a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
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Vocação de Isaías

61No ano em que morreu o rei Uzias6,1 A morte do rei Uzias deu-se provavelmente no ano 740 a.C. Ver 2 Rs 15,7; 2 Cr 26,23. tive uma visão em que vi o Senhor sentado num trono muito alto. A cauda do seu manto enchia o templo. 2Havia serafins6,2 Serafins. Etimologicamente significa “seres semelhantes ao fogo”. junto dele, para o servirem. Cada um tinha seis asas: com duas cobriam a cara, com duas cobriam o corpo e com duas voavam. 3E clamavam uns para os outros:

«Santo, Santo, Santo

é o Senhor do Universo!

Toda a terra está cheia da sua glória6,3 Isaías é por excelência o profeta da santidade de Deus. Ver 1,4; 10,17; 40,25; 57,15.

4A voz deles fazia tremer as portas nos gonzos e o templo encheu-se de fumo. 5Então eu disse:

«Ai de mim, estou perdido6,5 Ou: estou reduzido ao silêncio. Segundo a mentalidade bíblica de então, quem visse a Deus morria. Ver Ex 3,6; 33,20; Jz 6,22; 13,22; 1 Rs 19,13.!

Sou um homem de lábios impuros,

que vive no meio dum povo de lábios impuros,

e vi com os meus olhos o rei, o Senhor do Universo.»

6Voou então para mim um dos serafins com uma brasa na mão que tinha tirado do altar com uma tenaz. 7Com ela, tocou-me na boca e disse:

«Olha bem! Isto tocou os teus lábios.

A tua culpa desapareceu,

o teu pecado fica perdoado.»

8Então ouvi a voz do Senhor a perguntar:

«Quem vou enviar?

Quem irá por nós?»

Eu respondi: «Aqui estou eu! Envia-me a mim.»

9Ele retomou a palavra:

«Vai dizer a este povo:

Ouçam com os vossos ouvidos, que não entendereis;

vejam com os vossos olhos, que não compreendereis.

10Torna o coração deste povo insensível,

endurece-lhe os ouvidos e cega-lhe os olhos:

que os seus olhos não vejam,

que os seus ouvidos não ouçam,

que o seu coração não entenda,

para que não se voltem para mim e fiquem curados6,10 Ver Mt 13,14–15; Mc 4,12; Lc 8,10; Jo 12,40; At 28,26–27.

11Então eu perguntei:

«Até quando, Senhor?»

Ele respondeu-me:

«Até que as cidades fiquem devastadas e desabitadas,

as casas sem gente e os campos como desertos.

12O Senhor mandará para longe os homens,

e muitas terras do país ficarão abandonadas.

13Se ainda ficar uma décima parte da população,

também esses serão arrasados.

Serão como o carvalho ou o terebinto

que apenas deitam um rebento quando são cortados.

Mas desse rebento crescerá de novo o povo de Deus.»

7

Mensagem para o rei Acaz

71No tempo em que Acaz, filho de Jotam e neto de Uzias, era rei de Judá, aconteceu que o rei da Síria, chamado Recin e o rei de Israel, chamado Peca, que era filho de Remalias, vieram atacar a cidade de Jerusalém. Mas não a conseguiram conquistar7,1 Guerra siro-efraimita. Ver 2 Rs 16,5; 2 Cr 28,5–6 e a Introdução a Isaías..

2Acaz e a sua corte foram informados de que os arameus tinham acampado em Efraim. O rei e o seu povo, perante a notícia, ficaram com o coração em sobressalto e agitados, como as árvores da floresta pelo vento.

3O Senhor disse então a Isaías: «Vai ter com o rei Acaz e leva contigo o teu filho Chear-Jachub7,3 Os filhos de Isaías têm nomes simbólicos. Chear-Jachub significa “um resto há de voltar”. Ver Is 10,21 e 4,3.. Ele encontra-se no extremo do canal da piscina superior, na direção da calçada do Lavadouro7,3 Calçada do Lavadouro. Ver 2 Rs 18,17. 4E dir-lhe-ás: “Está atento e tem calma. Não tenhas medo nem te acobardes, por causa da cólera de Recin, o arameu, e do filho de Remalias. Não são mais que dois tições fumegantes. 5De facto, a Síria, Peca e as tropas de Efraim resolveram acabar contigo, pois disseram: 6Avancemos contra Judá, vamos sitiá-la, obrigá-la a render-se a nós e instalemos como rei o filho de Tabiel7,6 Na guerra siro-efraimita, o filho de Tabiel seria um dirigente político de origem síria..”

