a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Oração de Ana

21Ana orou desta maneira:

«O Senhor encheu o meu coração de alegria;

é ele quem me dá novas forças.

Agora posso rir-me dos meus inimigos

porque celebro com alegria a tua salvação.

2Ninguém é santo como o Senhor,

ninguém é igual a ele

e não há rocha como o nosso Deus.

3Acabem com os discursos orgulhosos;

e não digam palavras insolentes,

porque o Senhor é um Deus que conhece todas as coisas

e julga tudo o que se faz.

4Os arcos dos heróis foram quebrados,

mas os fracos estão cheios de força.

5Os que tinham fartura procuram trabalho para ganhar o pão

e os famintos são saciados.

A mulher estéril deu à luz sete filhos,

e a mãe de muitos filhos ficou sem nenhum.

6O Senhor dá a morte e faz reviver,

faz com que se desça ao mundo da morte

e levanta novamente os que para lá foram2,6 Sobre a primeira parte do versículo, ver Dt 32,39; 2 Rs 5,7. Sobre a segunda, ver Jn 2,7; Sl 30,4..

7O Senhor dá a pobreza e a riqueza;

ele humilha e engrandece.

8Levanta do pó o indigente

e tira o pobre da miséria.

Fá-los assentar com os grandes

e coloca-os em lugares de honra.

Os fundamentos da terra pertencem ao Senhor

que sobre eles construiu o mundo.

9Ele guia os passos dos seus fiéis,

mas os maus hão de desaparecer nas trevas;

pois não é a força que faz o homem triunfar.

10Os inimigos do Senhor serão destruídos.

Dos céus trovejará contra eles.

O Senhor julga a terra inteira,

dá poder ao seu rei

e a vitória ao seu escolhido2,10 O hino, que canta a proteção de Deus sobre os pobres e os humildes, acaba por ser um hino real.

11Então Elcaná regressou para a sua casa, em Ramá, e o menino Samuel ficou no santuário de Silo a servir o Senhor, às ordens do sacerdote Eli.

Os filhos de Eli

12Os filhos de Eli eram perversos e não se interessavam pelas coisas do Senhor, 13nem cumpriam os regulamentos sacerdotais em relação ao povo. Quando alguém ia ao santuário oferecer o seu sacrifício, o criado do sacerdote aparecia com um garfo de três pontas. E enquanto a carne cozia, 14ele espetava o garfo na panela, na caldeira, no tacho ou no púcaro, e tudo quanto o garfo apanhava era para o sacerdote. Desta mesma maneira, eles agiam para com todo o povo de Israel que vinha ao santuário de Silo. 15Pior ainda, antes de a gordura ser queimada, o criado do sacerdote ia ter com a pessoa que oferecia o seu sacrifício e dizia-lhe: «Dá-me alguma carne de assar para o sacerdote, porque ele não aceita carne já cozida, mas apenas crua.»

16Se o homem lhe dizia: «Está bem, mas primeiro deixa queimar a gordura2,16 Segundo a lei de Levítico 3., e depois leva o que quiseres», o criado do sacerdote respondia-lhe: «Não! Dá-me agora, porque, caso contrário, tiro-ta à força.»

17Semelhante pecado dos filhos de Eli era coisa muito grave diante do Senhor, porque não respeitavam as ofertas ao Senhor.

Samuel em Silo

18Entretanto Samuel continuava a servir o Senhor, e usava uma túnica votiva de linho2,18 Em hebraico: uma insígnia de oráculo (efod). A insígnia de oráculo, usada habitualmente pelos sacerdotes, era aqui provavelmente uma peça de vestuário usada por devoção.. 19E todos os anos, quando ia com o seu marido ao santuário, a sua mãe levava-lhe alguma roupa, que ela própria fazia. 20Eli abençoava Elcaná e sua mulher e dizia a Elcaná: «Que o Senhor te dê mais filhos desta mulher em troca daquele que ela ofereceu ao Senhor.» E eles voltavam para casa.

21De facto, o Senhor abençoou Ana e ela ficou de novo grávida e teve mais três filhos e duas filhas. Entretanto Samuel continuava a crescer ao serviço do Senhor.

Os filhos de Eli

22Eli estava a ficar muito velho. Ele ouvia contar o mal que os seus filhos faziam a todo o povo de Israel e que eles dormiam com as mulheres que trabalhavam à entrada da tenda do encontro2,22 Ver Ex 38,8. Provavelmente mulheres que cuidavam das limpezas.. 23Disse-lhes então: «Por que é que se comportam assim? Toda a gente me conta o mal que fazem. 24Acabem com isso, meus filhos! É coisa muito má o que ouço dizer a vosso respeito. Andam a desorientar o povo do Senhor. 25Se um homem ofende outro homem, Deus pode defendê-lo. Mas se ofende o próprio Senhor, quem é que o poderá defender?» Eles, porém, não deram ouvidos ao seu pai. Na verdade, o Senhor achou que eles deviam morrer.

26E Samuel continuava a crescer, agradando ao Senhor e aos homens.

