a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
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Joab consegue o regresso de Absalão

141Joab, filho de Seruia, vendo que o rei andava com saudades de Absalão, 2mandou ir buscar a Técoa uma mulher muito astuta e disse-lhe: «Finge que andas de luto, veste-te de preto, não te perfumes, e porta-te como uma mulher que chora por um morto, desde há muito tempo. 3Vai ter com o rei e fala-lhe como eu te vou dizer.» E Joab disse-lhe o que ela havia de falar ao rei.

4A mulher foi então ter com o rei, inclinou-se respeitosamente até ao chão e disse-lhe: «Ajude-me, ó rei!» 5O rei perguntou-lhe: «Que tens?» Ela respondeu: «Infeliz de mim! Sou uma mulher viúva. O meu marido morreu 6e deixou-me dois filhos. Armaram uma rixa no campo e não apareceu ninguém para os separar, de modo que um matou o outro. 7Então toda a família se levantou contra mim e dizem-me: “Entrega-nos o assassino, para o matarmos e nos vingarmos14,7 Em certos casos a vingança era uma obrigação. Cf. Nm 35,9–29; Dt 14,4–13; Js 20. da morte do seu irmão, e acabarmos, ao mesmo tempo com o herdeiro.” Deste modo, querem apagar a última esperança que me resta e privar o meu marido de uma descendência que continue com o seu nome sobre a terra.»

8O rei disse-lhe: «Volta para tua casa, que eu tomarei conta do teu caso.» 9A mulher disse depois ao rei: «Caia sobre mim e sobre a minha família a responsabilidade desta tragédia! O rei e os seus familiares estão inocentes.» 10O rei respondeu-lhe: «Se alguém te voltar a falar do assunto, manda-o vir ter comigo. Garanto-te que nunca mais te voltará a incomodar!»

11A mulher acrescentou: «Peço ao rei que me prometa em nome do Senhor, nosso Deus, que não permitirá que o vingador de sangue agrave a minha desgraça, matando-me o outro filho.» O rei respondeu-lhe: «Juro-te pelo Deus vivo que nem um só cabelo do teu filho há de cair por terra.»

12A mulher disse-lhe: «Permita o rei que esta sua serva lhe diga ainda mais uma coisa.» «Fala!» — respondeu-lhe o rei. 13E ela disse: «Por que é que o rei decidiu agir contra o interesse do povo de Deus? Pegando nas palavras que acabou de pronunciar, o rei faz mal em não deixar regressar o seu filho Absalão, que vive desterrado. 14Temos que morrer todos um dia, e seremos então como a água que se espalha por terra e que não mais se pode recolher. Mas Deus não quer retirar a vida a ninguém. Por isso, a sua vontade é que Absalão não deve continuar desterrado, longe de nós. 15Se vim dizer tudo isto, ao rei, meu senhor, foi pelo medo que me causaram. Por isso, disse para comigo: “Irei falar ao rei, porque talvez ele faça o que lhe pedir. 16Ele fará por me arrancar das garras do homem que me quer destruir a mim e ao meu filho, que somos do povo de Deus.” 17A vossa serva, ó rei, pensou que tudo quanto o rei me dissesse havia de contribuir para acalmar o meu espírito. Porque o rei, meu senhor, é como um anjo de Deus que sabe distinguir o bem do mal. Que o Senhor, teu Deus, esteja sempre contigo!»

18O rei disse à mulher: «Vou fazer-te uma pergunta e peço-te que me respondas, sem nada ocultar.» A mulher disse-lhe: «Pergunte, ó meu senhor e rei!» 19O rei perguntou-lhe: «Porventura não é Joab que está por detrás de tudo isto?» A mulher respondeu-lhe: «Isso é tão certo como o meu senhor e rei estar vivo. Foi de facto o teu servo Joab que me instruiu sobre tudo quanto eu havia de dizer. 20Ele agiu desta maneira para dar um novo rumo à situação. Mas o rei, meu senhor, é tão sábio como um anjo de Deus e consegue compreender tudo quanto se passa sobre a terra.»

21O rei foi então ter com Joab e disse-lhe: «Decidi fazer como queres. Vai buscar o meu filho Absalão.» 22Joab prostrou-se por terra, diante do rei, e agradeceu-lhe com estas palavras: «Agora reconheço que me quer bem, ó meu senhor e rei, porque aceitou a minha proposta.»

