a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Naaman é curado da lepra

51Naaman, comandante dos exércitos do rei arameu da Síria, gozava de grande prestígio e respeito junto do seu rei, porque por meio de Naaman, o Senhor tinha dado a vitória aos exércitos arameus. Era um verdadeiro herói, mas era leproso. 2Numa das suas incursões contra Israel, os arameus tinham levado prisioneira uma jovem israelita, que ficou ao serviço da mulher de Naaman. 3A jovem disse um dia à sua senhora: «Ai, quem me dera que o meu amo fosse ter com o profeta que vive em Samaria! Ele com certeza que o curava da doença!»

4Quando Naaman ouviu isto, foi contar ao rei o que a jovem israelita tinha dito. 5O rei disse-lhe então: «Vai lá e levas uma carta minha para o rei de Israel.»

Naaman partiu. Levava trinta mil moedas de prata, seis mil moedas de ouro e dez mudas de roupa. 6A carta que levava para o rei de Israel dizia o seguinte: «Quando receberes esta carta, saberás que te envio Naaman, meu oficial, para que o cures da lepra

7Quando o rei de Israel leu a carta, rasgou as vestes indignado e exclamou: «Sou porventura algum deus, para dar morte ou vida a alguém? Por que é que este rei me enviou um homem para eu o curar da lepra? O que ele quer é arranjar um pretexto contra mim!»

8O profeta Eliseu, ao saber que o rei tinha rasgado as vestes, indignado, mandou-lhe dizer: «Por que rasgaste as tuas vestes? Esse homem que venha ter comigo e ficará a saber que há um profeta em Israel.»

9Naaman chegou com os seus cavalos e o seu carro e parou à porta da casa de Eliseu. 10Mas Eliseu mandou-lhe dizer por um mensageiro: «Vai lavar-te sete vezes no rio Jordão e o teu corpo ficará de novo são e limpo.» 11Naaman retirou-se, despeitado, e disse: «Pensei que ele viria cá fora receber-me, e que pediria ao Senhor, seu Deus, que passaria a mão por cima das zonas infetadas pela lepra, e me curaria! 12Além disso, não são porventura os rios de Damasco, Abaná e Parpar, melhores do que todos os rios de Israel? Não poderia eu ter ido lavar-me neles e ficar limpo?» E foi-se dali embora muito irritado. 13Mas os seus oficiais chegaram-se a ele e disseram: «Pai5,13 Pai. Título honorífico reservado a pessoas importantes., se o profeta te tivesse mandado fazer uma coisa difícil, não a farias? Então por que não fazes o que ele mandou, se te disse: “Lava-te e ficarás curado”»?

14Naaman dirigiu-se ao Jordão, mergulhou sete vezes, como o profeta Eliseu tinha ordenado e ficou limpo: a sua pele ficou como a duma criança.

15Com toda a sua comitiva, foi ter com o profeta, apresentou-se diante dele e disse: «Agora estou convencido de que em toda a terra não há outro Deus, senão o Deus de Israel. Peço-te que aceites um presente deste teu servo.»

16Eliseu respondeu: «Juro, pelo Senhor vivo5,16 Fórmula de juramento. Ver 2 Rs 5,20; 1 Rs 1,29., a quem sirvo, que não aceitarei.» Apesar das insistências de Naaman, Eliseu negou-se a aceitar o presente. 17Então Naaman disse: «Se não aceitas a minha oferta, permite-me que leve duas mulas carregadas com terra de Israel, porque este teu servo não voltará a oferecer holocaustos e sacrifícios a outros deuses, mas apenas ao Senhor5,17 Naquele tempo, cada nação tinha o seu deus (ou deuses), que segundo se pensava só podiam ser adorados na sua própria terra. Naaman esperava que o Deus de Israel aceitaria os seus sacrifícios, se ele os oferecesse em Damasco, num altar feito com terra de Israel.. 18Espero que o Senhor me perdoe, quando eu tiver de acompanhar o meu rei ao templo de Remon, deus da Síria, para o adorar; ele apoia-se no meu braço e eu terei de me ajoelhar também, dentro do templo. Que o Senhor perdoe este teu servo por isso!»

