a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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281Por aqueles dias, os filisteus reuniram os seus exércitos para combater Israel, e Aquis disse a David: «Fica sabendo que tu e os teus homens têm que lutar no meu exército.» 2David respondeu-lhe: «Com certeza! E tu, ó rei, ficarás a saber do que eu sou capaz de fazer.» «Muito bem! Nomeio-te para sempre meu guarda pessoal.» — Respondeu-lhe Aquis.

Saul consulta uma vidente

3Entretanto Samuel morrera; todos os habitantes de Israel choravam a sua morte, e sepultaram-no na sua cidade de Ramá. E Saul tinha resolvido acabar com práticas de adivinhação e invocação dos mortos28,3 Estas práticas eram proibidas pela lei. Ver Lv 19,31.. 4Os filisteus reuniram as suas tropas e foram acampar em Suném. Por sua vez, Saul reuniu todas as suas tropas que acamparam em Guilboa. 5Quando viu o exército dos filisteus ficou assustado e a tremer de medo, 6e decidiu consultar o Senhor, mas o Senhor não lhe respondeu, nem pelos sonhos, nem pelos dados sagrados dos sacerdotes, nem pelos profetas28,6 Sonhos, dados sagrados (urim e tumin) e palavras dos profetas eram três modos de conhecer a vontade de Deus. Os urim e tumin vão desaparecendo a pouco e pouco, enquanto os sonhos ainda aparecem no Novo Testamento.. 7Deu então esta ordem aos criados: «Procurem-me uma mulher que saiba invocar os espíritos dos mortos para eu a ir consultar.» Eles responderam-lhe: «Conhecemos uma mulher dessas em Endor.»

8Saul disfarçou-se, vestindo outras roupas, e foi ter com a tal mulher, durante a noite acompanhado de dois homens. E disse à mulher: «Consulta os espíritos e invoca o espírito daquele que eu te disser.» 9Mas a mulher respondeu-lhe: «Tu bem sabes o que fez Saul, que expulsou da terra os adivinhos e os que consultam os mortos. Por que é que preparas uma armadilha que me pode levar à morte?» 10Mas Saul jurou-lhe em nome do Senhor: «Juro-te, pelo Senhor, que nenhum mal te pode acontecer.» 11Então a mulher disse-lhe: «Qual é o espírito que queres que eu chame para ti?» Ele respondeu-lhe: «Chama o espírito de Samuel.»

12Quando a mulher viu Samuel lançou um grande grito e disse a Saul: «Por que é que me enganaste? Tu és Saul.» 13O rei disse-lhe: «Não tenhas medo. Que é que tu viste?» A mulher respondeu a Saul: «Vejo como que um espírito a subir da terra.»

14Saul perguntou-lhe: «E que aspeto tem ele?» A mulher respondeu: «É um homem velho e está vestido com um manto.» Então Saul compreendeu que se tratava de Samuel e, por isso, inclinou-se até ao chão em sinal de reverência.

15Samuel disse a Saul: «Por que é que tu me perturbaste, e me fizeste sair de onde eu estava?» Respondeu-lhe Saul: «Estou muito preocupado porque os filisteus vão-me fazer guerra e Deus afastou-se de mim e não me responde, nem pelos profetas, nem pelos sonhos. Por isso, é que te chamei, para saber o que devo fazer.» Samuel disse-lhe: 16«Mas por que é que me perguntas a mim, se o Senhor já te abandonou e se tornou teu inimigo? 17O Senhor está a agir contigo tal como te fez ver por meu intermédio: que te havia de tirar o reino e dá-lo a um outro, que é a David. 18É que tu não obedeceste às ordens do Senhor visto não teres destruído os amalecitas. Por isso, o Senhor agora te trata desta maneira. 19Ele vai entregar-te a ti e a Israel nas mãos dos filisteus. Amanhã tu e os teus filhos estarão comigo. O Senhor fará com que o exército de Israel caia nas mãos dos filisteus.»

