a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
2

A infidelidade de Israel

21O Senhor deu-me esta ordem:

2«Vai comunicar a seguinte mensagem aos habitantes de Jerusalém

e diz-lhes da minha parte:

“Eu, o Senhor, lembro-me

de como me eras fiel, quando eras jovem2,2 O povo de Israel é frequentemente comparado a uma jovem. Ver 2,20–25.;

como me amavas quando nos casámos;

seguiste-me pelo deserto,

por terra que nada produz.

3Israel era consagrado ao Senhor;

eras como os primeiros frutos da sua colheita.

Sofrimento e desgraça caía sobre os que te molestavam.

Sou eu, o Senhor, que to digo.”»

Pecado dos antepassados de Israel

4Escutem o que o Senhor tem para vos dizer,

ó descendentes de Jacob, ó gente da casa de Israel.

5Assim diz o Senhor:

«De que me acusaram os vossos pais?

Por que se afastaram de mim?

Adoraram ídolos falsos

e ficaram como eles, coisas sem valor.

6Não se dignaram perguntar:

“Onde está o Senhor,

que nos tirou do Egito

que nos conduziu através do deserto?

Onde prevalece aridez e escuridão,

onde a vida corre perigo,

onde o humano evita passar e

onde ninguém quer morar?”

7Trouxe-vos para uma terra fértil,

a fim de desfrutarem da abundância das colheitas.

Mas arruinaram a minha terra;

fizeram do país que vos dei uma coisa detestável.

8Os sacerdotes não me buscaram;

os depositários da minha lei não me conheciam.

Os chefes revoltaram-se contra mim;

os profetas falavam em nome de Baal,

e seguiam cultos e ídolos falsos.

9Por isso, vos trago a julgamento,

hoje, a vós, amanhã aos vossos descendentes.

Sou eu, o Senhor, que o declaro.

10Vão à ilha de Chipre;

mandem investigar em Quedar2,10 Quedar. Situada a norte do deserto arábico, a leste da Palestina, direção oposta à ilha de Chipre.,

hão de ver que nada de semelhante aconteceu antes.

11Mais nenhuma nação mudou de deuses,

embora esses deuses não sejam verdadeiros.

Porém o meu povo trocou o seu Deus glorioso

por deuses falsos.

12Os céus ficaram horrorizados

e tremeram de espanto.

Sou eu, o Senhor, que o digo.

13De facto, o meu povo cometeu dois erros:

afastaram-se de mim, fonte de água viva,

e cavaram cisternas com fendas,

que não retêm a água.»

Resultado da infidelidade de Israel

14«Israel não é escravo, nem nasceu escravo.

Por que andam os seus inimigos à caça dele?

15Rugem diante dele como leões;

deixam a sua terra desolada;

as suas cidades estão em ruínas,

completamente abandonadas.

16Até os habitantes de Mênfis e de Táfnis2,16 Mênfis e Táfnis. Cidades egipcías situadas no norte do país.

te vieram humilhar, ó Israel!

17Tu és o culpado do que te aconteceu!

Abandonaste o Senhor, teu Deus,

quando ele mesmo te guiava pelo caminho.

18Que pensas tu ganhar indo ao Egito,

para beber da água do Nilo?

Que pensas tu ganhar indo à Assíria,

para beber água do Eufrates?

19O mal que fizeste em me abandonares,

será o castigo que vais ter de sofrer.

Terás de aprender com amargura,

como foi mau teres deixado o Senhor, teu Deus,

e teres perdido o respeito por mim.

Sou eu, o Senhor, todo-poderoso, que o digo.

20Há muito que te libertei das correntes

que te faziam prisioneiro.

Prometeste que não adorarias outros deuses.

Mas entregaste-te como prostituta

aos cultos da fertilidade2,20 A prostituição sagrada era característica da religião cananeia. Os profetas comparam a infidelidade de Israel à prostituição.,

no cimo de qualquer monte e debaixo de qualquer árvore.

21Eu tinha-te plantado como vinha especial,

de qualidade bem escolhida.

Mas vê o que te aconteceu!

Transformaste-te numa vinha estragada e sem valor.

22Ainda que te lavasses muito bem,

com sabão e com potassa

a tua maldade não seria lavada.

Sou eu, o Senhor, que o digo.

23Como ousas dizer que não te degradaste,

que nunca prestaste culto a Baal?

Vê como te transviaste no vale2,23 Possível alusão ao vale de Hinom, a ocidente de Jerusalém. Sobre as práticas idólatras ali realizadas, ver Jr 7,31–32; 32,35; 2 Rs 23,10.;

repara no que fizeste.

És como uma jovem camela

correndo em todas as direções.

