a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
5

Cântico da vinha

51Quero cantar para o meu melhor amigo

o canto que ele dedicou à sua vinha.

Sobre uma colina verdejante,

tinha o meu amigo uma vinha5,1 Vinha. Símbolo de Israel. Ver Is 3,14; 27,2–5; Jr 2,21; 5,10; 6,9; 12,10; Ez 15,1–8; 17,3–10; 19,10–14; Os 10,1; Sl 80,9–19; cf. Mt 21,33–43; Jo 15,1–7..

2Remexeu a terra, limpou-a das pedras,

e depois plantou-a do melhor bacelo.

No meio construiu uma torre de guarda

e fez lá também um lagar de pedra.

Esperava que ela lhe desse boas uvas,

mas só deu uvas amargas.

3E agora, habitantes de Jerusalém e gente de Judá,

digam lá quem é que tem a culpa:

sou eu ou é a minha vinha?

4Poderia eu fazer mais pela minha vinha,

depois de tudo o que eu fiz?

Por que é que então só deu uvas amargas,

quando eu esperava que desse uvas boas?

5Pois bem, vou dizer-vos

o que penso fazer à minha vinha:

vou desfazer-lhe a sebe, para que seja destruída,

e fazer uma brecha no muro, para que seja calcada.

6Vai ficar completamente abandonada,

pois nem será podada nem cavada.

Então os espinhos e a erva daninha hão de crescer,

e proibirei as nuvens

que derramem chuva sobre ela.

7A vinha do Senhor, o Todo-Poderoso,

sois vós, israelitas;

e a sua terra preferida

sois vós, gente de Judá.

O Senhor esperava de vós honestidade,

mas só há crueldade;

esperava justiça,

mas só há gritos de injustiça5,7 A última frase do v. 7 é um jogo de assonâncias de quatro palavras hebraicas com som semelhante e sentidos opostos..

Ameaças contra os ambiciosos

8Ai de vós, que arranjais casas e mais casas,

e que comprais campos e mais campos,

até se tornarem senhores absolutos

de todos os lugares do país.

9Mas eu ouvi o Senhor todo-poderoso a dizer:

«Muitas casas serão destruídas,

e embora sejam grandes e belas

ninguém as habitará.

10Três hectares de vinha

não darão mais que um pequeno barril de vinho,

e dez medidas de semente

só produzirão uma.»

11Ai daqueles que se levantam cedinho,

para logo se embriagarem,

e até altas horas da noite

se aquecem com o vinho.

12Embebedam-se ao som das harpas e da lira,

dos tamborins e das flautas.

Por isso, não reparam nas obras do Senhor,

nem veem o que as suas mãos realizam.

13Por isso, o meu povo será deportado,

porque não compreende nada.

Os seus nobres vão morrer de fome

e a gente simples vai morrer de sede.

14Eis que o abismo da morte alargou as suas goelas

e abriu a sua boca enorme.

Os nobres e o povo simples para lá resvalam

entre tumultos e festejos.

15Toda a gente terá de se dobrar e humilhar,

e os arrogantes terão de inclinar-se.

16O Senhor do Universo será vitorioso,

o Deus santo mostrará a sua santidade

por este julgamento e por esta justiça.

17Os cordeiros pastarão nas ruínas da cidade

como se fosse nos seus prados,

e os cabritos de engorda

procurarão aí a sua comida.

18Ai dos que puxam a culpa com as cordas da maldade,

e o pecado com sogas de carro de bois.

19Eles dizem: «Que o Senhor se despache, sem demora,

para podermos ver a sua obra:

que o plano do Santo de Israel aconteça rapidamente,

para o podermos comprovar.»

20Ai dos que chamam ao mal, bem e ao bem, mal,

que tratam as trevas como luz e a luz como trevas,

que têm o amargo por doce e o doce por amargo5,20 Sobre a inversão de valores, ver Am 5,7; Mq 3,2; Pv 17,15..

21Ai dos que se tomam por sábios

e pensam ser inteligentes!

22Ai dos valentes a beber vinho

e dos espertos em preparar bebidas fortes.

23Eles subornam o culpado em troca dum presente,

e recusam ao inocente a sua justiça.

24Por isso, como a língua de fogo consome o restolho

e a palha é devorada pela chama,

as suas raízes ficarão podres

e os seus rebentos voarão como o pó fino.

É que eles rejeitaram o ensino do Senhor do Universo,

e desprezaram a palavra do Santo de Israel.

O Senhor, contra o seu povo

25Por isso, o Senhor se volta, irado, contra o seu povo

e estende a mão para o ferir.

