quem é David, filho de Jessé? Há hoje em dia muitos escravos que fogem do seu dono. 11Vou eu pegar no pão e na água, e na carne que preparei para os meus tosquiadores e dá-la a gente que não sei de onde vem?»

12Os homens de David regressaram e foram contar-lhe o que Nabal tinha dito. 13Então David ordenou: «Pegue cada um na sua espada!» E todos, incluindo David, puseram a espada à cinta. Cerca de quatrocentos homens seguiram David, enquanto outros duzentos ficaram a guardar o material.

14Mas Abigail, mulher de Nabal, fora avisada por um dos seus criados que lhe disse: «David mandou do deserto mensageiros a cumprimentar o nosso amo, mas ele recebeu-os mal. 15E a verdade é que esses homens foram muito bons para connosco. Durante todo o tempo que andámos com eles pelo campo nunca nos fizeram mal nem nos tiraram nada. 16Pelo contrário, protegiam-nos de dia e de noite quando guardávamos os nossos rebanhos. 17Vê, pois, o que podes fazer, porque tanto o nosso amo como toda a sua família vão sofrer por causa disso. Bem sabes que ele tem um génio tão mau que ninguém lhe pode dizer nada.»

18Abigail resolveu imediatamente enviar duzentos pães, dois odres de vinho, cinco cordeiros assados, cinco medidas de grão torrado, cem tortas de uvas e duzentas tortas de figos secos. Pôs tudo isto em cima dos burros 19e disse aos seus criados: «Vão à minha frente, que eu irei atrás.» Mas não disse nada ao marido.

20Quando ela, montada num burro, descia por um caminho a coberto da montanha, encontrou David com os seus homens que vinham em sentido oposto. 21David ia exatamente a pensar que fora em vão que ele tinha protegido tudo quanto Nabal possuía no deserto, pois nada tinha lucrado com isso. Pelo contrário, Nabal pagava-lhe o bem com o mal. 22Dizia para consigo mesmo: «Que Deus me castigue25,22 Segundo a antiga tradução grega. O hebraico tem: Que Deus castigue os meus inimigos. se de hoje até amanhã eu deixar um só homem com vida na família de Nabal.»

23Quando Abigail avistou David, desceu logo do burro e inclinou-se até ao chão em sinal de respeito, 24caiu-lhe aos pés e disse: «Meu senhor, que a culpa recaia sobre mim! Permite-me que te fale e escuta-me. 25Não faças caso de Nabal, porque ele tem mau génio e é um homem rude. Como o seu nome o indica ele é realmente estúpido25,25 O nome Nabal significa, em hebraico, “estúpido”.. Eu por mim garanto que não vi os homens que tu enviaste. 26Peço-te pelo Senhor e pela tua própria vida que não derrames sangue e não faças justiça pelas tuas mãos. Queira o Senhor que todos os teus inimigos e quantos procuram fazer-te mal tenham a mesma sorte que Nabal. 27Peço-te que aceites os presentes que te trouxe, para serem distribuídos pelos teus homens. 28E perdoa-me de qualquer falta. Estou certa que o Senhor vai constituir na tua família uma realeza estável, porque as tuas guerras são de Deus e em ti não se encontrará mal em toda a tua vida. 29Se alguém te perseguir e quiser matar, o Senhor Deus te há de proteger e conservar vivo como um tesouro precioso. Mas quanto aos teus inimigos, Deus os lançará para longe como quem lança pedras com uma funda. 30Quando o Senhor te tiver dado todo o bem que prometeu e te tiver colocado como rei de Israel, 31então não terás que ter arrependimento nem remorso por teres derramado sangue sem motivo ou por teres feito vingança por tuas mãos. E quando o Senhor te conceder tudo isto, não te esqueças desta tua serva.»

32David respondeu-lhe: «Agradeço ao Senhor, Deus de Israel, que te mandou hoje ao meu encontro, 33e agradeço-te também a ti pelo teu bom senso, pois evitaste que eu hoje derramasse sangue e fizesse justiça pelas minhas mãos. 34Se não tivesses vindo tão depressa ter comigo, juro-te pelo Senhor, Deus de Israel, que me impediu de te fazer mal, que amanhã pela manhã Nabal não teria um único homem com vida.» 35David aceitou o que ela lhe trazia e depois disse-lhe: «Podes ir em paz para casa. Ouvi com atenção as tuas razões e atendi ao que me pediste.»

36Abigail voltou para casa, onde estava Nabal a celebrar um grande banquete como se fosse um rei. Estava tão alegre e embriagado que ela nem lhe contou nada naquele dia. 37Mas na manhã seguinte, depois de passada a bebedeira, Abigail contou-lhe tudo, e Nabal sofreu um tal choque que ficou paralisado. 38Dez dias depois, o Senhor feriu novamente Nabal e ele morreu.

39Quando David soube da morte de Nabal, exclamou: «Dou graças ao Senhor que tirou vingança da ofensa que me fez Nabal! Assim impediu-me de fazer o mal, e fez que a maldade de Nabal recaísse sobre ele mesmo!»

