a BÍBLIA para todos Edição Comum (BPT)
2

O Senhor fez-se inimigo de Jerusalém

(Álefe)

21Eis como o Senhor, na sua ira,

continua a cobrir Jerusalém de escuridão!

Deitou por terra o esplendor de Israel,

que se erguia para o céu;

no dia da sua ira, esqueceu-se

que Sião era o estrado para os seus pés2,1 Referência ao templo de Jerusalém. Ver Sl 99,5..

(Bete)

2O Senhor destruiu sem misericórdia

as habitações do seu povo;

no auge da sua ira,

derribou as fortalezas de Judá;

deitou-as completamente por terra;

e destruiu o reino e os seus príncipes.

(Guimel)

3Na sua cólera intensa,

abateu o poderio de Israel.

E recusou-se a intervir,

quando apareceu o inimigo.

Consumiu o seu povo

como o fogo que tudo devora.

(Dálete)

4Qual inimigo, esticou bem o arco,

com a mão direita pronta a disparar;

comportou-se como nosso adversário,

destruindo o que mais estimávamos.

Qual fogo avassalador

pôs em escombros o templo de Jerusalém2,4 Ou: as casas de Jerusalém..

(Hê)

5Sim, o Senhor parecia nosso inimigo

quando aniquilou a Israel,

derribou os seus palácios

e deitou por terra as suas fortalezas;

e obrigou o povo de Judá

a gemer e a lamentar-se sem cessar.

(Vau)

6O seu templo ficou como um pomar devastado,

a sua sala de culto foi deitada por terra.

O Senhor fez com que se esquecessem

dos sábados e das festas de Sião.

No auge da sua ira,

repudiou o rei e os sacerdotes.

(Zaiin)

7O Senhor não quer mais o seu altar

e abandonou o seu santuário,

ao entregar nas mãos dos inimigos

as paredes dos palácios de Sião.

A algazarra que eles faziam no templo do Senhor era tanta

que até parecia um dia de festa.

(Hete)

8O Senhor decidiu destruir

os muros de Jerusalém.

Ele estendeu a linha de nivelar

e não parou de demolir.

Cobriu de luto as ameias e os muros

e ficou tudo destruído.

(Tete)

9Os portões caíram por terra;

os seus fechos foram despedaçados.

O rei e a corte foram presos pelos pagãos.

Reina a anarquia,

pois até os seus profetas

já não recebem mensagens do Senhor.

(Jode)

10Em silêncio sentam-se no chão,

os chefes de Jerusalém.

Deitam terra sobre as suas cabeças

e vestem-se de luto.

As jovens de Jerusalém andam pela rua

de cabeça baixa, envergonhadas!

(Cafe)

11Os meus olhos estão cansados de chorar,

e as minhas entranhas revoltam-se.

O meu desespero é imenso

por causa da ruína do meu povo.

Crianças e bebés morrem de sede

nas praças da cidade.

(Lâmede)

12As crianças pedem às mães:

«Não tens nada para eu matar a fome e a sede?»

Como feridas mortalmente, desfalecem

pelas praças da cidade,

soltando o último suspiro

ao colo das suas mães.

(Mem)

13Que mais te posso dizer, ó Jerusalém?

Não há desgraça igual à tua!

Que casos semelhantes te posso recordar,

para te poder confortar, ó jovem cidade de Sião.

A tua calamidade é tão grande como o mar.

Quem te poderá trazer a cura?

(Num)

14Os teus profetas dirigiram-te

mensagens enganosas e falsas.

Não desmascararam a tua maldade,

para que a tua sorte fosse diferente.

Pelo contrário, as mensagens que te dirigiam

só te atiravam terra aos olhos.

(Sâmeque)

15Aqueles que passam perto de ti

aplaudem a tua ruína.

Assobiam e abanam a cabeça

fazendo troça de ti, Jerusalém:

«Será esta, aquela cidade tão bela,

que era o orgulho de toda a terra?»

(Pê)

16Os que querem o teu mal

abrem a boca para te provocar.