24És como uma jumenta selvagem habituada ao deserto;

levada pelo cio, ela fareja o vento;

ninguém a impede de seguir os seus desejos;

nenhum macho precisa de se cansar a procurá-la:

logo a descobre quando ela entra em cio.

25Não corras com pés descalços,

nem deixes a garganta com sede!

Mas tu disseste: “Não é possível!

Afeiçoei-me a outros deuses e é a eles que seguirei.”

26Assim como o ladrão se cobre de vergonha

quando é apanhado,

assim o povo de Israel se cobrirá de vergonha,

os seus reis e os seus chefes,

os seus sacerdotes e profetas.

27Dizem a uma árvore que é vosso pai

e a uma pedra que é a vossa mãe.

Em vez de se voltarem para mim,

viraram-me as costas.

Todavia, quando estão em dificuldade,

vêm pedir-me para que os ajude.

28Onde estão os deuses que fizeram para o vosso culto?

Que eles vos ajudem quando estiverem em dificuldade!

Pois tu, povo de Judá,

tens tantos deuses quantas cidades!

29Que queixas tens contra mim?

Vocês é que se revoltam contra mim,

diz o Senhor.

30Castiguei o vosso povo, mas de nada serviu;

não aprenderam a lição.

Mataram os vossos profetas à espada

com a ferocidade de um leão esfomeado.

31Que a geração de agora

preste atenção às palavras do Senhor.

Será que tenho sido para Israel como um deserto,

uma terra inóspita e perigosa?

Por que dizes então que fazes o que queres,

que nunca mais voltarás para mim?

32Será que uma jovem se esquece dos seus enfeites,

ou uma noiva do seu vestido?

Mas o meu povo esqueceu-se de mim

há tanto tempo, que já se não pode contar.

33Arranjas sempre maneira de te entregares

aos deuses que tu amas.

A mulher mais corrupta tem a aprender contigo.

34Os teus vestidos estão manchados!

Mas não com o sangue dos bandidos,

antes com o dos pobres,

que não fizeram nenhum mal.

E apesar de tudo isto,

35tu dizes: “Não fiz mal nenhum;

certamente o Senhor já não está irado comigo.”

Mas eu, o Senhor, vou chamar-te a julgamento,

precisamente por afirmares que não fizeste nenhum mal.

36Por que te rebaixas assim

nas tuas atitudes?

Ficarás envergonhada diante do Egito,

como já ficaste diante da Assíria.

37Sairás do Egito cheia de vergonha,

tapando o rosto com as mãos.

Eu, o Senhor, rejeitei aqueles em quem confiaste;

não lucrarás nada com eles.»

3

Uma prostituta obstinada

31Diz o Senhor:

«Se o homem se divorciar da sua mulher

e ela o deixar para casar com outro,

o primeiro já não volta a recebê-la de novo.

Se tal acontecesse,

seria uma corrupção para o país.

Mas tu, ó Israel,

tiveste muitos amantes3,1 Ver nota a 2,2.,

e agora queres voltar para mim!

2Olha para o cimo dos montes3,2 Ali praticava-se o culto da fecundidade. Ver 2,20.:

Haverá algum lugar onde não te tenhas desonrado?

Puseste-te à espera dos teus amantes,

à beira da estrada,

como um nómada espreita as suas vítimas no deserto.

Com a tua prostituição e maldade,

espalhaste a corrupção no país.

3Por isso, faltou a chuva

e o orvalho não caiu.

Mas continuavas obstinada na prostituição,

sem te arrependeres disso3,3 Ver Am 4,7–8..

4E agora dizes-me: “Tu és o meu pai

e o meu amigo de infância.

5Não vais ficar irado comigo para sempre.”

Porém tu dizes isso,

tendo feito todo o mal que pudeste.»

Judá não aprende com o castigo de Israel

6No tempo do rei Josias, o Senhor disse-me: «Viste o que Israel fez, como uma mulher infeliz? Deixou-me, e foi-se entregar como prostituta3,6 Josias foi rei de Judá de 640 a 609 a.C. Ver nota a 1,2. Israel designa aqui o reino do Norte. O povo de Deus é comparado a uma mulher infeliz. Os reinos de Israel e de Judá são comparados a duas irmãs. Ver Ez 23. Prostituta. Ver 2,2 e nota., ao culto dos ídolos no cimo dos montes, e debaixo de qualquer árvore.

