a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
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José consegue interpretar os sonhos

401Depois destas coisas, aconteceu que o encarregado das bebidas para o rei do Egito e o padeiro cometeram qualquer ofensa contra o seu senhor, o faraó do Egito. 2O faraó ficou muito irritado contra estes dois funcionários, o chefe dos encarregados das bebidas e o chefe dos padeiros, 3e meteu-os na cadeia, na casa do chefe dos guardas, onde estava a prisão e onde também José se encontrava preso. 4O chefe da guarda encarregou José de olhar por eles e de os servir naquilo que precisassem e assim passaram muito tempo naquela cadeia.

5Certa noite o encarregado das bebidas e o padeiro do rei do Egito, presos naquela cadeia, tiveram um sonho cada um e cada sonho com significado diferente. 6Na manhã seguinte, José foi ter com eles e achou-os muito preocupados. 7E perguntou aos eunucos do faraó que com ele estavam na prisão do seu senhor: «Por que é que estão hoje com o ar tão carregado?» 8Eles responderam: «É que cada um de nós teve um sonho e não há ninguém capaz de nos dar a devida interpretação.» Então José disse-lhes: «Só Deus é que pode dar-nos a interpretação dos sonhos! Contem-me lá aquilo com que sonharam!»

9O chefe dos encarregados das bebidas contou então o seu sonho a José. Era o seguinte: «Sonhei que via diante de mim uma videira. 10Essa videira tinha três varas e depois rebentava, floria e nasciam os cachos, que se transformavam em uvas maduras. 11Na minha mão eu tinha o copo do faraó. Então agarrava nas uvas, espremia-as para dentro do copo do faraó e colocava-o nas suas mãos.»

12José respondeu-lhe: «Aqui tens a interpretação desse sonho. As três varas significam três dias. 13Dentro de três dias, o faraó vai fazer com que possas de novo erguer a cabeça e vai colocar-te de novo no posto que ocupavas. Assim poderás colocar nas mãos do faraó o copo em que ele bebe, tal como era de regra antes, quando eras o encarregado das bebidas. 14Peço-te que te lembres de mim quando as coisas te estiverem a correr bem, e faz o favor de lembrar o meu caso ao faraó para que eu possa sair desta prisão. 15Pois vim da terra dos hebreus para aqui, arrastado à força, e aqui não fiz nada de mal para me meterem nesta masmorra.»

16O chefe dos padeiros viu que José tinha dado uma interpretação favorável ao sonho e disse então a José: «Eu também sonhei que tinha três cestos de pão à cabeça. 17No cesto que estava por cima tinha muitas variedades de bolos de pasteleiro para o faraó. Vinham as aves e comiam do cesto que eu tinha à cabeça.»

18José respondeu: «A interpretação desse sonho é esta. Os três cestos significam três dias. 19Dentro de três dias, o faraó vai mandar-te cortar a cabeça e pendurar numa forca, de modo que as aves hão de vir debicar a tua carne.»

20Três dias depois celebravam-se os anos do faraó e ele ofereceu um banquete aos seus funcionários. Diante de todos, tratou especialmente do caso do chefe dos encarregados das bebidas e do chefe dos padeiros. 21Colocou novamente o chefe dos encarregados das bebidas no seu posto de trabalho, de modo que pudesse ser ele de novo a colocar o copo nas mãos do faraó, 22mas mandou pendurar numa forca o chefe dos padeiros, tal como José tinha interpretado. 23No entanto, o chefe dos encarregados de bebidas esqueceu-se de José e não fez nada em favor dele.

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José interpreta os sonhos do faraó

411Passaram-se dois anos. Certo dia também o faraó teve um sonho. Sonhou que estava junto ao rio Nilo 2e que do rio subiam sete vacas de belo aspeto e gordas, que se puseram a pastar por entre os juncos. 3Logo atrás delas, outras sete vacas subiam do rio, magras e de mau aspeto e pararam na margem do rio, junto das primeiras vacas. 4E então as vacas magras e de mau aspeto devoraram as sete vacas de belo aspeto e bem nutridas.

Depois disto, o faraó acordou; 5mas voltou a adormecer e teve ainda outro sonho. Sete espigas de trigo bem gradas e belas cresciam num único pé. 6Mas logo a seguir nasceram outras sete espigas vazias e secas por causa do vento leste. 7E estas sete espigas vazias engoliram as sete espigas gradas e belas.

