a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Nascimento e infância de Samuel

11Havia um homem chamado Elcaná, do clã de Suf a viver nas montanhas de Efraim, oriundo de Ramá. Era filho de Jeroam e neto de Eliú e pertencia à família de Toú, do clã de Suf de Efrata1,1 Ou: de Efraim. Ramá. Cidade situada a uns 35 km a oeste de Jerusalém.. 2Era casado com duas mulheres: uma chamava-se Ana e a outra, Penina. Penina tinha filhos, mas Ana não. 3Elcaná ia todos os anos em peregrinação ao santuário de Silo para adorar e oferecer sacrifícios a Deus, todo-poderoso1,3 Silo ficava situada a uns 30 km a norte de Jerusalém. Naquele tempo era um santuário religioso muito importante, porque era ali que estava a arca da aliança (Js 18,1–10). Depois de David conquistar a cidade de Jerusalém aos jebuseus, transladou-a de Silo para Jerusalém. Deus todo-poderoso. Em hebraico, Deus dos exércitos. Algumas vezes significa Deus dos exércitos celestes, Senhor do Universo.. Hofni e Fineias, filhos de Eli, estavam lá como sacerdotes do Senhor.

4No dia próprio, Elcaná oferecia o sacrifício ao Senhor e dava a porção de carne correspondente a Penina e a cada um dos seus filhos. 5Ele amava muito Ana, mas só lhe dava a porção que lhe correspondia a ela, porque o Senhor não lhe tinha dado filhos.

6Penina, a sua rival, atormentava-a e humilhava-a continuamente, porque o Senhor não lhe tinha dado filhos. 7Isto acontecia todos os anos, quando ela ia ao santuário do Senhor. Penina atormentava Ana de tal modo que Ana se punha a chorar e deixava de comer. 8Elcaná, seu marido, dizia-lhe: «Ana, por que é que choras? Por que não comes? Por que estás tão triste? Porventura não sou para ti mais que dez filhos?»

9Um dia, depois de ter terminado a sua refeição no santuário de Silo, Ana levantou-se. O sacerdote Eli estava sentado no seu lugar, junto da porta do santuário. 10Ana estava muito triste e, enquanto orava ao Senhor, as lágrimas caíam-lhe abundantemente. 11E fez esta promessa solene: «Senhor, todo-poderoso, olha para a amargura da tua serva e lembra-te de mim! Não te esqueças da tua serva! Se me concederes a graça de ter um filho, eu hei de o consagrar ao Senhor por toda a sua vida e o seu cabelo nunca será cortado1,11 Nunca será cortado. Sinal de consagração ao serviço do Senhor, como nazireu. Ver Nm 6,2–5; Jz 16,17; Lc 1,15.

12Ana já estava há muito tempo em oração no templo e o sacerdote Eli começou a ver se percebia o que ela dizia. 13Ela orava só para si. Apenas os seus lábios se mexiam, mas sem se ouvir a sua voz. Por isso, Eli pensou que ela estava embriagada 14e disse-lhe: «Até quando continuarás embriagada? Vai curtir a bebedeira para outro sítio!»

15Ana respondeu-lhe: «Não é isso, meu senhor! Eu sou uma mulher que sofre. Não bebi vinho nem outra bebida alcoólica. Apenas estava a contar as minhas mágoas ao Senhor Deus. 16Não penses que eu sou uma mulher atrevida. Por causa da minha grande aflição e desgosto é que eu tenho estado a falar assim até agora.»

17Então o sacerdote Eli disse-lhe: «Vai em paz e que o Deus de Israel te conceda o que lhe pediste.» 18Ela respondeu-lhe: «Possa eu ser sempre bem acolhida por ti, meu senhor!» Então ela foi-se embora, comeu alguma coisa e já parecia que tinha outra cara.

19No dia seguinte, Elcaná e a família levantaram-se cedo, foram orar uma vez mais ao santuário e regressaram a casa, na cidade de Ramá. Elcaná teve relações com a sua mulher Ana e o Senhor ouviu a sua oração. 20Com o passar dos dias Ana ficou grávida e deu à luz um filho a quem pôs o nome de Samuel, «porque foi ao Senhor que eu o pedi», dizia ela1,20 Em hebraico há uma certa semelhança entre o nome Samuel e o verbo “shamá” que significa pedir..