7Esperei que, depois de tudo isso, ela voltaria para mim. Mas não. E a sua infiel irmã, Judá, estava a par de tudo. 8Judá também viu que me divorciei de Israel, e a mandei embora, porque ela me deixou e se fez prostituta3,8 Ver Dt 24,1–2; Is 50,1. O profeta alude à ruína de Samaria em 721 a.C. Ver 2 Rs 17.. Porém Judá, a irmã infiel de Israel, não teve medo e entregou-se à mesma prostituição. 9Não teve vergonha nenhuma. Corrompeu a terra, e cometeu adultério, ao prestar culto às imagens de pedra e aos ídolos das árvores. 10Em seguida, Judá, a irmã infiel de Israel, fingiu que voltava para mim; mas não foi sincera. Sou eu, o Senhor, que to digo.»

11Então o Senhor disse-me que, embora Israel se tivesse afastado, tinha acabado por se mostrar mais fiel do que a traidora Judá. 12E mandou-me dirigir este apelo a Israel:

«Ó Israel, infiel, volta para mim.

Eu terei misericórdia e não ficarei irado;

não ficarei irado contigo para sempre.

Sou eu, o Senhor, que to digo.

13Só te peço que reconheças a tua culpa,

que te revoltaste contra o Senhor, teu Deus.

Correste atrás dos ídolos,

debaixo de árvores frondosas

e não obedeceste à minha vontade.

14Voltem para mim, ó filhos infiéis; é a mim que pertencem! Sou eu, o Senhor, que o digo. Irei buscar uma pessoa numa cidade e duas outras numa família, para vos fazer voltar ao monte Sião. 15Dar-vos-ei chefes que me obedeçam e que vos dirigirão com sabedoria e entendimento.

16E quando o vosso número aumentar bastante no país, não se falará mais na arca da aliança3,16 Arca da Aliança. Ver Sl 132,6–7 e nota. do Senhor. Nunca mais se lembrarão, nem quererão falar acerca dela; não terão necessidade dela, nem farão outra para a substituir. 17Quando esses dias chegarem, Jerusalém será chamada “o trono do Senhor” e os pagãos virão ali, para me adorarem. Deixarão de seguir os seus corações teimosos e maus. 18Judá juntar-se-á a Israel e ambos regressarão do exílio à terra que dei para sempre aos vossos antepassados.»

A idolatria do povo de Deus

19«Eu, o Senhor, dizia para comigo:

Ó Israel, eu queria fazer de ti o meu filho

e dar-te uma terra aprazível,

a mais bela terra do mundo.

O meu desejo era que me chamasses pai,

e que nunca mais me deixasses.

20Mas tal como uma esposa infiel,

assim tu me atraiçoaste, ó povo de Israel.

Sou eu, o Senhor, que to digo.

21Ouvem-se vozes no cimo dos montes3,21 Ver v. 2 e nota.;

é o povo de Israel a chorar e a pedir misericórdia,

porque seguiram por maus caminhos

e esqueceram o Senhor, seu Deus.

22Voltem para mim, ó filhos pródigos;

eu vou curar-vos e ajudar-vos a ser fiéis.

E respondem-me: “Sim, nós voltamos para ti, Senhor,

porque tu és o nosso Deus.

23Realmente, não recebemos benefício nenhum

quando prestámos culto aos ídolos no cimo dos montes.

Pois só do Senhor, nosso Deus,

Israel pode receber ajuda.

24Mas desde a nossa infância, o vergonhoso culto a Baal

fez-nos perder os rebanhos, os filhos e as filhas3,24 Filhos e filhas. Alusão aos sacrifícios de crianças, oferecidos na religião cananeia. Ver Jr 7,31; 19,5; 22,3; Dt 18,10; 2 Rs 16,3; 17,17; 21,6; Sl 106,38.,

tudo o que os nossos antepassados nos deixaram.

25Devíamos prostrar-nos de vergonha

e deixar que a nossa desgraça nos cobrisse.

Nós e os nossos antepassados, desde sempre,

pecámos contra o Senhor, nosso Deus;

não obedecemos às suas ordens.”»

4

Deus convida ao arrependimento

41«Se te quiseres arrepender, ó Israel,

volta para mim.

Se deixares os ídolos que detesto,

não precisarás de andar sem rumo.

Palavra do Senhor!

2Se fores honesto e sincero,

poderás prestar juramento em nome do Senhor;

e os pagãos pedirão a minha bênção

e se sentirão felizes por isso.»

3Assim fala o Senhor a Judá e a Jerusalém:

«Lavrem os vossos terrenos incultos;

não semeiem no meio dos cardos4,3 Ver Os 10,12..

4Façam uma circuncisão

que afaste todo o mal do vosso coração,

ó habitantes de Judá e Jerusalém.

Se não, a minha ira se fará sentir

por causa das vossas transgressões;

o meu fogo vos consumirá

e ninguém o poderá apagar.»

Judá, ameaçada de invasão

5«Mandem ressoar a trombeta por todo o país!

Proclamem de maneira que se ouça bem

e digam aos habitantes de Judá e de Jerusalém

que corram para as cidades fortificadas.

