a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
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Job suporta maiores provações

21Chegado o dia de os seres celestes2,1 Ou: os filhos de Deus. Ver nota a 1,6. se apresentarem diante do Senhor, Satã apresentou-se mais uma vez com eles diante do Senhor. 2O Senhor perguntou de novo a Satã: «Donde vens?» E Satã respondeu de novo: «Fui passear e dar umas voltas pela terra.» 3Então o Senhor perguntou-lhe: «Não reparaste no meu servo Job? Não há outro como ele no mundo! É um homem bom e honesto, muito religioso e não faz nada de mal! Tu pretendeste fazer com que eu o arruinasse mas foi em vão. Ele continua firme na sua retidão!»

4Satã replicou ao Senhor: «Um homem é capaz de dar tudo o que tem e até a sua própria pele, para poder salvar a sua vida! 5Mas experimenta levantar a tua mão contra ele; faz com que ele sofra a doença nos seus ossos e no seu corpo e verás se ele não te amaldiçoa, mesmo na tua frente2,5 Ou: e verás se não se recusa a saudar-te, mesmo na tua frente.

6O Senhor respondeu-lhe: «Aí o tens à tua disposição. Mas poupa-lhe a vida.»

7Satã retirou-se de junto do Senhor e fez com que Job sofresse de chagas horríveis, desde os pés à cabeça. 8Job agarrou num caco e com ele raspava a sua pele, sentado no pó da terra.

9A mulher de Job dizia-lhe: «Ainda continuas firme na tua retidão? Amaldiçoa a Deus e morre de uma vez!»

10Mas Job respondia-lhe: «Estás a falar como uma ignorante qualquer! Se recebemos o bem da mão de Deus, por que não havemos de receber também o mal?» E apesar de tudo isto, Job não pronunciava uma palavra ofensiva contra Deus.

Os amigos de Job

11Três amigos de Job ouviram falar de todas as desgraças que tinham caído sobre ele. Eram: Elifaz de Teman2,11 Teman. Cidade edomeu, célebre pela sabedoria dos seus habitantes. Ver Jr 49,7., Bildad de Chua e Sofar de Naamá2,11 Chua e Naamá. Localidades não concretamente identificadas.. Saíram cada um de sua casa e combinaram ir juntos levar a Job um pouco de amizade e de conforto. 12Quando o viram de longe, nem o reconheciam. E cada um deles, a chorar em voz alta, rasgou a sua capa e atiraram cinza por cima das suas cabeças, em sinal de tristeza. 13E assim ficaram com ele sentados no chão, sem nenhum deles lhe dirigir uma palavra, sete dias e sete noites, pois viam que era enorme o seu sofrimento.

3
(Job)

Para quê viver?

31Ao fim dos sete dias, Job decidiu falar, para amaldiçoar a sua vida3,1 Literalmente: o dia do seu nascimento. Ver Jr 20,14–18. 2e, tomando a palavra, exclamou:

3«Desapareça o dia em que nasci,

a noite em que se disse: “É um rapaz3,3 Ou: e a noite que viu mais um homem ser concebido.!”

4Que esse dia se transforme em escuridão;

que Deus, lá do alto, deixe de cuidar dele

e que a luz o não venha iluminar!

5Que a escuridão mais sombria se apodere dele

e o envolva qual nuvem negra,

como um eclipse do Sol que espalha o terror.

6Que as trevas dominem aquela noite,

de modo que ela não apareça mais no calendário

nem entre no número dos meses.

7Que essa noite seja declarada estéril

e não se ouçam mais nela gritos de alegria.

8Que a desfaçam os que amaldiçoam o oceano3,8 Ou: o dia.,

os que são hábeis em esconjurar o monstro marinho3,8 Alusão aos monstros do oceano, objeto de ritos mágicos, para serem vencidos. Ver 40,25—41,26. O nome hebraico é Leviatã..