23Joab levantou-se e partiu para Guechur e trouxe Absalão para Jerusalém. 24Mas o rei ordenou que Absalão fosse para sua casa e que não aparecesse na sua presença. E assim fez Absalão: foi para sua casa e não apareceu diante do rei.

David faz as pazes com Absalão

25Não havia ninguém em Israel tão belo e tão admirado como Absalão. Desde a planta dos pés até à ponta dos cabelos não se encontrava nele qualquer defeito. 26Ele cortava os cabelos no fim de cada ano porque a sua cabeleira se tornava muito pesada. Tinha por costume pesar a cabeleira e pesava mais de dois quilos, segundo os pesos oficiais do rei. 27Absalão teve três filhos e uma filha. A filha chamava-se Tamar e era muito bonita.

28Absalão ficou dois anos em Jerusalém sem se apresentar diante do rei. 29Uma vez, mandou chamar Joab para o enviar ao rei, mas Joab negou-se a ir ter com ele. Enviou-lhe uma segunda mensagem, mas Joab negou-se novamente. 30Então Absalão disse aos seus criados: «Vocês conhecem o campo de trigo que Joab tem pegado com o meu. Vão deitar-lhe o fogo.» E os criados foram incendiá-lo.

31Então Joab foi ter com Absalão a casa dele e perguntou-lhe: «Por que é que os teus criados puseram fogo ao meu campo?» 32Absalão respondeu-lhe: «Porque te pedi para vires ter comigo e tu recusaste. Eu queria que fosses ter com o rei para lhe dizeres: “Por que é que eu vim de Guechur? Era bem melhor ter lá ficado!” Eu quero ser admitido no palácio do rei. E se fiz algum mal, que me condene à morte!»

33Joab foi contar tudo isto ao rei. O rei mandou chamar Absalão, que imediatamente foi ter com ele, inclinando-se respeitosamente diante dele até ao chão. E o rei abraçou Absalão.

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Absalão tenta um golpe de Estado

151Posteriormente, Absalão arranjou um carro e cavalos e cinquenta homens para o acompanharem, diante do carro. 2Levantava-se muito cedo e colocava-se à beira do caminho que dava para a entrada da cidade. Sempre que passava um homem que ia ter com o rei por causa de qualquer processo de justiça15,2 Processo de justiça. Ver Dt 25,1; 1 Rs 3,16–28; Lc 12,13; 18,3. O rei tinha por missão fazer justiça. A intenção de Absalão era usurpar o trono do pai., Absalão mandava-o parar e perguntava-lhe: «De onde és tu?» Ele respondia: «Sou de tal tribo de Israel, meu senhor!» 3Absalão respondia-lhe: «Bem! A tua causa é boa e tu tens toda a razão! Mas não há ninguém na corte do rei para te fazer justiça.» 4Depois acrescentava: «Quem me dera poder ser juiz nesta terra! Todos aqueles que tivessem processos para julgar viriam ter comigo e eu lhes faria justiça!» 5E se o homem se aproximava para se inclinar diante dele, Absalão levantava-o e abraçava-o.

6Absalão agia desta maneira com todos os que iam ter com o rei para pedir justiça; e assim conquistava o coração dos israelitas. 7Ao fim de quatro anos15,7 Ao fim de quatro anos, segundo a antiga tradução grega. Em hebraico, Ao fim de quarenta anos., Absalão disse ao rei: «Permita-me que vá a Hebron cumprir um voto que fiz ao Senhor. 8É que quando eu estava em Guechur, na Síria, prometi ao Senhor ir lá oferecer-lhe sacrifícios, se ele me deixasse voltar a Jerusalém.» 9O rei respondeu-lhe: «Vai em paz!» E Absalão pôs-se a caminho de Hebron. 10Dali, Absalão enviou os seus partidários a todas as tribos de Israel, com a seguinte palavra de ordem: «Quando ouvirem um certo som de trombeta, devem anunciar: “Absalão tornou-se rei em Hebron!”» 11Absalão tinha convidado duzentos homens em Jerusalém para irem com ele. Mas eles desconheciam completamente as intenções de conspiração de Absalão.

12Enquanto ele oferecia os sacrifícios, Absalão mandou chamar Aitofel, conselheiro de David, que vivia na cidade de Guilo. Desta forma aumentava o número dos partidários de Absalão e a conspiração tornava-se cada vez mais forte.

