a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
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Paulo defende-se diante de Félix

241Cinco dias depois, Ananias, o chefe dos sacerdotes, foi a Cesareia com alguns anciãos e com um advogado chamado Tertulo. Apresentaram queixa ao governador, contra Paulo. 2Quando trouxeram Paulo, Tertulo começou a acusá-lo, dizendo a Félix: «Excelentíssimo Governador Félix! Graças a ti e às reformas que fizeste com tanta sabedoria a favor deste povo, gozamos de uma paz completa. 3Estamos-te muito agradecidos por tudo aquilo que temos recebido, em todas as ocasiões e em todos os lugares. 4Para não te roubar muito tempo, peço-te que tenhas a bondade de nos escutar por uns momentos. 5Nós sabemos que este homem é uma peste. Provoca desordens entre os judeus de todo o mundo e é cabecilha da seita dos Nazarenos. 6Até tentou profanar o templo. Foi então que o prendemos24,6 Alguns manuscritos acrescentam: e queríamos julgá-lo de acordo com a nossa lei.. 7[Mas apareceu o comandante Lísias e tirou-o das nossas mãos à força, dizendo-nos que os que o acusavam deviam vir ter contigo24,7 Este versículo não se encontra em alguns dos manuscritos antigos..] 8Se o interrogares, vais ouvir da sua boca tudo aquilo de que o acusamos.» 9Os outros judeus apoiaram a acusação do advogado e afirmaram que era tudo verdade.

10O governador fez sinal a Paulo para falar e ele então disse: «Eu sei que há muitos anos és juiz do povo judeu. Por isso faço a minha defesa diante de ti com toda a confiança. 11Como podes averiguar, cheguei a Jerusalém para adorar a Deus há apenas doze dias. 12Os judeus não me encontraram a discutir com ninguém ou a agitar o povo, nem no templo, nem nas sinagogas, nem em qualquer parte da cidade. 13Eles não têm provas para nenhuma das acusações que agora trazem contra mim. 14Há uma coisa que eu reconheço: é que sirvo o Deus dos meus antepassados de acordo com o novo Caminho24,14 Ver 2 Pe 2,2 e nota., que eles dizem que é uma seita. Creio em tudo o que está escrito na Lei de Moisés e nos profetas 15e tenho a mesma esperança que eles têm em Deus, de que todos hão de ressuscitar, tanto os bons como os maus. 16Por isso procuro ter sempre a minha consciência limpa diante de Deus e dos homens. 17Depois de ter estado fora de Jerusalém vários anos, voltei lá para levar algum dinheiro ao meu próprio povo e para oferecer sacrifícios a Deus. 18Quando estava a fazer isso, depois de ter acabado a cerimónia da purificação, viram-me no templo. Não havia desordem nenhuma. 19Estavam lá alguns judeus da província da Ásia. São eles que devem vir aqui diante de ti fazer acusações, se é que têm alguma coisa contra mim. 20Ou então, que estes homens aqui digam se me acharam culpado de algum crime quando eu estava diante do supremo tribunal dos judeus. 21A não ser que se trate desta frase que eu disse em voz alta, quando estava no meio deles: “Estou aqui hoje a ser julgado por vós, porque acredito que os mortos ressuscitam.”»

22Então Félix, que estava bem informado sobre o Caminho do Senhor24,22 Ver 2 Pe 2,2 e nota., adiou o julgamento e disse: «Quando o comandante Lísias chegar, vou resolver o caso.» 23E deu ordens ao oficial de serviço para manter Paulo na prisão, mas com certa liberdade e licença para receber ajuda dos amigos.

Paulo na prisão

24Alguns dias mais tarde, Félix24,24 Ver 23,24 e nota. ia acompanhado de Drusila24,24 Drusila era a filha mais nova do rei Herodes Agripa (ver 12,1 e nota). Ela abandonou o seu primeiro marido, o rei Emeso, para se casar com Félix., sua mulher, que era judia. Mandou chamar Paulo e ouviu-o a respeito da fé em Cristo Jesus. 25Mas quando Paulo começou a falar da justiça, do autodomínio e do dia do juízo final, Félix assustou-se muito e disse a Paulo: «Por agora, podes ir. Quando eu puder, chamo-te outra vez.» 26Félix esperava também que Paulo lhe desse algum dinheiro e por isso o chamava muitas vezes para falar com ele. 27Dois anos depois, Pórcio Festo24,27 Pórcio Festo. Nomeado governador da Judeia em 59 ou 60; morreu em 62 d.C. substituiu Félix como governador. Como Félix queria agradar aos judeus, deixou Paulo na prisão.