21Chegou o tempo de Elcaná ir novamente ao santuário de Silo com toda a sua família para oferecer ao Senhor o sacrifício anual e cumprir a promessa1,21 Ver Lv 7,16.. 22Mas Ana não foi com ele e apresentou esta razão ao marido: «Esperemos que o menino seja desmamado; depois eu levo-o e apresento-o no santuário do Senhor e lá ficará por toda a sua vida.» 23Seu marido, Elcaná, disse-lhe: «Está bem! Faz como melhor te parecer. Fica em casa até desmamares o menino. E que o Senhor confirme a promessa.» Ana ficou em casa e amamentou o filho até à idade própria.

24Depois de o ter desmamado, Ana levou o seu filho ao santuário de Silo. Levou também um bezerro de três anos, uma medida de farinha e um odre de vinho. E o menino era ainda muito pequeno. 25Depois de terem oferecido o bezerro em sacrifício, entregaram a criança a Eli. 26Ana disse-lhe então: «Desculpa, meu senhor! Eu sou aquela mulher que esteve aqui a orar ao Senhor, próximo de ti. 27Era para ter este filho que eu pedia e o Senhor atendeu o pedido que lhe fiz. 28Agora entrego-o ao Senhor e ficará para sempre ao seu serviço, pois ele foi consagrado ao Senhor.» E então inclinaram-se por terra, adorando o Senhor.

2

Oração de Ana

21Ana orou desta maneira:

«O Senhor encheu o meu coração de alegria;

é ele quem me dá novas forças.

Agora posso rir-me dos meus inimigos

porque celebro com alegria a tua salvação.

2Ninguém é santo como o Senhor,

ninguém é igual a ele

e não há rocha como o nosso Deus.

3Acabem com os discursos orgulhosos;

e não digam palavras insolentes,

porque o Senhor é um Deus que conhece todas as coisas

e julga tudo o que se faz.

4Os arcos dos heróis foram quebrados,

mas os fracos estão cheios de força.

5Os que tinham fartura procuram trabalho para ganhar o pão

e os famintos são saciados.

A mulher estéril deu à luz sete filhos,

e a mãe de muitos filhos ficou sem nenhum.

6O Senhor dá a morte e faz reviver,

faz com que se desça ao mundo da morte

e levanta novamente os que para lá foram2,6 Sobre a primeira parte do versículo, ver Dt 32,39; 2 Rs 5,7. Sobre a segunda, ver Jn 2,7; Sl 30,4..

7O Senhor dá a pobreza e a riqueza;

ele humilha e engrandece.

8Levanta do pó o indigente

e tira o pobre da miséria.

Fá-los assentar com os grandes

e coloca-os em lugares de honra.

Os fundamentos da terra pertencem ao Senhor

que sobre eles construiu o mundo.

9Ele guia os passos dos seus fiéis,

mas os maus hão de desaparecer nas trevas;

pois não é a força que faz o homem triunfar.

10Os inimigos do Senhor serão destruídos.

Dos céus trovejará contra eles.

O Senhor julga a terra inteira,

dá poder ao seu rei

e a vitória ao seu escolhido2,10 O hino, que canta a proteção de Deus sobre os pobres e os humildes, acaba por ser um hino real.

11Então Elcaná regressou para a sua casa, em Ramá, e o menino Samuel ficou no santuário de Silo a servir o Senhor, às ordens do sacerdote Eli.

Os filhos de Eli

12Os filhos de Eli eram perversos e não se interessavam pelas coisas do Senhor, 13nem cumpriam os regulamentos sacerdotais em relação ao povo. Quando alguém ia ao santuário oferecer o seu sacrifício, o criado do sacerdote aparecia com um garfo de três pontas. E enquanto a carne cozia, 14ele espetava o garfo na panela, na caldeira, no tacho ou no púcaro, e tudo quanto o garfo apanhava era para o sacerdote. Desta mesma maneira, eles agiam para com todo o povo de Israel que vinha ao santuário de Silo. 15Pior ainda, antes de a gordura ser queimada, o criado do sacerdote ia ter com a pessoa que oferecia o seu sacrifício e dizia-lhe: «Dá-me alguma carne de assar para o sacerdote, porque ele não aceita carne já cozida, mas apenas crua.»

16Se o homem lhe dizia: «Está bem, mas primeiro deixa queimar a gordura2,16 Segundo a lei de Levítico 3., e depois leva o que quiseres», o criado do sacerdote respondia-lhe: «Não! Dá-me agora, porque, caso contrário, tiro-ta à força.»