Profecia contra a família de Eli

27Um profeta foi ter com Eli e transmitiu-lhe esta mensagem do Senhor: «Eu revelei-me aos antepassados do teu pai, quando eles estavam no Egito às ordens do faraó. 28E escolhi a família do teu pai entre todas as tribos de Israel para serem os meus sacerdotes, para oferecerem os sacrifícios, para queimarem o incenso e para me consultarem2,28 Literalmente: levar o efod. Ver 1 Sm 2,18. O efod era uma veste sacerdotal com um bolso, onde os sacerdotes punham os objetos sagrados que serviam para interrogar o Senhor e conhecer a sua vontade. Ver Ex 28,15–30.. Dei-lhes o privilégio de ficarem com uma parte dos sacrifícios dos filhos de Israel. 29Por que é que então faltam ao respeito devido aos sacrifícios e ofertas que eu estabeleci? Por que é que tu respeitas mais os teus filhos do que a mim, deixando-os engordar com as melhores partes dos sacrifícios que o meu povo me oferece? 30Por isso, eu, o Senhor de Israel te digo agora o seguinte: outrora prometi à tua família e ao teu clã que seriam meus sacerdotes para sempre, mas agora juro-te que honrarei os que me honrarem e os que me desprezarem serão humilhados! 31Vão chegar os dias em que exterminarei todos os descendentes da tua família e do teu clã, de modo que ninguém vai chegar a velho na tua família. 32Terás um rival no santuário e verás como ele agradará a Israel; mas na tua casa nunca mais haverá ninguém que chegue à velhice. 33Mesmo assim, deixarei um dos teus descendentes2,33 Refere-se a Ebiatar. Cf 1 Rs 2,26–27. vivo para me servir no altar, para te consumir os olhos e a vida, mas todos os outros descendentes da tua família hão de morrer na força da idade. 34Este é o sinal de que tudo quanto acabo de te dizer é verdade: os teus dois filhos Ofni e Fineias hão de morrer no mesmo dia. 35Vou escolher para mim um sacerdote que seja digno de toda a confiança e que há de cumprir em tudo a minha vontade. Hei de dar-lhe descendentes fiéis que servirão sempre o meu escolhido2,35 Um sacerdote. Referência a Sadoc (2 Sm 8,17). O meu escolhido. O texto apresenta a instituição sacerdotal e a real muito unidas.. 36Os que restarem dos teus descendentes virão ter com esse sacerdote para lhe pedirem dinheiro e pão. E hão de dizer-lhe: “Deixa-me desempenhar qualquer função sacerdotal para eu poder ganhar um pouco de pão para comer.”»

3

O Senhor aparece a Samuel

31O jovem Samuel continuava a servir o Senhor às ordens de Eli. Naqueles tempos era raro alguém receber uma mensagem do Senhor, pois ele a poucos se revelava.

2Certa noite, Eli, que se encontrava quase cego, estava a dormir no seu quarto. 3A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado3,3 A lâmpada. Trata-se da lâmpada do santuário que, segundo Ex 27,20–21, devia permanecer acesa desde a tarde até pela manhã. e Samuel dormia no interior do templo, onde se encontrava a arca da aliança. 4O Senhor chamou Samuel e ele respondeu: «Aqui estou3,4 Ver Gn 22,1; 31,11; Ex 3,4; Is 6,8.5Samuel correu para o quarto de Eli e disse-lhe: «Tu chamaste-me e eu aqui estou!» Mas Eli respondeu-lhe: «Não te chamei; volta para a tua cama.» E ele assim o fez. 6O Senhor chamou outra vez Samuel e ele foi novamente ter com Eli e disse-lhe: «Tu chamaste-me e eu aqui estou!» Eli voltou a responder-lhe: «Não te chamei, meu filho, volta para a tua cama.» 7Samuel não sabia que era o Senhor, porque o Senhor nunca lhe tinha falado antes.

8O Senhor chamou Samuel pela terceira vez. Samuel levantou-se, foi ter com Eli e disse-lhe: «Tu chamaste-me e eu aqui estou!» Eli compreendeu então que era o Senhor a chamar pelo jovem, 9e disse-lhe: «Volta para a tua cama. E se alguém te chamar novamente, responde: “Fala, Senhor, porque o teu servo está a ouvir.”» E Samuel voltou a deitar-se.

10O Senhor foi de novo ter com Samuel. Chamou por ele como das outras vezes e disse: «Samuel, Samuel!» Este respondeu: «Fala, que o teu servo está a ouvir.» 11O Senhor disse a Samuel: «Eu vou realizar em Israel algo que deixará horrorizado quem o ouvir contar. 12Hei de cumprir contra a família de Eli tudo quanto disse, desde o princípio ao fim. 13Já lhe anunciei que hei de castigar a sua família para sempre, por causa da falta dos seus dois filhos, de que ele era sabedor. Eli sabia que os seus filhos me ofendiam e não os corrigiu. 14Por isso, declaro solenemente à família de Eli que nada poderá apagar semelhante falta, nem sacrifícios nem ofertas.»