Tremem os montes;

os cadáveres das vítimas

jazem nas ruas, como se fosse estrume.

Mas ainda assim, a cólera do Senhor não se aplaca,

e a sua mão continua ameaçadora.

26Ele levantará um estandarte

para chamar uma nação distante5,26 No hebraico: as nações distantes. Trata-se com certeza da Assíria, que já começara a ameaçar a Palestina.;

vai assobiar-lhe para os confins da terra.

E eis que ela se apressa e chega rapidamente.

27Nenhum se sente cansado nem coxo;

nenhum cabeceia de sono, nem dorme;

nenhum desaperta o seu cinto,

nem desata a correia das sandálias.

28As suas flechas estão aguçadas

e todos os arcos bem puxados;

os cascos dos seus cavalos são duros como pedra,

e as rodas dos carros parecem um turbilhão.

29Mais parece o rugido duma leoa

junto com o rugido das suas crias.

Aos gritos, eles agarram a presa e seguram-na bem

e ninguém lha consegue tirar.

30Naquele dia,

o rugido do inimigo contra este país

será como o rugir do mar.

Olharão para a terra,

mas só haverá trevas espessas;

as nuvens sombrias obscurecem a luz do dia.

6

Vocação de Isaías

61No ano em que morreu o rei Uzias6,1 A morte do rei Uzias deu-se provavelmente no ano 740 a.C. Ver 2 Rs 15,7; 2 Cr 26,23. tive uma visão em que vi o Senhor sentado num trono muito alto. A cauda do seu manto enchia o templo. 2Havia serafins6,2 Serafins. Etimologicamente significa “seres semelhantes ao fogo”. junto dele, para o servirem. Cada um tinha seis asas: com duas cobriam a cara, com duas cobriam o corpo e com duas voavam. 3E clamavam uns para os outros:

«Santo, Santo, Santo

é o Senhor do Universo!

Toda a terra está cheia da sua glória6,3 Isaías é por excelência o profeta da santidade de Deus. Ver 1,4; 10,17; 40,25; 57,15.

4A voz deles fazia tremer as portas nos gonzos e o templo encheu-se de fumo. 5Então eu disse:

«Ai de mim, estou perdido6,5 Ou: estou reduzido ao silêncio. Segundo a mentalidade bíblica de então, quem visse a Deus morria. Ver Ex 3,6; 33,20; Jz 6,22; 13,22; 1 Rs 19,13.!

Sou um homem de lábios impuros,

que vive no meio dum povo de lábios impuros,

e vi com os meus olhos o rei, o Senhor do Universo.»

6Voou então para mim um dos serafins com uma brasa na mão que tinha tirado do altar com uma tenaz. 7Com ela, tocou-me na boca e disse:

«Olha bem! Isto tocou os teus lábios.

A tua culpa desapareceu,

o teu pecado fica perdoado.»

8Então ouvi a voz do Senhor a perguntar:

«Quem vou enviar?

Quem irá por nós?»

Eu respondi: «Aqui estou eu! Envia-me a mim.»

9Ele retomou a palavra:

«Vai dizer a este povo:

Ouçam com os vossos ouvidos, que não entendereis;

vejam com os vossos olhos, que não compreendereis.

10Torna o coração deste povo insensível,

endurece-lhe os ouvidos e cega-lhe os olhos:

que os seus olhos não vejam,

que os seus ouvidos não ouçam,

que o seu coração não entenda,

para que não se voltem para mim e fiquem curados6,10 Ver Mt 13,14–15; Mc 4,12; Lc 8,10; Jo 12,40; At 28,26–27.

11Então eu perguntei:

«Até quando, Senhor?»

Ele respondeu-me:

«Até que as cidades fiquem devastadas e desabitadas,

as casas sem gente e os campos como desertos.

12O Senhor mandará para longe os homens,

e muitas terras do país ficarão abandonadas.

13Se ainda ficar uma décima parte da população,

também esses serão arrasados.

Serão como o carvalho ou o terebinto

que apenas deitam um rebento quando são cortados.

Mas desse rebento crescerá de novo o povo de Deus.»

7

Mensagem para o rei Acaz

71No tempo em que Acaz, filho de Jotam e neto de Uzias, era rei de Judá, aconteceu que o rei da Síria, chamado Recin e o rei de Israel, chamado Peca, que era filho de Remalias, vieram atacar a cidade de Jerusalém. Mas não a conseguiram conquistar7,1 Guerra siro-efraimita. Ver 2 Rs 16,5; 2 Cr 28,5–6 e a Introdução a Isaías..