David foge de Jerusalém

13Entretanto David teve a notícia de que os homens de Israel se tinham voltado para Absalão. 14E o rei disse a todos os seus oficiais que estavam com ele em Jerusalém: «Fujamos depressa, porque, de outro modo, não podemos escapar a Absalão. Partamos o mais depressa possível, não aconteça que ele nos apanhe, nos faça mal e passe a cidade a fio de espada.»

15Os servidores do rei disseram-lhe: «Seja qual for a decisão do rei, nosso senhor, estaremos ao seu lado!» 16Então o rei com os da sua casa real saiu a pé, mas deixou dez das suas concubinas para guardarem o palácio. 17O rei e quantos o acompanhavam a pé, ao saírem da cidade, pararam junto da última casa. 18E todos os servidores de David desfilaram diante dele: os cretenses, os peleteus e os soldados de Gat que, em número de seiscentos, tinham seguido David desde o tempo em que ele esteve em Gat15,18 Os cretenses e os peleteus eram soldados estrangeiros que formavam a guarda real..

19Nisto o rei disse a Itai, dos soldados de Gat: «Por que queres vir tu também connosco? Volta para a cidade e fica com o outro rei. Tu és um estrangeiro e um exilado. 20Chegaste há pouco tempo e não é justo que hoje te obrigue a ires connosco, pois nem eu mesmo sei para onde vou. Volta para a cidade e leva contigo os teus compatriotas. Que o Senhor use para contigo de bondade e lealdade.»

21Mas Itai respondeu-lhe: «Juro pelo Senhor vivo e pela vida do rei, que onde estiver o meu senhor e rei aí estarei eu, tanto para a vida como para a morte.» 22Disse-lhe David: «Está bem, podes passar!» Itai, o de Gat, passou com os seus soldados e os seus familiares.

23Toda a gente chorava em altos gritos, enquanto o exército desfilava diante de David. Finalmente, o rei atravessou também a torrente de Cédron pelo caminho que conduz ao deserto.

24O sacerdote Sadoc também lá estava com os levitas, que transportavam a arca da aliança de Deus. Puseram-na no chão e o sacerdote Abiatar ofereceu sacrifícios até passar todo o povo que vinha da cidade.

25O rei disse depois a Sadoc: «Torna a levar a arca da aliança de Deus para a cidade. Se o Senhor me quiser bem, fará que eu regresse e possa tornar a ver a arca sagrada e o santuário. 26Mas se, pelo contrário, não quiser mais saber de mim, pois faça de mim o que lhe aprouver.» 27O rei disse ainda a Sadoc: «Estás a ver! Volta tranquilamente para a cidade, com o teu filho Aimás, com Abiatar e o seu filho Jónatas. 28Ficas a saber que me vou esconder na região do deserto e espero pelas vossas notícias.» 29Sadoc e Abiatar levaram a arca novamente para Jerusalém e lá ficaram.

David manda espiar Absalão

30David subiu o monte das Oliveiras a chorar, com o rosto coberto e descalço. E todos os que iam com ele tinham o rosto coberto e choravam.

31Entretanto David soube que Aitofel se tinha aliado também a Absalão com os outros conspiradores. E David suplicou a Deus: «Senhor, faz com que os conselhos de Aitofel se tornem vãos!»

32Chegando David ao cume do monte das Oliveiras, no lugar onde se adora a Deus, viu caminhar ao seu encontro o seu amigo Huchai, do clã de Erec, com a túnica rasgada e a cabeça coberta de pó. 33David disse-lhe: «Se vieres comigo, vais criar-me dificuldades. 34Regressa à cidade e diz a Absalão: “Ó rei, de hoje em diante ficarei ao teu serviço! Até aqui, estava ao serviço de teu pai, mas agora é a ti que eu quero servir!” Desta maneira podes ajudar-me fazendo com que os conselhos de Aitofel fiquem frustrados. 35Além disso, terás o apoio dos sacerdotes Sadoc e Abiatar. Deves comunicar-lhes tudo quanto souberes do palácio real. 36Aimás, filho de Sadoc e Jónatas, filho de Abiatar, estão ambos com eles. Por meio deles devem transmitir-me tudo quanto souberem.»

37Huchai, o amigo de David, entrou em Jerusalém, precisamente no momento em que Absalão também lá chegava.