Nisto o faraó acordou e viu que era um sonho. 8Na manhã seguinte, estava muito preocupado e mandou chamar todos os adivinhos e sábios do Egito e contou-lhes os sonhos. Mas ninguém conseguia dar-lhe a interpretação41,8 Um sonho inquietante: ver Dn 2,2.. 9Então o chefe dos encarregados das bebidas falou com o faraó e disse-lhe: «Realmente agora tenho que reconhecer que cometi uma falta. 10Quando o faraó se irritou contra mim e contra o chefe dos padeiros e nos mandou meter na cadeia do chefe da sua guarda, 11certa noite cada um de nós teve um sonho com significado diferente. 12Estava lá connosco um rapaz hebreu que era escravo do chefe da guarda do faraó; contámos-lhe os nossos sonhos e ele explicou-nos o significado do sonho que cada um de nós tinha tido. 13E tudo aconteceu exatamente como ele nos tinha interpretado: o faraó colocou-me de novo no meu posto e ao meu colega enforcou-o.»

14O faraó mandou chamar José e foram a toda a pressa tirá-lo da masmorra. José cortou a barba, vestiu roupas novas e apresentou-se diante do faraó. 15O faraó disse-lhe: «Eu tive um sonho e ninguém o sabe interpretar. Ora, ouvi dizer que quando te contam um sonho, tu és capaz de interpretá-lo.»

16José respondeu: «Isso não depende de mim. Deus é que há de dar a resposta para bem do faraó.» 17Então o faraó contou a José: «Eu sonhei que estava na margem do rio Nilo. 18Nisto vi sete vacas gordas e de belo aspeto que saíam do rio e iam pastar por entre os juncos. 19Logo depois sete outras vacas saíam do rio, magras e de mau aspeto, como eu nunca tinha visto em todo o Egito. 20As vacas magras e de mau aspeto devoraram as sete primeiras vacas, as gordas. 21Mas mesmo depois de as terem comido, ninguém diria que as tinham comido, porque continuavam magras como antes.

Nesse momento, acordei. 22Mas depois voltei a ter outro sonho. Eram sete espigas que cresciam num só pé de trigo gradas e belas. 23Mas logo a seguir rebentaram outras sete espigas vazias e secas por causa do vento leste. 24Então as sete espigas vazias engoliram as sete espigas boas. Contei isto aos adivinhos, mas ninguém foi capaz de dar uma explicação.»

25José disse então ao faraó: «Os dois sonhos do faraó são, na realidade, um só. Foi Deus que quis comunicar ao faraó aquilo que ele vai fazer. 26As sete vacas gordas representam sete anos e as sete espigas boas significam também sete anos. Fazem parte de um único sonho. 27As sete vacas magras e de mau aspeto, que vieram depois, são igualmente sete anos, bem como as sete espigas vazias e secas pelo vento leste. São sete anos de fome que hão de vir. 28É como eu disse a Vossa Majestade. Deus mostrou ao faraó aquilo que vai fazer. 29Hão de vir sete anos de grande fartura em todo o Egito. 30Mas depois virão sete anos de fome. Toda a gente se esquecerá da fartura que havia antes no Egito e a fome levará o país à ruína. 31Tão dura será a fome que há de vir depois que da fartura de antes não ficará nem rasto. 32E quanto ao facto de o sonho ter sido visto por duas vezes, significa que Deus está mesmo decidido a pôr isso em prática, muito em breve.

33Por isso, Vossa Majestade devia procurar um homem inteligente e sábio para o encarregar de dirigir o país. 34Deve igualmente nomear e estabelecer governadores pelo país, a fim de recolherem um quinto da produção do Egito, durante os sete anos de fartura. 35Que eles recolham todo o trigo que sobra durante estes bons anos que estão para vir e o armazenem em cada uma das cidades, às ordens do faraó, para depois alimentar o país. 36Assim haverá alimento em reserva para toda a gente, tendo em conta os sete anos de fome que hão de assolar o Egito. Desta forma, a fome não há de destruir o país.»

José, representante do faraó

37O plano exposto por José agradou ao faraó e aos conselheiros. 38Então o faraó disse aos seus conselheiros: «Seremos porventura capazes de encontrar um homem tão inspirado por Deus como este?» 39Por isso, declarou a José: «Visto que Deus te deu a conhecer todas essas coisas, não há ninguém tão inteligente e sábio como tu. 40Ficas encarregado de dirigir o meu palácio; e todo o meu povo se submeterá às tuas ordens41,40 O hebraico usa a expressão: Todo o povo te beijará na boca.. Só eu serei maior do que tu, porque sou o rei.» 41O faraó continuou ainda: «Portanto, ficas nomeado governador de todo o país do Egito.» 42Ao dizer isto, tirou da sua mão o anel com o selo real e colocou-o na mão de José. Mandou-lhe vestir roupas de linho fino e colocar ao pescoço um colar de ouro41,42 É um tipo de homenagem que documentos egípcios antigos testemunham. Ver Dn 5,29.. 43Depois convidou-o a subir para o carro destinado ao principal colaborador do faraó e ordenou que à frente dele fosse um arauto a gritar: «Prestem homenagem41,43 O grito dos pregoeiros, traduzido aqui como se fosse hebraico, pode ser também uma palavra egípcia significando “atenção”.!» E assim José ficou nomeado governador de todo o Egito.

