a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
49

O servo do Senhor: segundo poema

491Escutem-me, povos das ilhas distantes49,1 Ilhas distantes. Ver 40,15. Ventre materno. Ver 44,2.,

estejam atentos, povos longínquos.

O Senhor chamou por mim, antes de eu nascer;

quando eu estava no ventre materno,

pronunciou o meu nome.

2Fez da minha palavra uma espada afiada49,2 Ver Hb 4,12; Ap 1,16.,

escondeu-me na concha da sua mão.

Fez da minha mensagem uma seta penetrante,

bem guardada na sua aljava.

3E disse-me: «Israel, tu és o meu servo;

em ti se manifesta a minha glória.»

4Mas eu pensava para comigo:

«Em vão trabalhei e em vão gastei as minhas forças.»

No Senhor é que eu tenho garantido o meu direito

e no meu Deus, a minha recompensa.

5E agora o Senhor declara-me

que, desde o ventre materno, me formou,

para ser seu servo,

para conduzir a ele os descendentes de Jacob

e congregar o povo de Israel à sua volta.

Aos olhos do Senhor eu estou bem-visto,

no meu Deus reside a minha força.

6Ele disse-me: «Não basta que estejas ao meu serviço

só para restabeleceres as tribos de Jacob

e reunires os sobreviventes de Israel.

Eu quero que sejas a luz das nações,

para que a minha salvação chegue aos confins da terra49,6 Versículo citado em At 13,47; cf. também Lc 2,32; Is 42,6; 51,4; Jo 8,12; At 26,23.

Regresso dos exilados

7O Senhor, que é o libertador

e o Santo de Israel,

declara agora o seguinte

a ti que te tens desprezado a ti mesmo,

que tens sido detestado pelos pagãos,

e tens sido escravo dos poderosos:

«Quando os reis te virem, levantar-se-ão do trono,

e os príncipes prestar-te-ão homenagem.»

Tudo isto acontece porque o Senhor é fiel,

porque o Santo de Israel te escolheu.

8Eis o que diz o Senhor:

«No tempo devido respondi-te

quando chegou o dia da salvação vim em tua ajuda.

Guardei-te para uma aliança com o povo,

para restaurar o país e repartir as terras devastadas49,8 Dia da Salvação. Ver 2 Co 6,2. Guardei-te. Ou: formei-te. Para restaurar o país e repartir as terras. Alusão à distribuição do país de Canaã sob a direção de Josué (Js 13—21).,

9para dizer aos prisioneiros: “Saiam da prisão!”

e aos que vivem na escuridão: “Venham para a luz!”

Haverá boas pastagens ao longo dos caminhos,

e encontrarão alimento em todas as colinas.

10Não passarão fome nem sede,

não lhes fará mal nem o vento suão nem o sol,

porque aquele que lhes tem amor

os conduzirá para se refrescarem nas fontes de água.

11Transformarei os meus montes em caminhos planos

e as minhas estradas serão arranjadas.

12Vejam como eles chegam de longe!

Uns vêm do Norte, outros do Ocidente,

e outros da terra do Egito, ao Sul!»

13Exulta, ó céu! Alegra-te, ó terra!

Aclamem com alegria as montanhas!

Na verdade, o Senhor reconforta o seu povo

e mostra o seu amor aos humilhados.

Deus reconforta Jerusalém

14Jerusalém dizia de mim: «O Senhor abandonou-me;

ele esqueceu-se de mim.»

15Mas pode uma mãe esquecer o seu bebé,

deixar de ter amor ao filho que ela gerou?

Ainda que ela se esquecesse dele,

eu nunca te esqueceria.

16Pois eu gravei a tua imagem49,16 Ou: o teu nome. Ver 44,5. na palma das minhas mãos;

as tuas muralhas estão sempre diante dos meus olhos.

17Os que te vão reconstruir49,17 Segundo o manuscrito principal de Isaías encontrado em Qumran e outras versões antigas. Texto tradicional: os teus filhos. andam mais depressa,

do que os que te destruíram

e os que te devastavam fogem de ti.

18Olha bem à tua volta e vê:

todos se reúnem para virem ter contigo.

Juro pela minha vida, diz o Senhor,

que eles serão para ti como um vestido precioso

ou como um adorno de noiva.

19As tuas ruínas e escombros e a tua terra desolada

em breve serão estreitos para os seus habitantes,

enquanto os que te destruíram se irão embora.

20Ainda hás de ouvir dizer aos filhos

que julgavas perdidos:

«Este lugar é muito apertado,

chega-te para aí, para eu poder habitar.»