15Samuel continuou deitado até de manhãzinha; depois levantou-se e abriu as portas do santuário. Mas estava com medo de contar a visão a Eli. 16Eli chamou-o: «Samuel, meu filho», e ele respondeu: «Aqui estou!» 17Eli perguntou-lhe: «Que é que o Senhor te disse? Não me escondas nada, porque ele castiga-te, se me esconderes alguma coisa do que ele te disse.» 18Então Samuel contou-lhe tudo sem esconder nada e Eli disse: «Ele é o Senhor! Que faça como bem lhe parecer.»

19Samuel ia crescendo e o Senhor estava com ele e realizava tudo conforme lhe tinha dito. 20E todo o povo de Israel, desde Dan no norte, até Bercheba no sul, ficou a saber que Samuel era na verdade um profeta do Senhor.

21O Senhor continuou a revelar-se em Silo, onde tinha aparecido a Samuel e lhe tinha falado.

4

Os filisteus levam a arca da aliança

41Quando Samuel falava, era para todo o povo de Israel.

Certa altura, Israel estava em guerra com os filisteus e os israelitas acamparam junto de Eben-Ézer, enquanto os filisteus se encontravam em Afec. 2Os filisteus atacaram duramente e Israel foi vencido, tendo morrido no campo de batalha uns quatro mil homens. 3Quando os sobreviventes regressaram ao acampamento, os anciãos de Israel disseram: «Por que é que o Senhor permitiu que os filisteus nos vencessem? Vamos buscar a arca da aliança do Senhor a Silo, para que ela nos acompanhe e nos salve dos nossos inimigos.» 4Enviaram, pois, mensageiros a Silo, que trouxeram a arca da aliança do Senhor, todo-poderoso, que tem o seu trono sobre os querubins. E os dois filhos de Eli, Ofni e Fineias, acompanhavam a arca da aliança.

5Quando a arca chegou ao acampamento, os israelitas irromperam em enorme júbilo4,5 A arca era o “paládio” que acompanhava os guerreiros, personificando o próprio Deus como chefe dos exércitos., de tal modo que a terra estremeceu. 6Os filisteus ouviram aquela gritaria e disseram: «Que gritos são aqueles?» Compreenderam então que era por causa da arca da aliança que tinha chegado ao acampamento dos israelitas. 7Ficaram cheios de medo e disseram: «Estamos perdidos! Um deus entrou no seu acampamento! Nada disto nos aconteceu anteriormente! 8Estamos perdidos! Quem nos livrará de deuses tão poderosos? São estes os deuses que esmagaram os egípcios com toda a espécie de castigos, no deserto. 9Filisteus, sejam valentes! Combatam com coragem, para não se tornarem escravos dos hebreus, como eles já foram vossos escravos!»

10Os filisteus combateram corajosamente e venceram os israelitas, que acabaram por fugir para as suas tendas. A derrota foi muito dura: trinta mil soldados israelitas caíram mortos. 11A arca da aliança do Senhor foi apanhada e os dois filhos de Eli, Ofni e Fineias, morreram.

Morte de Eli

12Um homem da tribo de Benjamim correu do campo de batalha para Silo e chegou lá no mesmo dia. Em sinal de luto, rasgou as suas vestes e pôs terra por cima da cabeça. 13Eli estava sentado junto da estrada, em expectativa e cheio de ansiedade por causa da arca da aliança do Senhor. O homem espalhou a notícia pela cidade e toda a gente começou a gritar. 14Eli ouviu o barulho e perguntou: «Que significa todo este barulho?» Então o homem correu para Eli a anunciar-lhe as notícias. 15Eli estava com noventa e oito anos; levantou os olhos, mas já não conseguia ver. 16Disse-lhe o homem: «Sou eu que venho da frente da batalha. Hoje mesmo saí de lá e vim a correr até aqui.» Eli perguntou-lhe: «Que aconteceu, meu filho?»

17O mensageiro respondeu-lhe: «Israel recuou diante dos filisteus. Foi uma enorme derrota para o nosso povo. Os teus dois filhos, Ofni e Fineias, também morreram, e os inimigos levaram a arca da aliança do Senhor

18Quando Eli, que estava junto à porta, ouviu o que se tinha passado com a arca da aliança, caiu para trás e, como estava velho e pesado, partiu o pescoço e morreu. Eli tinha dirigido Israel durante quarenta anos.

Morte da viúva de Fineias

19A nora de Eli, mulher de Fineias, estava grávida e prestes a dar à luz. Quando ouviu dizer que a arca da aliança do Senhor tinha sido levada e que o sogro e o marido tinham morrido, sofreu um choque tão grande que lhe vieram de repente as dores de parto e deu à luz. 20Ela estava quase a morrer e as mulheres que a ajudavam no parto disseram-lhe: «Coragem! Nasceu-te um filho!» Mas ela não lhes respondeu, nem lhes deu atenção. 21Deu ao seu filho o nome de Icabod, querendo significar que, «a glória de Deus abandonou Israel4,21 Icabod. Muitos nomes hebraicos têm significados. Cabod quer dizer glória, sendo o i partícula de negação.». Referia-se à perda da arca da aliança e à morte do sogro e do marido. 22Mas ela disse que a glória de Deus tinha abandonado Israel, porque a arca da aliança tinha sido levada.