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David e Siba

161David tinha acabado de passar o alto do monte das Oliveiras, quando Siba, o criado de Mefiboset, lhe apareceu. Levava dois burros aparelhados, com duzentos pães, cem caixas de uvas secas, cem espécies de fruta da estação e um odre de vinho.

2O rei perguntou-lhe: «Para quem são estas coisas?» Siba respondeu-lhe: «Os burros servirão de montada para os da família real, os pães e os frutos serão para alimento dos seus soldados, e o vinho de conforto para as pessoas cansadas pelo deserto.» 3O rei perguntou-lhe: «Onde está Mefiboset, neto do rei Saul, teu senhor?» Siba respondeu-lhe: «Ficou em Jerusalém, porque pensa que agora os israelitas lhe darão a coroa do seu avô.» 4O rei disse-lhe: «Podes ficar com tudo o que pertence a Mefiboset.» E Siba respondeu-lhe, inclinando-se reverentemente: «Obrigado, por este favor, ó meu senhor e rei!»

Simei amaldiçoa David

5Quando o rei David chegou perto de Baurim aconteceu que um tal Simei, filho de Guera, que pertencia ao clã de Saul, saiu da povoação e pôs-se a amaldiçoar David. 6Lançava pedras contra ele e contra os seus oficiais; mas David era protegido pelo povo e pelos soldados, que se colocaram à sua direita e à sua esquerda.

7Simei amaldiçoava David nestes termos: «Vai-te embora! Vai-te embora, assassino! Malvado! 8O Senhor castiga-te agora por todas as mortes que provocaste na família de Saul. Roubaste a realeza a Saul e o Senhor agora entrega-a nas mãos de teu filho Absalão. Caíste na infelicidade, porque és um assassino!»

9Abisai, filho de Seruia, disse ao rei: «Como é possível que este cão desgraçado amaldiçoe o rei, meu senhor? Permita-me que lhe corte a cabeça!» 10Mas o rei replicou-lhe: «Que tens tu e o teu irmão Joab a ver com isto? Se este homem me amaldiçoa, é porque o Senhor lho mandou e por isso ninguém o pode censurar.» 11E David ajuntou depois, dirigindo-se a Abisai e a todos os outros oficiais: «Se o meu próprio filho me procura matar, quanto mais este benjaminita! Deixem-no em paz. Que ele me amaldiçoe, se o Senhor lho ordenou. 12Talvez o Senhor olhe para a minha desgraça e queira mudar esta maldição de agora em bênção.» 13David e a sua comitiva prosseguiram o seu caminho, mas Simei também caminhava não muito longe dele, seguindo pelo flanco da montanha. Ele continuava a amaldiçoar David, a lançar-lhe pedras e pó da estrada.

14Finalmente, o rei com a sua comitiva chegou junto do Jordão. Estavam muito cansados e ficaram lá a descansar.

Huchai e Absalão

15Entretanto Absalão entrou em Jerusalém juntamente com muitos israelitas, seus partidários, e também com Aitofel. 16Nisto apareceu Huchai, amigo pessoal de David, que dirigiu a Absalão a seguinte saudação: «Viva o rei! Viva o rei!» 17Absalão perguntou-lhe: «Porventura é assim que és fiel ao teu amigo David? Por que é que não vais com ele?» 18Huchai disse a Absalão: «Não! Eu estarei com aquele que tanto o Senhor como este povo, a multidão dos israelitas, escolherem. A esse quero servir. 19Além disso, não posso escolher a quem hei de servir? Não és tu o filho do meu amigo? Assim como servi o teu pai, assim te servirei agora.»

Absalão e as esposas de David

20Absalão disse a Aitofel: «Decidam vocês sobre o que devemos fazer.» 21Aitofel respondeu-lhe: «Vai violar as concubinas16,21 Ver 3,7. que o teu pai cá deixou a guardar o palácio. Desta maneira, ofenderás a honra do teu pai; os israelitas tomarão conhecimento disso e os teus partidários ficarão encorajados.» 22Armaram, em seguida, uma tenda no terraço do palácio para Absalão e, à vista de todo o Israel, ele desonrou as concubinas de seu pai. 23Naquele tempo, um conselho dado por Aitofel era como se fosse uma palavra do próprio Deus. Tanto David como Absalão seguiam os seus conselhos.