20Ao ouvir tais coisas, Saul ficou assustado, desmaiou e caiu ao comprido por terra. Além do mais, não tinha comido nada durante todo o dia e toda a noite. 21A mulher, ao ver Saul naquele estado, aproximou-se dele e disse-lhe: «Senhor, eu atendi ao teu pedido. Arrisquei a minha vida para cumprir as tuas ordens. 22Peço, agora, que atendas ao que vou dizer: deixa-me preparar-te alguma comida para restaurares as tuas forças antes de partires.»

23Saul negou-se a comer, mas os seus homens e a mulher insistiram para que aceitasse. E Saul acabou por se levantar do chão e sentar-se na esteira. 24A mulher então apressou-se a matar um vitelo que tinha engordado, pegou em farinha, amassou-a e cozeu alguns pães sem fermento. 25Depois serviu Saul e os seus homens, os quais, depois de terem comido, se despediram, pondo-se a caminho naquela mesma noite.

29

Os filisteus desconfiam de David

291Os filisteus reuniram todas as suas tropas em Afec, enquanto os israelitas acamparam perto da fonte do vale de Jezrael. 2Os chefes dos filisteus caminhavam à frente das suas companhias e batalhões. David e os seus homens caminhavam na retaguarda com o rei Aquis. 3Então os chefes dos filisteus perguntaram a Aquis: «Quem são estes hebreus?» Aquis respondeu-lhes: «Este é David, que foi oficial de Saul, o rei de Israel. Já está comigo há bastante tempo, e desde que passou para o meu lado não lhe encontrei qualquer falta para desconfiar dele.»

4Mas os chefes militares dos filisteus aborreceram-se com Aquis e disseram-lhe: «Manda-o embora para a cidade que tu destinaste. Não queremos que ele nos acompanhe nesta expedição, não aconteça que se torne em nosso inimigo durante a batalha, pois a melhor maneira de ele fazer as pazes com o seu senhor será oferecer-lhe a cabeça dos nossos homens. 5Não te esqueças que este é o David de quem se cantava nas danças que Saul matou mil homens mas David matou dez mil.»

6Aquis chamou então David e disse-lhe: «Juro pelo Senhor que tu és um homem reto, e seria para mim um prazer ter-te comigo nesta campanha, pois desde o dia em que vieste para junto de mim até hoje, não encontrei nada de mau no teu comportamento. Mas acontece que os outros chefes militares não te veem com bons olhos. 7Por tal razão, será melhor ires embora em paz para não caíres mais no desagrado deles.»

8David observou-lhe: «Mas que mal fiz eu? Que é que tu, ó rei, encontraste em mim desde o dia em que te comecei a servir para não me deixares ir lutar ao teu lado contra os vossos inimigos?» 9Aquis respondeu-lhe: «Eu sei que tu és bom para mim como um anjo de Deus, mas os outros chefes não querem que tu nos acompanhes nesta expedição. 10Por isso, tu e os homens de Saul que vieram contigo levantem-se cedo e vão-se embora logo que amanhecer.»

11Assim David e os seus homens levantaram-se de madrugada e regressaram à terra dos filisteus, enquanto os filisteus avançaram para Jezrael.

30

David derrota os amalecitas

301Três dias depois, David e os seus homens chegaram a Siclag. É que os amalecitas tinham invadido o sul de Judá e tinham atacado a cidade de Siclag, que destruíram e incendiaram. 2Capturaram as mulheres e toda a gente que lá estava, pequenos e grandes, mas sem matarem a ninguém, e levaram-nos consigo.

3Quando David e os seus homens chegaram à cidade e viram que tinha sido incendiada e que lhes tinham levado as mulheres, com os filhos e filhas, 4puseram-se a chorar aos gritos até ficarem sem forças. 5Também tinham capturado as duas mulheres de David, Ainoam, de Jezrael, e Abigail, a viúva de Nabal do Carmelo. 6David estava muito angustiado, porque os seus homens queriam apedrejá-lo. Todos estavam profundamente amargurados com o que acontecera aos seus filhos. Entretanto David ganhou coragem graças ao Senhor, 7e disse ao sacerdote Abiatar, filho de Aimelec: «Traz-me a insígnia de oráculo.» E Abiatar trouxe-lha. 8David fez então esta consulta ao Senhor: «Devo perseguir esse bando de salteadores até os apanhar?» O Senhor respondeu-lhe: «Vai persegui-los, pois hás de apanhá-los e libertar os prisioneiros.»