6Deem o sinal de alarme a Sião!

Corram sem demora, pela vossa segurança!

Que eu vou mandar vir do norte4,6 Ver 1,14 e nota.

desgraças e grande destruição.

7O destruidor das nações acometerá

como um leão4,7 Ver Dn 7,4. que sai do covil.

Vem destruir a tua terra,

deixando em ruínas as tuas cidades,

e ninguém morará nelas.

8Vistam-se de luto4,8 Ver Is 22,12. e chorem em altos gritos,

porque Judá não escapará à ira do Senhor.

9Nesse dia, os reis e os membros do governo

perderão a sua coragem.»

Palavra do Senhor!

«Os sacerdotes ficarão pasmados

e os profetas admirados.

10Então eles replicarão:

“Ó Senhor, Deus, enganaste redondamente os habitantes de Jerusalém4,10 Ver Is 63,17.!

Disseste que teriam paz,

mas puseste a espada contra as suas gargantas.”

11Há de chegar o dia em que se dirá

aos habitantes de Jerusalém,

que um vento abrasador

sopra do deserto contra o meu povo.

Não será uma brisa suave

como a que limpa o trigo4,11 Para limpar o trigo atirava-se ao ar, com uma forquilha, a mistura de grão e de palha; o vento levava a palha deixando cair o grão..

12É um vento mais forte

que virá por minha ordem

e com o qual julgarei este povo.»

Judá, cercada pelo inimigo

(Exclama o povo)

13«Eis que o inimigo se aproxima

como se fosse uma nuvem.

Os seus carros de guerra são como um ciclone,

e os seus cavalos mais velozes do que águias.

Estamos perdidos!

Não conseguiremos escapar!»

(Responde Deus)

14«Ó Jerusalém, limpa a maldade do teu coração,

para poderes ser salva.

Até quando abrigarás dentro de ti

os teus maldosos pensamentos?

15Ouçam as más notícias que vêm de Dan

e das montanhas de Efraim4,15 Dan. Tribo de Israel situada próxima da nascente do Jordão. Montanhas de Efraim. Zona montanhosa entre Siquém e Betel, no centro da Palestina..

16Proclamem a toda a gente,

anunciem a Jerusalém

que o inimigo vem de um país longínquo,

lançando o grito de ataque contra as cidades de Judá.

17Cercarão Jerusalém,

como homens de guarda a um campo,

porque os seus habitantes se mostraram rebeldes.

Palavra do Senhor!

18Atraíste sobre ti tudo isto,

devido ao teu comportamento e à tua maldade.

A tua rebeldia produziu sofrimento;

feriu o teu coração.»

Jeremias lamenta o seu povo

19O meu coração parte-se de dor!

O meu peito está apertado pelo sofrimento.

Não consigo sossegar por um momento,

porque ouço o toque das trombetas e os gritos de guerra!

20É calamidade atrás de calamidade:

todo o país está em ruínas.

As nossas tendas foram subitamente deitadas por terra,

e os nossos abrigos destruídos.

21Até quando terei de ver o estandarte de guerra

e ouvir o toque das trombetas?

(Deus)

22«O meu povo é estúpido: não me conhece.

É como uma criança sem tino;

não tem entendimento.

É perito em fazer o mal,

mas não sabe fazer o que é bem.»

Jeremias contempla a destruição futura

23Vejo a terra desolada4,23 Terra desolada. A mesma expressão é usada em Gn 1,2.; o céu está sem luz.

24As montanhas tremem,

e as colinas fogem de um lado para o outro.

25Vejo que já não há ninguém;

até as aves desapareceram do céu.

26Vejo a terra fértil transformada num deserto;

as cidades ficaram em ruínas

por causa da terrível ira do Senhor.

27Eis o que declara o Senhor:

«O país inteiro será um deserto árido

porém não o destruirei totalmente.

28A terra cobre-se de luto;

e o céu escurece.

O que eu decidi foi o que mandei que se cumprisse.

E não voltarei atrás na decisão que tomei.»

29Toda a gente se põe em fuga

ao ouvir o ruído dos cavaleiros e arqueiros.

Uns escondem-se na floresta,

outros fogem para os rochedos.

As cidades ficam desertas,

ninguém se atreve a ficar lá.

30Ó Jerusalém, tu estás perdida!

Por que te vestiste de púrpura?

Por que te adornaste com joias e pintaste os olhos?

Isso não serve para nada!

Os teus amantes rejeitaram-te

e agora tentam matar-te.

31Ouço gemidos, como duma mulher a dar à luz,

com as dores do primeiro parto.

É Jerusalém que geme e suplica, estendendo a mão:

«Estou perdida! Vão matar-me!»