Assobiam-te e mostram-te os dentes.

Dizem: «Dêmos cabo dela!

O dia que esperávamos há tanto tempo,

ele aí está finalmente!»

(Aiin)

17O Senhor fez o que tinha decidido

e cumpriu a ameaça,

que há muito tinha anunciado.

Demolindo assim sem piedade,

encheu o inimigo de alegria com a tua ruína

e fortaleceu o seu orgulho.

(Tsadê)

18Que os teus lamentos e gemidos, ó Jerusalém,

subam até ao Senhor!

Não cesses de chorar, dia e noite;

deixa correr as lágrimas como um rio.

Não procures reconfortar-te,

antes, dá largas ao teu pranto!

(Cofe)

19Levanta-te e enche a noite,

hora a hora, com os teus lamentos.

Abre inteiramente o teu coração

na presença do Senhor.

Estende para ele as mãos em súplica,

para que os teus filhos vivam,

eles que morrem de fome

às esquinas de todas as ruas.

(Reche)

20Olha, Senhor! Repara bem

a quem estás a tratar assim.

As mulheres chegaram ao ponto de comer

os filhos que elas geraram e criaram!

E os sacerdotes e profetas

foram mortos no teu santuário!

(Chim)

21Os jovens e os velhos

jazem lado a lado nas ruas.

Os meus filhos e filhas

caíram mortos à espada.

Mataste-os, dando largas à tua indignação,

dizimaste-os sem piedade.

(Tau)

22Convidaste aqueles que me eram hostis

como se se tratasse de um dia de festa.

Nesse dia, o teu furor fez-se sentir

e não houve sobreviventes, ninguém escapou.

Os filhos que eu eduquei e vi crescer,

foram exterminados pelo inimigo.

3

Angústia, arrependimento e esperança

(Álefe)

31Eu sou aquele que conheceu a miséria

provocada pelo chicote da ira do Senhor.

2Ele fez-me andar por um caminho

de escuridão, sem nenhuma luz3,2 Ver Jb 19,8..

3A sua mão não me larga um momento,

a cada hora do dia.

(Bete)

4A minha carne e a minha pele estão chupadas;

até os ossos ele me partiu3,4 Ver Jb 7,5; 30,30..

5Construiu à minha volta uma barreira

feita de amargura e de dor3,5 Ver Jb 19,12..

6Fez-me habitar na escuridão

como aqueles que morreram há muito.

(Guimel)

7Ele emparedou-me, sem me deixar sair,

e prendeu-me com correntes.

8Ainda que eu peça socorro, em altos gritos,

ele recusa ouvir a minha oração.

9Bloqueou a minha passagem com pedras

e fez-me seguir por um caminho errado.

(Dálete)

10Foi para mim como um urso em emboscada,

como um leão escondido na mata3,10 Ver Jb 10,16; 16,9..

11Fez-me sair do meu caminho

despedaçou-me e deixou-me destroçado.

12Esticou o seu arco

e fez de mim alvo das suas flechas.

(Hê)

13As flechas da sua aljava

trespassaram os meus rins.

14Toda a gente3,14 Segundo vários manuscritos hebraicos e a versão antiga siríaca. O texto hebraico tradicional diz: todo o meu povo. se ri de mim

e me põe a ridículo, sem cessar.

15Fez-me comer ervas amargas,

deu-me a beber bebidas venenosas.

(Vau)

16Atirou comigo ao chão,

quebrando-me os dentes nas pedras.

17A minha vida não conhece sossego,

já não sei o que é ser feliz.

18Exclamei: «Estou sem futuro!

Já nada espero do Senhor

(Zaiin)

19A recordação da minha miséria e angústia

é como fel e veneno.

20Tudo o que me aconteceu

não se apaga da minha memória.

21Por outro lado, pensando bem,

acho que devo ter esperança.

(Hete)

22A compaixão do Senhor por nós não se esgotou ainda,

o seu amor não chegou ao fim.

23A sua bondade é renovada cada manhã

e grande é a sua fidelidade.