7Mas eis o que diz o Senhor Deus:

“Tal coisa não acontecerá:

8Damasco é a capital da Síria,

e Recin é quem manda em Damasco.

Daqui a sessenta e cinco anos

Efraim deixará de ser um povo.

9Samaria é a capital de Efraim

e Peca, o filho de Remalias, só manda em Samaria.

Se não acreditarem, não estarão seguros!”»

Emanuel

10O Senhor mandou Isaías levar outra mensagem a Acaz: 11«Pede ao Senhor, teu Deus, um sinal, venha ele do fundo do abismo ou do alto do céu.»

12Mas Acaz respondeu: «Não farei tal coisa, não quero provocar o Senhor

13Isaías disse-lhe então: «Ouve-me bem, herdeiro da dinastia de David7,13 Expressão alusiva à promessa de 2 Sm 5,5–16.! Não vos basta cansarem a paciência dos homens, para cansarem também agora a paciência do meu Deus? 14Pois bem, é o próprio Senhor que vos vai dar um sinal: a jovem mulher7,14 Alusão provável à jovem mulher de Acaz, futura mãe do rei Ezequias. A antiga tradução grega usa a palavra virgem que será retomada em Mt 1,23. está grávida e vai dar à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel7,14 Emanuel significa “Deus connosco”. Nome coletivo para indicar que Deus não abandona o seu povo. Ver 8,8.10; 41,10.. 15Comerá requeijão e mel, até chegar à idade de saber rejeitar o mal e escolher o bem. 16Mas antes que a criança saiba rejeitar o mal e escolher o bem, o território dos dois reis que tu tanto temes será abandonado pelos seus habitantes.»

Invasão devastadora

17«O Senhor fará vir para ti, para o teu povo e para a tua dinastia dias tais como não houve desde que Efraim se separou de Judá. É a invasão do rei da Assíria.

18Vai chegar o dia em que o Senhor,

com um assobio, fará vir as moscas

dos confins do delta do Egito

e as abelhas da terra da Assíria.

19Virão e pousarão todas juntas

nos vales escarpados e nas fendas das rochas,

em todos os matos e em todos os bebedouros.

20Num destes dias,

o Senhor alugará uma navalha

do outro lado do rio Eufrates

isto é, o rei da Assíria,

e rapará a vossa cabeça,

a vossa barba e todos os pelos do vosso corpo7,20 A cabeça rapada e a barba rapada eram sinais de desonra. Ver 2 Sm 10,4–5..

21Nesses tempos,

cada um criará uma vaca e duas ovelhas;

22haverá tão grande abundância de leite

que a alimentação será de requeijão.

Todos os que ficarem no país

hão de comer requeijão e mel.

23Nesses tempos,

uma vinha com mil cepas

no valor de mil moedas de prata,

produzirá silvas e cardos.

24Só se poderá entrar no país com arcos e flechas,

porque estará coberto de silvas e cardos.

25As colinas que antes eram cultivadas à enxada

e onde não havia perigo de alastrarem silvas e cardos,

apenas servirão para pasto dos bois,

para serem pisadas pelos carneiros7,25 Ou: Nas colinas, antes cultivadas à enxada, haverá tantos espinhos e cardos que ninguém poderá lá entrar.

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O filho de Isaías

81O Senhor disse-me: «Pega num pedaço de barro grande e devidamente preparado e escreve em carateres correntes: Para aquele que tem o nome de Pronto-para-o-Saque-Rápido-para-a-Presa8,1 A expressão Pronto-para-o-saque-Rápido-para-a-presa é a tradução do nome simbólico do filho de Isaías “Maher-chalal-cach-baz”, e indica que o povo irá mesmo ser saqueado por uma potência estrangeira.2Mostrei o escrito a duas testemunhas dignas de fé, o sacerdote Urias e Zacarias, filho de Berequias. 3Uni-me então à profetisa, minha mulher; ela ficou grávida e deu à luz um filho. E o Senhor ordenou-me: «Põe-lhe o nome de Pronto-para-o-saque-Rápido-para-a-presa. 4Ainda antes que o menino saiba dizer “papá, mamã”, as riquezas de Damasco e os despojos de Samaria serão levados ao rei da Assíria

A invasão da Assíria

5O Senhor disse-me ainda:

6«Este povo despreza as águas do canal de Siloé8,6 Canal de Siloé. Levava as águas da fonte de Guion para o interior da cidade. O profeta opõe as águas calmas deste canal, como símbolo da confiança em Deus, às águas caudalosas do rio Eufrates, como símbolo das alianças políticas com os poderosos deste mundo. Cf. Jo 9,7.11.,

que correm mansamente,

e preferem a arrogância dos dois reis,

Recin e o filho de Remalias.