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Paulo apela para o imperador

251Três dias depois de ter tomado conta do governo daquela região, Festo saiu de Cesareia e foi a Jerusalém. 2Os chefes dos sacerdotes e as autoridades judaicas apresentaram-se diante dele com as suas acusações contra Paulo. 3Pediram a Festo o favor de mandar vir Paulo a Jerusalém. O plano deles era matá-lo no caminho. 4Mas Festo respondeu: «Paulo está preso em Cesareia e eu vou voltar para lá dentro de pouco tempo. 5Os mais qualificados de entre vós poderão vir comigo para lá o acusarem, se é que ele fez algum mal.» 6Festo só ficou em Jerusalém uns oito ou dez dias e depois voltou para Cesareia. No dia seguinte, tomou o seu lugar no tribunal e mandou buscar Paulo. 7Quando Paulo entrou, os judeus que tinham vindo de Jerusalém ficaram em volta dele e começaram a fazer muitas acusações graves, mas não conseguiram provar nenhuma. 8Então Paulo disse em sua defesa: «Eu não cometi qualquer falta, nem contra a lei judaica, nem contra o templo, nem contra o imperador9Então Festo, para agradar aos judeus, perguntou a Paulo: «Queres ir a Jerusalém para seres lá julgado por mim a respeito destas coisas?» 10Paulo respondeu: «Estou diante do tribunal do imperador romano, onde devo ser julgado. Não fiz mal nenhum aos judeus, como tu sabes muito bem. 11Se de facto sou culpado, ou se fiz alguma coisa que mereça a pena de morte, estou pronto a morrer. Mas se o que dizem contra mim não é verdade, ninguém me pode entregar aos judeus. Portanto, apelo para o imperador.»

12Então Festo, depois de conversar com os seus conselheiros, disse: «Apelaste para o imperador, irás ao imperador!»

Paulo diante de Agripa

13Algum tempo depois, o rei Agripa25,13 Agripa II, filho de Herodes Agripa I, referido no cap. 12. Drusila e Berenice eram, portanto, irmãs de Agripa II. e Berenice foram a Cesareia para cumprimentar Festo25,13 Ver 24,27 e nota.. 14Como ali ficaram alguns dias, Festo contou ao rei o caso de Paulo: «Tenho cá um homem que Félix deixou na prisão. 15Quando fui a Jerusalém, os chefes dos sacerdotes e as autoridades judaicas puseram-me uma queixa contra ele e reclamavam a sua condenação. 16Eu disse-lhes que as autoridades romanas não costumam condenar ninguém sem primeiro chamar os acusadores diante do acusado, para que ele tenha oportunidade de se defender. 17Por isso, quando eles cá vieram não perdi tempo e, logo no dia seguinte, tomei lugar no tribunal e mandei trazer o homem. 18Os seus inimigos apresentaram-se para o acusar, mas não tinham contra ele nenhum crime grave, como eu pensava. 19A única acusação era a respeito da sua própria religião e de um certo Jesus que morreu, mas que Paulo afirma estar vivo. 20Como eu não sabia o que havia de fazer com uma questão destas, perguntei a Paulo se queria ir a Jerusalém para ser lá julgado sobre essas coisas de que o acusavam. 21Mas Paulo pediu para ser julgado pelo imperador e eu dei ordem para ele continuar preso até poder mandá-lo ao imperador.» 22Então Agripa disse a Festo: «Também eu gostava de ouvir esse homem.» Festo respondeu: «Pois amanhã mesmo vais ouvi-lo.»

23No dia seguinte, Agripa e Berenice chegaram com grande cerimónia e pompa. Entraram na sala de receções com os chefes militares e os homens mais importantes da cidade. Festo mandou trazer Paulo 24e disse: «Rei Agripa e todos os senhores aqui presentes! Vejam este homem! É contra ele que todos os judeus, tanto daqui como de Jerusalém, fazem acusações na minha presença. Eles insistem em que este homem não deve continuar vivo. 25Mas eu acho que ele não fez nada que mereça a morte. Contudo, como pediu para ser julgado pelo imperador, resolvi enviá-lo a César. 26Como até agora não sei bem o que escrever a respeito dele ao imperador, trago-o aqui diante de todos, especialmente de ti, rei Agripa, para que do interrogatório eu consiga tirar alguma coisa para escrever. 27Pois parece-me absurdo mandar um prisioneiro sem indicar as acusações que há contra ele.»

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Paulo apresenta o seu caso a Agripa

261Então Agripa26,1 Ver 25,13 e nota. disse a Paulo: «Podes falar em tua defesa.» Paulo estendeu a mão e disse: 2«Rei Agripa! Sinto-me feliz em poder hoje diante de ti defender-me de tudo aquilo de que os judeus me acusam. 3Principalmente, porque conheces muito bem todos os costumes e questões dos judeus. Por isso te peço que me ouças com paciência.