24Digo para comigo: «O Senhor é tudo para mim

por isso confiarei nele.

(Tete)

25O Senhor é bom para aqueles que nele confiam,

para quem se volta para ele.

26Convém esperar em silêncio

pela libertação que virá do Senhor.

27É útil que um homem leve sobre os ombros

as obrigações assumidas na sua juventude;

(Jode)

28que se recolha em silêncio,

quando o Senhor o põe à prova;

29que se deite de rosto em terra,

na esperança da intervenção do Senhor!

30Que não fuja com a face, quando lhe batem,

e suporte as ofensas com paciência.

(Cafe)

31Porque o Senhor não é daqueles

que rejeitam alguém para sempre.

32Mesmo se faz sofrer, não deixa de amar

porque é grande a sua bondade.

33Não é por gosto que ele humilha

e faz sofrer um ser humano.

(Lâmede)

34Quando são espezinhados

os prisioneiros duma terra;

35e quando se violam os direitos dum homem,

desafiando o Deus altíssimo;

36quando a justiça é mal aplicada,

certamente que o Senhor não aprova.

(Mem)

37Quem é que controla os acontecimentos?

Não é só o Senhor quem decide?

38Não é a palavra do Altíssimo

que decide o bem-estar ou a desgraça3,38 Ver Jb 2,10.?

39Então de que se pode queixar o homem,

se ainda está vivo, apesar dos seus pecados?

(Num)

40Examinemos bem o nosso comportamento

e voltemos para o Senhor.

41Oremos de todo o coração,

de mãos estendidas para o Deus dos céus.

42Revoltámo-nos e transgredimos as tuas ordens,

e tu, Senhor, não nos perdoaste.

(Sâmeque)

43Na tua cólera, tu perseguiste-nos

e massacraste-nos sem piedade.

44Encobriste-te por detrás de uma nuvem,

de modo que as nossas orações não chegam a ti.

45Fizeste de nós lixo e desperdício,

no meio dos outros povos.

(Pê)

46Os nossos inimigos abrem a sua boca,

para nos provocarem.

47O terror e a armadilha estão diante de nós

com a devastação e a ruína.

48Os meus olhos vertem torrentes de lágrimas,

por causa do desastre do meu povo.

(Aiin)

49Os meus olhos são fontes inesgotáveis

que não cessam de chorar,

50até que o Senhor se incline,

lá do alto, e veja!

51Já me doem os olhos de chorar

pelo que aconteceu às mulheres da minha cidade.

(Tsadê)

52Aqueles que me buscam sem razão

perseguiram-me como se fosse um pássaro;

53encerraram-me vivo num poço

e taparam-no com uma pedra.

54A água subia acima da minha cabeça

e pensei que estava perdido.

(Cofe)

55Lá do fundo, chamei por ti, Senhor,

do mais profundo do poço.

56Ouve o meu grito!

Não feches os ouvidos ao meu pedido de ajuda!

57Quando te chamei, tu aproximaste-te

e disseste-me: “Não temas.”

(Reche)

58Senhor, tu defendeste a minha causa

e salvaste-me a vida.

59Senhor, tu viste como me trataram injustamente,

sê tu o meu justo juiz.

60Viste como se vingaram de mim,

e como maquinaram intrigas contra mim.

(Chim)

61Senhor, tu ouviste os seus insultos

e todo o mal que me quiseram fazer.

62Ouviste como os meus inimigos abriram a boca,

para murmurar contra mim, sem cessar.

63Olha bem para o que eles fazem

pois escarnecem de mim com as suas canções.

(Tau)

64Senhor, trata-os a eles

como me trataram a mim.

65Torna-os cegos de entendimento

e que isso seja a tua maldição contra eles.

66Persegue-os com a tua cólera,

até que desapareçam da terra.»

4

As misérias do cerco de Jerusalém

(Álefe)

41Como é que o ouro perdeu o seu brilho?

O ouro de melhor qualidade alterou-se!

Como é que as pedras santas

se puderam espalhar pelos cantos das ruas?