David enviou depois a Abigail uma proposta de casamento. 40Os homens de David foram ter com Abigail ao Carmelo e disseram-lhe o seguinte: «David mandou-nos vir ter contigo para que aceites ser sua esposa.» 41Perante isto, Abigail inclinou-se até ao chão e disse: «Eu sou apenas uma serva dele, disposta a lavar os pés dos seus criados.» 42Então Abigail preparou-se imediatamente e, acompanhada por cinco criadas, montou num burro, e pôs-se a caminho, atrás dos enviados de David, e casou-se com ele.

43David já se tinha casado anteriormente com Ainoam, de Jezrael, e ambas foram suas mulheres. 44Entretanto Saul tinha dado sua filha Mical, que fora mulher de David, a Palti, filho de Laís, natural de Galim.

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David poupa a vida a Saul

261Os habitantes de Zif foram ter com Saul a Guibeá e disseram-lhe: «Não sabes que David está escondido na colina de Haquilá, perto do deserto26,1 O cap. 26 repete o cap. 24, embora os lugares e as personagens sejam diferentes.2Saul pôs-se então a caminho do deserto de Zif, em busca de David, levando consigo três mil soldados bem escolhidos. 3Acampou na colina de Haquilá, junto do caminho. Mas David, que estava no deserto, deu conta de que Saul o estava a seguir. 4Por tal razão enviou espiões e teve a certeza de que Saul tinha chegado. 5Pôs-se a caminho e chegou ao lugar em que Saul estava acampado, e observou o sítio onde dormiam Saul e Abner, filho de Ner, que era o chefe do exército do rei. Saul dormia no centro do acampamento, rodeado pelos seus soldados.

6Então David chamou Aimelec, o hitita, e Abisai, filho de Seruia e irmão de Joab, e perguntou-lhes: «Quem, entre vós quer vir comigo ao acampamento onde está Saul?» Abisai respondeu-lhe: «Vou eu.» 7E naquela noite, David e Abisai foram ao acampamento. Saul estava lá a dormir, tendo a lança espetada na terra, junto da cabeceira. Abner e os soldados dormiam à volta dele.

8Abisai disse a David: «Deus pôs hoje nas tuas mãos o teu inimigo. Deixa-me matá-lo agora mesmo, cravando-o na terra com a sua própria lança. Basta um só golpe, nem são precisos dois.» 9Mas David disse-lhe: «Não o mates, porque ninguém pode levantar a mão contra o rei escolhido pelo Senhor, sem ser castigado. 10Juro-te que será o próprio Senhor a tirar-lhe a vida, seja por morte natural, seja em combate. 11O Senhor me livre de ser eu a matar o rei que ele escolheu. Levemos apenas a lança que está à sua cabeceira e a bilha de água, e vamo-nos embora.» 12David pegou na lança e na bilha de água que estavam à cabeceira de Saul e foram-se embora, sem ninguém dar conta de nada, pois todos estavam a dormir. Ninguém despertou, uma vez que o Senhor fez que dormissem profundamente26,12 Ver Gn 2,21; 15,12.. 13Em seguida, David passou para o outro lado do vale e colocou-se no cimo dum monte, a uma certa distância do acampamento de Saul. 14Então David gritou aos soldados e a Abner: «Abner, estás a ouvir-me?» E Abner respondeu: «Quem és tu que estás a incomodar o rei?» 15David disse-lhe: «Não és tu o homem mais importante de Israel, a quem ninguém se pode comparar? Por que é que não protegeste melhor o rei, teu senhor? Agora mesmo alguém esteve aí no acampamento para o matar. 16Tu não cumpriste com a tua obrigação. Merecem todos a morte, porque não protegeram o vosso amo, o rei que o Senhor escolheu. Vejam se encontram a lança e a bilha de água que estavam junto à sua cabeceira.»

17Saul reconheceu a voz de David e perguntou: «És tu que falas, meu filho, David?» E este respondeu: «Sim, ó rei, sou eu! 18Mas por que razão é que o rei persegue este seu servo? Que fiz eu? Que mal cometi? 19Peço-te que ouças as palavras deste teu servo. Se é o Senhor que te põe contra mim, que ele aceite a minha oferta como sacrifício; mas se são os homens, que o Senhor os amaldiçoe. Eles procuram desterrar-me desta terra, que é pertença do Senhor Deus, como se me mandassem servir outros deuses. 20Não me deixes morrer em terra estrangeira longe da presença do Senhor. Por que é que saíste em minha perseguição como se fosse uma pulga ou uma perdiz nas montanhas?»

Saul reconhece a sua falta

21Então Saul disse-lhe: «David, meu filho, reconheço que pequei! Não tenhas medo de voltar, que não tornarei a fazer-te mal, pois tu me poupaste a vida, hoje mesmo. Procedi como um louco e cometi um grandíssimo erro.» 22David respondeu-lhe: «Aqui está a tua lança, ó rei. Pode vir buscá-la um dos teus soldados. 23Que Deus recompense cada um conforme a sua fidelidade e lealdade. Embora o Senhor te tenha hoje mesmo entregue nas minhas mãos, eu não quis levantar a minha mão contra o rei que ele escolheu. 24Assim como eu hoje mesmo poupei a tua vida, ó rei, assim o Senhor queira poupar também a minha e me livre de todos os perigos.» 25Saul disse a David: «Que Deus te abençoe, meu filho! Tu farás grandes coisas e terás sucesso em tudo!» Depois disto, David seguiu o seu caminho e Saul regressou a casa.