9David pôs-se a caminho com os seiscentos homens e chegaram até ao ribeiro de Bessor, onde duzentos deles 10ficaram a descansar, porque se sentiram muito fatigados para o atravessarem. Com os outros quatrocentos, David continuou a perseguição.

11Encontraram no campo um egípcio, que levaram até junto de David. Deram-lhe pão, que ele comeu, e água para beber. 12Deram-lhe ainda uma torta de figos e dois cachos de uvas secas. Depois de comer, retomou as suas forças, porque havia já três dias e três noites que não comia nem bebia.

13David perguntou-lhe então: «Quem é o teu amo e donde és tu?» O egípcio respondeu-lhe: «Eu sou egípcio, escravo dum amalecita, mas o meu dono abandonou-me já há três dias, porque adoeci. 14Fomos nós que saqueámos a parte do sul do território dos cretenses30,14 Cretenses. Nome de alguns grupos filisteus que habitavam a sul, originários da ilha de Creta. Calebitas. Ver Js 14,6—15,63., dos judeus ao sul de Judá e dos calebitas e incendiámos a cidade de Siclag.»

15Propôs-lhe David: «Queres levar-me até esse bando de salteadores?» Ele respondeu: «Se me jurares em nome de Deus que não me vais matar e que não me vais entregar ao meu dono, levar-te-ei até eles.»

16Ele levou David até aos amalecitas que se tinham espalhado por toda a região, comendo, bebendo e fazendo festa com tudo o que tinham roubado no território dos filisteus e dos judeus. 17David combateu-os desde a manhã até à tarde do dia seguinte e massacrou-os a todos. Apenas escaparam uns quatrocentos jovens que conseguiram montar os seus camelos e fugir.

18David resgatou todas as coisas que os amalecitas tinham roubado e resgatou também as suas duas mulheres. 19Recuperou todas as pessoas, desde as pequenas às grandes, os filhos e as filhas dos seus homens, e todos os despojos que os amalecitas tinham roubado. 20Recuperou também as ovelhas e vacas, de tal forma que aqueles que conduziam o gado diziam: «Tudo isto é de David!»

21Entretanto David chegou ao ribeiro de Bessor, onde tinham ficado os duzentos homens, que não o puderam acompanhar por se sentirem muito cansados. Eles vieram ao encontro de David e da sua tropa e David aproximou-se deles para os saudar. 22Mas alguns dos soldados de David, que eram maus e perversos, protestaram e disseram que não se devia dar nada dos despojos a quem não tinha ido com eles, exceto as suas mulheres e filhos, e que, depois de os reaverem, deviam ir embora.

23Mas David disse: «Não façam tal coisa, meus amigos. Foi o Senhor que nos deu tudo isto, foi ele que nos conservou a vida e entregou nas nossas mãos esse bando de salteadores que nos atacou. 24Neste caso, ninguém vos dará razão, porque, como diz o ditado, “A partilha dos despojos, tanto pertence ao que vai para o combate como àquele que fica a guardar a bagagem.”» 25Esta prática de David entrou desde então, e permanece até ao presente, como lei e costume em Israel.

26Quando chegou a Siclag, David mandou aos seus amigos, os anciãos de Judá, uma parte dos despojos, com estas palavras: «Ofereço-vos este presente, que é uma parte daquilo que conquistei aos inimigos do Senhor27Enviou presentes aos que se encontravam em Betel, de Ramot do Negueve, em Jatir, 28em Aroer, em Sifemot, em Estemoa, 29em Racal, e também aos que estavam nas cidades de Jeramel e nas dos quenitas. 30Enviou igualmente aos que se encontravam em Horma, em Bor-Achan, em Atac, 31em Hebron e ainda nas localidades por onde ele e os seus homens tinham andado30,31 A maior parte das localidades dos v. 27–31 pertence à tribo de Judá, o que facilitou a ascensão de David ao trono (2 Sm 2,1–4)..