44O faraó declarou a José: «Eu sou o faraó. Mas sem a tua autorização, ninguém pode fazer seja o que for41,44 Literalmente: Sem ti ninguém levantará o pé ou a mão, em todo o país do Egito. Esta expressão idiomática sublinha a importância da autoridade concedida. no Egito.»

45O faraó deu a José o nome de Safnat-Panea41,45 Não se conhece este nome em egípcio, mas é semelhante a um termo que significa “vida”. e deu-lhe em casamento Assenat, filha de Potifera, sacerdote de Heliópolis. Depois José saiu dali para ir percorrer todo o Egito.

46José tinha trinta e seis anos de idade quando compareceu diante do faraó, rei do Egito. Depois despediu-se do faraó e começou a viajar por todo o Egito. 47Durante os sete anos de fartura a terra produziu colheitas muito abundantes. 48Ele mandou recolher, durante aqueles sete anos, tudo aquilo que sobrava e mandou-o armazenar nas várias cidades, para vir a servir de reserva de alimento. Em cada cidade, armazenava tudo o que sobrava da colheita dos campos da região.

49José conseguiu assim armazenar trigo em tão grande quantidade, como as areias do mar. José teve mesmo de deixar de o medir, porque já ninguém o conseguia medir.

50Antes ainda de terem chegado os anos de fome, a mulher de José, Assenat, filha de Potifera, sacerdote de Heliópolis, deu à luz dois filhos. 51Ao mais velho José deu o nome de Manassés porque, dizia ele, «Deus fez com que eu pudesse esquecer todos os meus sofrimentos e a casa do meu pai41,51 Há um jogo de palavras, em hebraico, entre o nome Manassés e a expressão traduzida aqui por se eu pudesse esquecer.52Ao segundo deu o nome de Efraim porque, dizia ele, «Deus fez com que eu tivesse filhos na terra onde vivi oprimido41,52 De novo o hebraico joga com a semelhança entre Efraim e a expressão traduzida por fez com que eu tivesse filhos.

53Acabaram-se aqueles sete anos de fartura que houve no Egito 54e começaram os sete anos de fome, tal como José tinha anunciado. Em todos os outros países havia fome. Mas no Egito havia comida.

55Quando os habitantes do Egito começaram a sentir fome e foram pedir trigo ao faraó, este respondia a todos: «Vão ter com José e façam o que ele vos mandar41,55 Comparar com Jo 2,5.

56Quando a fome já se estendia a todo o país, José mandou abrir os armazéns de trigo, para ser distribuído pelos egípcios, porque a fome apertava cada vez mais no Egito. 57De todos os países iam ao Egito para comprar trigo a José, porque a fome era enorme por todo o lado.

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Os irmãos de José vão ao Egito

421Jacob soube que no Egito se distribuíam rações de trigo e disse aos seus filhos: «Porque estão para aí a olhar uns para os outros? 2Ouvi dizer que no Egito vendem trigo. Vão lá ver se conseguem também arranjar algum, para podermos continuar a viver e para não termos de morrer de fome.»

3Dez dos irmãos de José puseram-se a caminho, para irem ao Egito comprar trigo. 4Mas Jacob não deixou ir Benjamim, irmão de José, com os outros irmãos, porque receava que lhe acontecesse alguma desgraça. 5Os filhos de Israel que iam comprar trigo juntaram-se aos outros que também iam com o mesmo fim, porque a fome era geral na terra de Canaã.

6José era quem mandava no país e era ele que determinava o trigo que se podia vender ao povo. Por isso, os irmãos de José foram apresentar-se diante dele, inclinando-se até ao chão. 7Ao ver os seus irmãos, José reconheceu-os, mas dirigiu-se a eles com maneiras duras, como se não os conhecesse, e perguntou-lhes: «Donde vêm?» Eles responderam: «Vimos da terra de Canaã para comprar mantimentos.»

8José reconheceu os seus irmãos, mas eles não o reconheceram. 9José estava a lembrar-se dos sonhos que tinha tido a respeito deles42,9 Ver 37,5–11. e declarou: «São mas é espiões e vieram para saber quais seriam os pontos fracos deste país!» 10Mas eles replicaram: «De maneira nenhuma, senhor! Estes seus servos vieram só para comprar mantimentos. 11Somos todos filhos do mesmo pai e somos gente honrada; estes seus servos nunca foram espiões!» 12José replicou: «Não é verdade! Vocês vieram saber quais eram os pontos fracos deste país!» 13Mas eles insistiram de novo: «Nós, servos de Vossa Majestade, éramos doze irmãos, todos filhos do mesmo pai, que vive na terra de Canaã. O mais novo ficou com o pai e o outro já não existe.»