21Tu perguntarás: «Quem me deu tantos filhos?

Eu era uma mulher sem filhos e estéril,

exilada e abandonada;

quem criou estes filhos?

Deixaram-me completamente só;

donde vieram estes filhos?»

22Assim fala o Senhor Deus:

«Vou levantar a minha mão e fazer um sinal às nações,

vou levantar um estandarte para chamar os povos.

Trarão os teus filhos nos braços

e as tuas filhas aos ombros.

23Os reis serão os tutores dos teus filhos

e as suas princesas serão as amas.

Inclinar-se-ão por terra diante de ti

e lamberão o pó dos teus pés.

Então reconhecerás que eu sou o Senhor

e que não ficarão envergonhados os que confiam em mim.»

24Pode-se retirar ao guerreiro o despojo conquistado,

ou arrancar um prisioneiro ao vencedor49,24 Vencedor. Segundo o manuscrito principal de Isaías encontrado em Qumran, e outras versões antigas. No texto tradicional hebraico o justo não faz sentido e foge ao contexto que trata dos babilónios, entre os quais se encontram os exilados hebreus.?

25Pois bem, assim declara o Senhor:

«Se é facto que se pode tirar ao vencedor o prisioneiro

e ao guerreiro o despojo conquistado,

eu mesmo defenderei a tua causa,

e libertarei os teus filhos.

26Obrigarei os teus opressores

a comerem a sua própria carne,

e a embriagarem-se com o seu próprio sangue,

como se fosse vinho novo.

Então todos saberão que eu, o Senhor,

é que sou o teu salvador,

que o Poderoso de Jacob é o teu libertador!»

50

Processo de Deus com o seu povo

501Eis o que diz o Senhor:

«Onde está o documento de divórcio

com que repudiei Jerusalém, vossa mãe50,1 Jerusalém é representada seja como esposa do Senhor (Is 54,4–8), seja como mãe de todos os seus habitantes (Is 49,20–22; 66,7–12). Documento de divórcio. Ver Dt 24,1–4; Mt 19,7.?

Ou então a qual dos meus credores

vos vendi como escravos?

Se foram vendidos foi por causa das vossas culpas;

e se a vossa mãe foi repudiada, foi por causa dos vossos crimes.

2Por que é que não encontrei ninguém quando vim?

Por que é que ninguém respondeu quando chamei?

Será o meu braço muito curto para vos poder salvar?

Não terei força suficiente para vos libertar?

Contudo, com uma simples ameaça seco o mar,

e mudo os rios em deserto;

por falta de água, os peixes morrem de sede e apodrecem.

3Visto o céu de negro

e cubro-o com uma veste de luto.»

O servo do Senhor: terceiro poema

4O Senhor Deus ensinou-me o que devo dizer,

para saber dar uma palavra de alento aos desanimados.

Cada manhã ele me faz estar atento

para que eu aprenda como bom discípulo.

5O Senhor ensinou-me a escutar

e eu não resisti nem recuei.

6Apresentei as costas aos que me batiam,

e a face aos que me arrancavam a barba.

Não escondi o rosto

dos que me ultrajavam e cuspiam50,6 Comparar com Mt 26,67; 27,30 e textos paralelos..

7O Senhor Deus ajuda-me

e por isso eu não sentia os ultrajes,

o meu rosto era resistente como uma pedra

e sabia que não ficaria envergonhado.

8Aquele que me defende está ao meu lado;

quem se atreverá a levantar contra mim um processo?

Compareçamos juntos diante do juiz!

Apresente-se quem quiser ser meu adversário!

9Na verdade, se o Senhor Deus me ajudar,

quem poderá condenar-me?

Todos os meus adversários acabarão

como roupa velha roída pela traça50,9 Comparar com Rm 8,33–34..

Obediência ao servo do Senhor

10Se alguém entre vós reconhece a autoridade do Senhor,

esteja atento à palavra do seu servo!

Mesmo que caminhe pelas trevas, sem um raio de luz,

deposite a sua confiança no Senhor

e apoie-se no seu Deus.

11Mas quanto a vós, que ateais o fogo,

que vos armais de setas inflamadas,

caireis nas chamas do vosso próprio fogo,

apanhados pelas vossas setas incendiadas.

É assim que a mão do Senhor vos há de tratar

e haveis de jazer nos vossos tormentos.

51

Salvação sem fim

511Ouçam, todos os que procuram a justiça,

e que buscam o Senhor.

Contemplem o rochedo do qual foram talhados,

a pedreira de onde foram tirados:

2olhem para Abraão, vosso pai,

e para Sara que vos deu à luz.