9Que as suas estrelas da manhã escureçam,

que elas esperem em vão pela luz do dia

e não cheguem a ver os raios da aurora,

10por não me ter fechado a saída do ventre,

evitando que eu chegasse a ver tanta miséria.

11Por que é que eu não morri ao nascer,

expirando logo ao sair do ventre materno?

12Por que é que me acolheram no regaço

e me deram o peito para eu mamar?

13Eu estaria agora deitado a descansar;

estaria hoje a dormir tranquilamente,

14junto com reis e grandes homens de estado,

que construíram para si enormes monumentos,

15ou com os príncipes ricos em ouro,

que encheram de prata os seus palácios.

16Quem me dera ter sido como um aborto que se enterra,

como feto que não chegou a ver o dia.

17No sepulcro, os maus já não fazem mais mal

e os que andam esgotados descansam finalmente.

18Ali todos os prisioneiros repousam,

sem ouvir a voz do opressor.

19Ali estão o grande e o pequeno

e o escravo fica livre dos seus donos.

20Por que é que ele dá luz a um desgraçado,

e vida a quem tem a alma amargurada?

21Esses esperam pela morte que não vem3,21 Ver Ap 9,6.

e procuram-na mais do que um tesouro escondido.

22Ficariam tão contentes e satisfeitos

por alcançarem finalmente o sepulcro!

23Por que é que Deus nega uma saída

ao homem que já não vê sentido para o seu caminho?

24Em vez de comida, só me aparecem lágrimas;

servem-me gemidos em vez de água para beber.

25Aquilo que eu tanto temia caiu sobre mim,

o que me aterrorizava aconteceu-me.

26Não tenho sossego nem repouso;

vivo sem descanso, entre sobressaltos.»

4
(Elifaz)

Feliz aquele a quem Deus corrige

41Elifaz de Teman4,1 Ver nota a 2,11. disse então:

2«Se alguém te dirige a palavra, serás capaz de o ouvir?

E quem conseguiria agora conter as palavras?

3É verdade que tu ensinaste a muitos

e deste força às mãos enfraquecidas.

4As tuas palavras davam firmeza aos que cambaleavam

e segurança aos que se não aguentavam de pé.

5Mas quando te toca a ti, não aguentas;

quando te atinge, ficas aterrorizado.

6Será que a tua piedade4,6 Ou: o teu temor. não dá coragem,

nem o teu bom comportamento te dá esperança?

7Lembras-te por acaso de algum inocente

ou alguma pessoa honesta sucumbir à desgraça?

8Pois eu vi que quem planta maldade e semeia opressão

é isso mesmo o que vai recolher.

9Com um simples sopro de Deus, eles acabam

destruídos pelo furor da sua ira.

10São rugidos de leopardo e gritos de chacal.

Mas os dentes dos leões são quebrados.

11Sem as suas presas, os leões definham

e os seus filhotes andam errantes.

12Recebi em segredo uma mensagem;

como suave murmúrio entrou no meu ouvido,

13num sonho, numa visão noturna,

quando o sono cai sobre a Humanidade4,13 Comparar com 33,15..

14Caiu sobre mim o terror,

todo o meu corpo se transiu de medo.

15O vento bateu no meu rosto

e todos os meus cabelos se puseram em pé.

16Estava na minha frente, mas não o reconheci;

era como uma imagem diante de mim, em silêncio.

Mas depois ouvi uma voz a dizer:

17“Será que um homem se pode declarar inocente

ou puro contra a opinião de Deus, seu criador?”

18Até dos seus servos ele tem motivos de desconfiança

e nos seus mensageiros encontra defeito.

19Pois como estarão limpos diante do seu criador

os que têm a sua morada na terra

e vivem mergulhados no pó

20e no espaço de um dia são despedaçados?

Sem que se dê por isso, desaparecem para sempre4,20 Ou: desapareceram para sempre, sem deixar nome..

21Eis que se quebram as cordas da sua tenda4,21 Ou: o fio da vida quebra-se-lhes.

e eles morrem sem alcançarem a sabedoria.»