14Contudo, José insistiu mais uma vez: «É aquilo que eu vos disse. Vocês são espiões 15e vamos já tirar a prova disso. Juro pela vida do faraó que não sairão daqui sem cá vir o vosso irmão mais novo. 16Que um de vós vá buscar o vosso irmão enquanto vocês ficam aqui presos. Se for verdade o que disseram sobre esse irmão, considero que as outras vossas declarações também serão verdadeiras. Mas se não for verdade, juro pela vida do faraó que serão considerados como espiões.» 17José mandou-os para a cadeia, onde ficaram três dias.

18No fim desses três dias José disse-lhes: «Eu sou uma pessoa que respeita a Deus. Por isso, se querem conservar a vida, façam aquilo que vos vou dizer. 19Se realmente são gente honrada, que fique apenas um aqui na prisão; os outros podem ir, levando consigo trigo para matar a fome à vossa família. 20Mas tragam-me cá o vosso irmão mais novo, para eu ver se as vossas declarações são verdadeiras e assim não terão que morrer.»

Eles prontificaram-se a fazer isso, 21mas iam comentando uns para os outros: «Infelizmente, somos agora castigados por causa do nosso irmão, pois quando ele estava em aflição e nos pediu compaixão não fizemos caso dele. Por isso, caiu agora sobre nós esta desgraça.»

22Rúben disse-lhes: «Eu bem vos disse que não fizessem mal ao rapaz, mas não me quiseram dar ouvidos42,22 Ver 37,21–22.. Agora estamos a responder pela sua morte.»

23Eles não sabiam que José estava a perceber o que eles diziam, dado que sempre lhes tinha falado por meio de um intérprete. 24José então retirou-se de junto deles e chorou de emoção. Depois foi de novo ter com eles para lhes falar e mandou que Simeão fosse preso ali à vista de todos.

25Depois José deu ordens para que enchessem os sacos deles com trigo e pusessem em cada saco o dinheiro, que eles tinham dado pelo trigo e que, além disso, lhes dessem provisões para a viagem. E assim fizeram. 26Eles carregaram o trigo nos seus burros e foram-se embora.

27Na estalagem onde passaram a noite, um deles abriu o saco para dar de comer ao seu burro e encontrou o dinheiro, colocado mesmo na boca do seu saco. 28Foi contar aos irmãos e disse-lhes: «Deram-me outra vez o dinheiro. Reparem, está aqui na boca do meu saco!» Eles ficaram muito assustados; e a tremer diziam uns para os outros: «Que significa isto que Deus nos fez?»

29Quando chegaram junto do seu pai, Jacob, na terra de Canaã, contaram-lhe tudo aquilo que lhes tinha acontecido e disseram-lhe: 30«O homem que governa aquele país falou-nos com modos muito duros e tratou-nos como se tivéssemos ido para espiar o país. 31Nós insistimos com ele que somos gente honrada e nunca tínhamos praticado espionagem. 32Dissemos que éramos doze irmãos, filhos do mesmo pai, que um já não existia e que o mais novo tinha ficado com o pai na terra de Canaã. 33Mas o homem que manda naquele país respondeu-nos: “Para eu saber se são realmente gente honrada, que fique aqui comigo um de vós; os outros podem ir e levar os mantimentos necessários para matar a fome da vossa família; 34depois tragam-me o vosso irmão mais novo. Assim ficarei a saber que de facto não são espiões e que são gente honrada. Só então vos entregarei de novo o vosso irmão e poderão andar à vontade pelo país.”»

35Quando foram esvaziar os seus sacos, cada um deles encontrou uma bolsa com o dinheiro dentro do saco. Ao verem as bolsas com o seu dinheiro, ficaram cheios de medo, tanto eles como o pai.

36Jacob disse-lhes então: «Vão-me deixar sem filhos. Primeiro fiquei sem José; agora fiquei sem Simeão; e ainda querem levar-me Benjamim? E eu é que tenho de suportar estas perdas todas.»

37Mas Rúben respondeu ao pai: «Podes matar os meus dois filhos, se eu não te trouxer de novo Benjamim. Deixa-o ao meu cuidado que eu prometo que to hei de trazer.» 38Mas Jacob respondeu: «O meu filho não pode ir convosco, porque o irmão dele já morreu e este ficou a ser o único sobrevivente dos dois filhos de Raquel. Se alguma desgraça lhe acontece durante essa vossa viagem, obrigam este velho a morrer de tristeza.»