17Semelhante pecado dos filhos de Eli era coisa muito grave diante do Senhor, porque não respeitavam as ofertas ao Senhor.

Samuel em Silo

18Entretanto Samuel continuava a servir o Senhor, e usava uma túnica votiva de linho2,18 Em hebraico: uma insígnia de oráculo (efod). A insígnia de oráculo, usada habitualmente pelos sacerdotes, era aqui provavelmente uma peça de vestuário usada por devoção.. 19E todos os anos, quando ia com o seu marido ao santuário, a sua mãe levava-lhe alguma roupa, que ela própria fazia. 20Eli abençoava Elcaná e sua mulher e dizia a Elcaná: «Que o Senhor te dê mais filhos desta mulher em troca daquele que ela ofereceu ao Senhor.» E eles voltavam para casa.

21De facto, o Senhor abençoou Ana e ela ficou de novo grávida e teve mais três filhos e duas filhas. Entretanto Samuel continuava a crescer ao serviço do Senhor.

Os filhos de Eli

22Eli estava a ficar muito velho. Ele ouvia contar o mal que os seus filhos faziam a todo o povo de Israel e que eles dormiam com as mulheres que trabalhavam à entrada da tenda do encontro2,22 Ver Ex 38,8. Provavelmente mulheres que cuidavam das limpezas.. 23Disse-lhes então: «Por que é que se comportam assim? Toda a gente me conta o mal que fazem. 24Acabem com isso, meus filhos! É coisa muito má o que ouço dizer a vosso respeito. Andam a desorientar o povo do Senhor. 25Se um homem ofende outro homem, Deus pode defendê-lo. Mas se ofende o próprio Senhor, quem é que o poderá defender?» Eles, porém, não deram ouvidos ao seu pai. Na verdade, o Senhor achou que eles deviam morrer.

26E Samuel continuava a crescer, agradando ao Senhor e aos homens.

Profecia contra a família de Eli

27Um profeta foi ter com Eli e transmitiu-lhe esta mensagem do Senhor: «Eu revelei-me aos antepassados do teu pai, quando eles estavam no Egito às ordens do faraó. 28E escolhi a família do teu pai entre todas as tribos de Israel para serem os meus sacerdotes, para oferecerem os sacrifícios, para queimarem o incenso e para me consultarem2,28 Literalmente: levar o efod. Ver 1 Sm 2,18. O efod era uma veste sacerdotal com um bolso, onde os sacerdotes punham os objetos sagrados que serviam para interrogar o Senhor e conhecer a sua vontade. Ver Ex 28,15–30.. Dei-lhes o privilégio de ficarem com uma parte dos sacrifícios dos filhos de Israel. 29Por que é que então faltam ao respeito devido aos sacrifícios e ofertas que eu estabeleci? Por que é que tu respeitas mais os teus filhos do que a mim, deixando-os engordar com as melhores partes dos sacrifícios que o meu povo me oferece? 30Por isso, eu, o Senhor de Israel te digo agora o seguinte: outrora prometi à tua família e ao teu clã que seriam meus sacerdotes para sempre, mas agora juro-te que honrarei os que me honrarem e os que me desprezarem serão humilhados! 31Vão chegar os dias em que exterminarei todos os descendentes da tua família e do teu clã, de modo que ninguém vai chegar a velho na tua família. 32Terás um rival no santuário e verás como ele agradará a Israel; mas na tua casa nunca mais haverá ninguém que chegue à velhice. 33Mesmo assim, deixarei um dos teus descendentes2,33 Refere-se a Ebiatar. Cf 1 Rs 2,26–27. vivo para me servir no altar, para te consumir os olhos e a vida, mas todos os outros descendentes da tua família hão de morrer na força da idade. 34Este é o sinal de que tudo quanto acabo de te dizer é verdade: os teus dois filhos Ofni e Fineias hão de morrer no mesmo dia. 35Vou escolher para mim um sacerdote que seja digno de toda a confiança e que há de cumprir em tudo a minha vontade. Hei de dar-lhe descendentes fiéis que servirão sempre o meu escolhido2,35 Um sacerdote. Referência a Sadoc (2 Sm 8,17). O meu escolhido. O texto apresenta a instituição sacerdotal e a real muito unidas.. 36Os que restarem dos teus descendentes virão ter com esse sacerdote para lhe pedirem dinheiro e pão. E hão de dizer-lhe: “Deixa-me desempenhar qualquer função sacerdotal para eu poder ganhar um pouco de pão para comer.”»