7Por isso, o Senhor fará cair sobre vós,

as torrentes abundantes e violentas do rio Eufrates,

isto é, o rei da Assíria com todo o seu poder.

O Eufrates sairá do seu leito

e transbordará das suas margens.

8As suas águas invadem Judá,

inundam e transbordam

até chegarem ao pescoço.

As suas margens estender-se-ão

até abrirem a vastidão da tua terra,

ó Emanuel8,8 Ver 7,14 e nota.!

9Tremam, ó povos, pois sereis derrotados;

estejam atentas, nações longínquas;

armem-se bem, pois sereis esmagadas;

armem-se bem, sereis sempre esmagadas.

10Tracem planos, que sairão frustrados;

pronunciem ameaças que não se realizarão,

porque Deus está connosco8,10 Literalmente: Emanuel. Ver 7,14 e nota.

O Senhor, rochedo de salvação

11Assim me falou o Senhor, agarrando-me pela mão

e afastando-me do caminho deste povo:

12«Não acreditem em conspiração,

quando este povo fala de conspiração,

não temam o que ele teme,

nem se assustem.

13Quem devem tratar como santo é ao Senhor, todo-poderoso;

é a ele que devem respeitar,

é ele que vos deve inspirar temor.

14Ele será uma pedra de tropeço8,14 Pedra de tropeço. A mesma palavra hebraica, embora com outras vogais, pode significar “santuário”. Sobre a simbólica da pedra, com sentido salvífico ou com sentido negativo (pedra de tropeço), ver Is 28,16; Gn 49,24; Is 17,10; 2 Sm 22,2; Sl 28,1; Lc 2,34; Rm 9,32–33; 1 Pe 2,7–8. e um precipício,

para os dois reinos de Israel:

será uma armadilha, uma cilada

para os habitantes de Jerusalém.

15Muitos tropeçarão nela,

cairão e serão despedaçados,

serão apanhados na armadilha e não poderão livrar-se.»

Deus esconde o seu rosto

16Guardo a mensagem, selo as instruções e confio-as apenas aos meus discípulos. 17Espero no Senhor, que por agora ocultou o seu rosto aos descendentes de Jacob. Espero pacientemente nele. 18Eu próprio e os filhos que o Senhor me deu serviremos de sinal e presságio para Israel, em nome do Senhor do Universo, que habita no monte Sião8,18 Cf. Hb 2,13. Os filhos do profeta e da profetisa são uma mensagem viva. Ver Is 7,3; 10,21; 8,1–3; cf. Jr 16,1–8; Ez 24,15–24; Os 1–3..

19Certamente que vos dirão: «Consultem os espíritos dos mortos e os adivinhos que murmuram e segredam. Não é normal que um povo consulte os seus deuses e interrogue os mortos acerca dos vivos, 20para receberem instruções com garantia?» Certamente hão de falar dessa maneira. Mas para esses não haverá manhã8,20 O costume de consultar os espíritos dos mortos era bastante comum. Ver Is 19,3; 1 Sm 28,7–20; 2 Rs 21,6; 23,24. Esta praxe é proibida em Lv 19,31; 20,6.27; Dt 18,11; 1 Sm 28,3.9..

Dias obscuros

21hão de vaguear pelo país, oprimidos e esfomeados.

Agastados pela fome,

amaldiçoarão o seu rei e o seu Deus;

levantarão os olhos para o céu

22e, depois, olharão para a terra.

Encontrarão apenas aflição e trevas,

escuridão opressora e noite sem saída.

23Não haverá mais escuridão para o país em angústia.

Profecia messiânica

Em tempos passados, o Senhor humilhou

a região de Zabulão e a de Neftali8,23 Zabulão e Neftali. Tribos de Israel instaladas a oeste do lago de Tiberíades, na parte superior do rio Jordão. Este território tinha sido anexado pelos assírios entre 734 e 732 a.C., como também o território a este do Jordão e da Galileia..

Mas no futuro, cobrirá de glória

o caminho ao longo do mar8,23 O caminho ao longo do mar ligava o Egito à Assíria, ao longo da costa palestinense. Sobre 8,23 e 9,1 ver Mt 4,15–16 e Lc 1,79.

o país a leste do Jordão

e a Galileia dos estrangeiros.