2Acaz e a sua corte foram informados de que os arameus tinham acampado em Efraim. O rei e o seu povo, perante a notícia, ficaram com o coração em sobressalto e agitados, como as árvores da floresta pelo vento.

3O Senhor disse então a Isaías: «Vai ter com o rei Acaz e leva contigo o teu filho Chear-Jachub7,3 Os filhos de Isaías têm nomes simbólicos. Chear-Jachub significa “um resto há de voltar”. Ver Is 10,21 e 4,3.. Ele encontra-se no extremo do canal da piscina superior, na direção da calçada do Lavadouro7,3 Calçada do Lavadouro. Ver 2 Rs 18,17. 4E dir-lhe-ás: “Está atento e tem calma. Não tenhas medo nem te acobardes, por causa da cólera de Recin, o arameu, e do filho de Remalias. Não são mais que dois tições fumegantes. 5De facto, a Síria, Peca e as tropas de Efraim resolveram acabar contigo, pois disseram: 6Avancemos contra Judá, vamos sitiá-la, obrigá-la a render-se a nós e instalemos como rei o filho de Tabiel7,6 Na guerra siro-efraimita, o filho de Tabiel seria um dirigente político de origem síria..”

7Mas eis o que diz o Senhor Deus:

“Tal coisa não acontecerá:

8Damasco é a capital da Síria,

e Recin é quem manda em Damasco.

Daqui a sessenta e cinco anos

Efraim deixará de ser um povo.

9Samaria é a capital de Efraim

e Peca, o filho de Remalias, só manda em Samaria.

Se não acreditarem, não estarão seguros!”»

Emanuel

10O Senhor mandou Isaías levar outra mensagem a Acaz: 11«Pede ao Senhor, teu Deus, um sinal, venha ele do fundo do abismo ou do alto do céu.»

12Mas Acaz respondeu: «Não farei tal coisa, não quero provocar o Senhor

13Isaías disse-lhe então: «Ouve-me bem, herdeiro da dinastia de David7,13 Expressão alusiva à promessa de 2 Sm 5,5–16.! Não vos basta cansarem a paciência dos homens, para cansarem também agora a paciência do meu Deus? 14Pois bem, é o próprio Senhor que vos vai dar um sinal: a jovem mulher7,14 Alusão provável à jovem mulher de Acaz, futura mãe do rei Ezequias. A antiga tradução grega usa a palavra virgem que será retomada em Mt 1,23. está grávida e vai dar à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel7,14 Emanuel significa “Deus connosco”. Nome coletivo para indicar que Deus não abandona o seu povo. Ver 8,8.10; 41,10.. 15Comerá requeijão e mel, até chegar à idade de saber rejeitar o mal e escolher o bem. 16Mas antes que a criança saiba rejeitar o mal e escolher o bem, o território dos dois reis que tu tanto temes será abandonado pelos seus habitantes.»

Invasão devastadora

17«O Senhor fará vir para ti, para o teu povo e para a tua dinastia dias tais como não houve desde que Efraim se separou de Judá. É a invasão do rei da Assíria.

18Vai chegar o dia em que o Senhor,

com um assobio, fará vir as moscas

dos confins do delta do Egito

e as abelhas da terra da Assíria.

19Virão e pousarão todas juntas

nos vales escarpados e nas fendas das rochas,

em todos os matos e em todos os bebedouros.

20Num destes dias,

o Senhor alugará uma navalha

do outro lado do rio Eufrates

isto é, o rei da Assíria,

e rapará a vossa cabeça,

a vossa barba e todos os pelos do vosso corpo7,20 A cabeça rapada e a barba rapada eram sinais de desonra. Ver 2 Sm 10,4–5..

21Nesses tempos,

cada um criará uma vaca e duas ovelhas;

22haverá tão grande abundância de leite

que a alimentação será de requeijão.

Todos os que ficarem no país

hão de comer requeijão e mel.

23Nesses tempos,

uma vinha com mil cepas

no valor de mil moedas de prata,

produzirá silvas e cardos.

24Só se poderá entrar no país com arcos e flechas,

porque estará coberto de silvas e cardos.

25As colinas que antes eram cultivadas à enxada

e onde não havia perigo de alastrarem silvas e cardos,

apenas servirão para pasto dos bois,

para serem pisadas pelos carneiros7,25 Ou: Nas colinas, antes cultivadas à enxada, haverá tantos espinhos e cardos que ninguém poderá lá entrar.