Quando o chamei, não tinha filhos,

mas abençoei-o e dei-lhe descendência numerosa.

3O Senhor vai reconfortar Sião por todas as suas ruínas.

Converterá este deserto num jardim de maravilhas,

este lugar árido em paraíso do Senhor;

ali haverá alegria e regozijo,

cânticos de louvor e muita música.

4Presta-me atenção, ó meu povo,

escuta-me atentamente, minha nação.

Sou eu, o Senhor, que estabeleço a lei,

e o direito que eu determino será a luz dos povos.

5A minha vitória está muito próxima,

a minha salvação está mesmo a chegar.

Com a força dos meus braços governarei os povos;

as nações longínquas põem a sua esperança em mim,

e depositam a sua confiança no meu poder.

6Levantem os olhos para o céu,

observem em baixo a terra;

o céu dissipar-se-á como fumo,

e a terra gastar-se-á como a roupa.

Os seus habitantes cairão como mosquitos,

mas a minha libertação será para sempre,

a vitória que vou conseguir não terá fim.

7Ouve-me, ó povo que sabes o que é justo,

tu que tens a minha lei no coração!

Não tenham medo dos insultos dos homens,

não se deixem abater pelos seus ultrajes,

8porque eles hão de ser destruídos

como a traça faz à roupa,

como os vermes fazem à lã.

Mas a minha vitória será para sempre

e a minha libertação nunca mais terá fim.

Desperta, Senhor!

9Desperta! Desperta, Senhor,

e mostra novamente o teu poder!

Levanta-te como dantes, nas gerações passadas!

Não foste tu que esmagaste o monstro Raab,

que trespassaste o dragão dos mares51,9 Dragão dos mares. Nas narrativas babilónicas da criação, o monstro Raab personifica o oceano destruidor, que é posteriormente vencido pelo deus criador. O profeta aplica a Javé este mesmo poder. Sobre Raab, ver Sl 89,11; Jb 9,13.?

10Não foste tu que secaste o mar,

as águas do grande oceano?

Não traçaste um caminho nas profundezas do mar,

para dar passagem aos que tu libertaste?

11Aqueles que o Senhor libertou voltarão,

e entrarão em Sião com cânticos.

Uma alegria eterna iluminará o seu rosto,

um regozijo transbordante os inundará;

as penas e aflições desaparecerão.

12Sou eu, e só eu aquele que vos reconforta.

Quem és tu para teres medo dum simples mortal,

dum homem que acabará como a erva?

13Esqueces o Senhor, que te criou,

que estendeu os céus e alicerçou a terra.

Todos os dias tremes de medo,

diante da fúria do opressor51,13 Sobre a teologia da criação, ver 44,24 e nota.,

como se ele tivesse capacidade para te destruir.

Mas onde é que está a fúria do opressor?

14Em breve o prisioneiro será libertado;

não morrerá no cárcere, nem lhe faltará o pão.

15Eu, o Senhor, é que sou o teu Deus;

agito o mar e as suas ondas rugem.

O meu nome é Senhor do Universo.

16Confiei-te a minha mensagem,

guardei-te na palma da minha mão;

estendo novamente os céus e alicerço a terra,

e digo a Sião: «Tu és o meu povo!»

Desperta, Jerusalém!

17Desperta! Desperta, Jerusalém e levanta-te!

Já bebeste da mão do Senhor a taça da sua ira;

bebeste dela até à última gota,

a ponto de ficares atordoada.

18De todos os filhos que deste à luz,

não há nenhum que te guie,

de todos os filhos que criaste,

nenhum que te segure pela mão.

19Desses dois males que caíram sobre ti,

quem é que se compadece de ti?

Da ruína e destruição, fome e guerra,

quem é que te consolará?

20Os teus filhos jazem desfalecidos,

em todos os cantos das ruas,

como antílopes caídos na rede,

apanhados pela cólera do Senhor,

pela ameaça do teu Deus.

21Por isso, escuta-me com atenção,

ó Jerusalém desgraçada,

tu que estás bêbada, sem ser de vinho!

22Eis o que o Senhor teu Deus,

que toma a defesa do seu povo, te diz:

«Vou retirar da tua mão a taça que atordoa,

a taça da minha cólera;

nunca mais tornarás a beber dela.

23Vou pô-la na mão dos teus verdugos,

daqueles que te diziam:

“Inclina-te, para passarmos por cima de ti!”

E tiveste de baixar os teus ombros

como se fosses terra e calçada da rua,

para passarem por cima de ti.»