(Bete)

2Como é que os filhos de Sião

eles que valiam o seu peso em ouro

podem ser comparados ao pote de barro,

ao trabalho de um oleiro?

(Guimel)

3Até os chacais têm o instinto materno

e dão de mamar às suas crias.

Porém a minha cidade é como uma mãe desnaturada,

como as avestruzes do deserto4,3 A avestruz era considerada uma má mãe, por deixar os ovos incubarem ao sol..

(Dálete)

4Os bebés, de tanta sede que passaram;

têm a língua pegada ao céu da boca;

as crianças pedem pão,

mas ninguém lhes dá uma côdea.

(Hê)

5Os que se alimentavam do melhor

caem, sem forças, pelas ruas;

os que foram criados no luxo

vivem agora entre montes de lixo.

(Vau)

6Porque os crimes do meu povo são maiores,

do que os dos habitantes de Sodoma,

que foi destruída num momento,

sem que ninguém pudesse sequer reagir.

(Zaiin)

7Os seus príncipes eram mais brilhantes que a neve,

mais brancos do que o leite;

os seus corpos eram mais rosados do que o coral

e as veias, mais azuis do que a safira.

(Hete)

8O seu rosto é agora mais negro que o carvão;

ninguém os reconhece nas ruas;

estão reduzidos a pele e osso,

mirrados, como um pau seco.

(Tete)

9Melhor fora terem caído à espada,

do que virem a morrer de fome

e terem de perecer de fraqueza,

à falta de alimento.

(Jode)

10Diante da catástrofe que sobreveio ao meu povo,

as mães chegaram ao ponto de cozer os próprios filhos,

para deles se alimentarem,

apesar do muito amor que lhes tinham.

(Cafe)

11O Senhor levou a sua indignação até ao fim

e derramou abundantemente a sua cólera.

Pôs fogo a Sião

e devorou-a até aos alicerces.

(Lâmede)

12Nem os reis da terra, nem ninguém no mundo

acreditariam que, algum dia,

os inimigos viriam a entrar vitoriosos

pelas portas de Jerusalém.

(Mem)

13Esta calamidade deve-se às transgressões

dos seus profetas e sacerdotes,

que fizeram derramar nesta cidade

o sangue dos inocentes.

(Num)

14Vagueiam nas ruas como cegos,

manchados de sangue,

de maneira que ninguém podia

tocar na sua roupa.

(Sâmeque)

15À sua passagem têm de exclamar:

«Impuro! Afastem-se, não lhe toquem!»

Ao mesmo tempo fogem sem saber para onde ir;

e dizem os outros povos: «Não os queremos connosco.»

(Pê)

16Foi o Senhor que os dispersou

e, não os quer ver mais,

pois não respeitaram os sacerdotes

nem tiveram consideração pelas pessoas idosas.

(Aiin)

17Quanto a nós, os nossos olhos estão cansados

de procurar o socorro que não chega.

Fartámo-nos de esperar

mas nenhuma nação veio em nosso auxílio.

(Tsadê)

18Espiam os nossos passos,

e não nos deixam passear nas nossas praças.

Chegámos ao final dos nossos dias:

o fim está próximo, o fim chegou.

(Cofe)

19Os que nos perseguem são lestos,

mais rápidos que a águia a voar;

perseguem-nos pelos montes

e, na planície, põem-nos armadilhas.

(Reche)

20Aquele que era o nosso alento, o rei escolhido pelo Senhor

está prisioneiro numa cela do inimigo.

E nós esperávamos, sob a sua proteção,

ocupar o nosso lugar entre as nações.

(Chim)

21Alegra-te, gente de Edom,

que habitas no país de Uce,

pois hás de beber o cálice amargo do castigo,

que te embriagará e deixará nua.

(Tau)

22Ó Sião, o castigo dos teus crimes caiu sobre ti4,22 Ver Is 40,2..

Não mais te levarão para o exílio.

E tu, Edom, o Senhor castigará os teus crimes

e desmascarará as tuas transgressões.