4Os judeus sabem perfeitamente como desde a minha juventude eu passei a vida entre a minha gente, e em Jerusalém. 5Eles sempre souberam, e podem confirmar isso, se quiserem, que desde a minha mocidade pratiquei os costumes dos fariseus26,5 Ver 23,6., os mais rigorosos da nossa religião. 6E agora trouxeram-me aqui para ser julgado por causa da esperança que tenho na promessa feita por Deus aos nossos antepassados. 7As doze tribos do nosso povo de Israel esperam também ver o cumprimento dessa promessa, e por isso adoram a Deus de dia e de noite, sem desanimar. É por causa dessa esperança, rei Agripa, que os judeus agora me acusam. 8Por que é que se julga incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?

9Ora eu também pensava que devia fazer tudo o que pudesse contra o nome de Jesus de Nazaré. 10E foi o que fiz em Jerusalém. Com a autorização que recebi dos chefes dos sacerdotes, meti muitos dos santos na cadeia. E quando os condenavam à morte, eu dava o meu voto contra eles. 11Muitas vezes ia pelas sinagogas e, à força de torturas, procurava levá-los a negar a sua fé. Tinha-lhes tanta raiva que até nas cidades estrangeiras os perseguia26,11 Em relação aos v. 9–11, ver 8,3; 9,1–2; 22,4–5..

12Foi com essa intenção que eu fui à cidade de Damasco, autorizado e com ordens dos chefes dos sacerdotes. 13Ia na estrada, ó rei, e por volta do meio-dia vi uma luz vinda do céu, mais brilhante do que o Sol. A luz envolveu-me, a mim e aos que me acompanhavam na viagem. 14Caímos todos no chão e eu ouvi então uma voz na língua dos hebreus: “Saulo, Saulo! Por que me persegues? De nada te serve revoltares-te como um animal espicaçado.” 15Eu então perguntei: “Quem és tu, Senhor?” A voz respondeu-me: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues! 16Levanta-te e põe-te de pé. Eu apareci-te para ficares ao meu serviço e para contares aos outros o que viste hoje e o que eu te hei de mostrar depois. 17Hei de livrar-te dos judeus e dos não-judeus, para os quais te vou mandar agora. 18Irás abrir-lhes os olhos, para os fazeres passar das trevas para a luz. Vais livrá-los do poder do Diabo para os confiares a Deus. Alcançarão assim o perdão dos pecados e passarão a ter parte na herança entre os que são santificados pela fé em mim.”

19Desde então, ó rei Agripa, não desobedeci à visão que me veio do céu. 20Primeiro, preguei a mensagem em Damasco, depois em Jerusalém, depois em toda a terra dos judeus e também aos não-judeus. A todos eles disse que tinham de se arrepender e de se voltar para Deus, mostrando pelo seu comportamento que estavam arrependidos. 21Foi por isso que os judeus me agarraram, quando eu estava no templo, e me quiseram matar. 22Mas com a ajuda de Deus, continuei a dar o meu testemunho até agora, e por isso aqui estou a falar-vos de Deus a todos pequenos e grandes. O que vos digo não é mais do que aquilo que os profetas e Moisés disseram que ia acontecer: 23que o Messias tinha de morrer e de ser o primeiro a ressuscitar, para levar essa luz tanto aos judeus como aos não-judeus.»

24Ao chegar a este ponto da sua defesa, Festo26,24 Ver 24,27 e nota. disse em voz alta: «Estás doido, Paulo! Os teus muitos estudos fizeram-te perder o juízo!» 25Mas Paulo respondeu: «Não estou doido, Excelência. O que estou a dizer é a verdade e as minhas palavras são sensatas. 26Está aqui o rei Agripa, que conhece bem todas estas coisas, e por isso falo com tanta confiança na sua presença. Nada disto foi feito às escondidas. 27Rei Agripa, acreditas nos profetas? Eu sei que acreditas!»

28Então Agripa disse a Paulo: «Por pouco me persuades a fazer-me cristão!» 29Paulo respondeu: «Pois eu peço a Deus que, por pouco ou por muito, não só tu, mas todos os que hoje me estão a ouvir aqui, se tornem naquilo que eu sou, mas sem estas correntes.» 30Em seguida, o rei Agripa levantou-se, e bem assim o governador e Berenice e todos os que estavam com eles. 31Ao saírem, diziam uns aos outros: «Este homem não fez nada que mereça a morte. Nem sequer devia estar preso.» 32Então Agripa disse a Festo: «Este homem podia ser posto em liberdade, se não tivesse pedido para ser julgado pelo imperador