19Eliseu respondeu-lhe: «Vai em paz!» E Naaman partiu.

A falta de Gueázi

Naaman já ia a certa distância, 20quando Gueázi, o servo de Eliseu, pensou: «O meu amo deixou partir Naaman, sem aceitar nada do que ele trouxe! Ele devia ter aceitado o que o arameu lhe queria dar. Juro pelo Senhor vivo, que vou correr atrás dele, a ver se consigo apanhar alguma coisa!»

21Gueázi correu para alcançar Naaman, o qual, quando o viu, desceu do carro, foi ao seu encontro e perguntou: «Que aconteceu?» 22Gueázi respondeu: «Não aconteceu nada. Mas o meu amo mandou-me dizer-te que acabam de chegar a sua casa dois profetas jovens, que vêm dos montes de Efraim5,22 Região montanhosa onde viviam a tribo de Efraim e parte da tribo de Manassés., e pede-te que lhe dês três mil moedas de prata e duas mudas de roupa.» 23Naaman respondeu: «É melhor levares seis mil moedas.» Naaman insistiu, meteu as moedas de prata em dois sacos, juntamente com as duas mudas de roupa, e entregou tudo a dois dos seus criados, para que seguissem à frente de Gueázi. 24Quando chegaram a Ofel5,24 Ofel. Provavelmente um bairro de Samaria., Gueázi pegou nos sacos e guardou-os em sua casa. Depois mandou embora os criados de Naaman. 25Foi apresentar-se junto de Eliseu e este perguntou-lhe: «Donde vens, Gueázi?» E ele respondeu: «O teu servo não foi a parte nenhuma.» 26Mas Eliseu replicou: «Quando um certo homem desceu do seu carro para ir ao teu encontro, eu estava lá contigo em espírito. Achas que era este o momento para receber dinheiro e mudas de roupa, ou para comprar hortas, vinhas, ovelhas, bois, criados e criadas? 27Por isso, a lepra de Naaman se pegará a ti e à tua descendência para sempre.» Ao sair da presença de Eliseu, Gueázi ia já leproso: a sua pele estava branca como a neve.

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O machado recuperado

61Um dia o grupo de profetas disse a Eliseu: «Olha que o lugar onde vivemos sob a tua direção é demasiado apertado para nós. 2Permite-nos que vamos até ao vale do Jordão, para cada um de nós trazer um tronco e construirmos ali um lugar para habitarmos.» Eliseu respondeu-lhes que estava de acordo. 3Mas um deles disse: «Por favor, vem com os teus servos.» E ele respondeu: «Irei.»

4Pôs-se a caminho com eles e, mal chegaram ao Jordão, começaram a cortar árvores. 5Quando um deles cortava um tronco, caiu-lhe o machado à água e exclamou: «Ó mestre, o machado era emprestado!» 6O profeta perguntou-lhe: «Onde caiu ele?» O outro apontou para o lugar; então Eliseu cortou um pau, atirou-o à água e o machado ficou a flutuar. 7Eliseu ordenou-lhe: «Apanha-o!» O outro estendeu a mão e apanhou o machado.

Eliseu capturou os soldados arameus

8O rei da Síria estava em guerra com Israel. Consultando os seus oficiais, escolheu o lugar onde ia montar o acampamento. 9Mas Eliseu mandou avisar o rei de Israel, para evitar passar por aquele lugar, porque os arameus estavam lá emboscados. 10Então o rei de Israel enviou os seus homens para ali para estarem de guarda conforme o profeta o tinha informado e avisado. Isto aconteceu várias vezes.

11O rei da Síria ficou muito preocupado com aquilo, chamou os seus oficiais e disse-lhes: «Descubram qual dos nossos está do lado do rei de Israel.» 12Um deles respondeu: «Não é ninguém dos nossos, Majestade! É o profeta Eliseu que conta ao rei de Israel os planos que fazes até no teu próprio quarto.»

13Então o rei da Síria disse: «Descubram onde ele está, para o mandar prender.» Quando lhe disseram que Eliseu estava em Dotan6,13 Dotan. Localidade situada 45 km a norte de Jerusalém e 10 km a norte de Samaria. Ver Gn 37,17., 14o rei enviou um destacamento de cavalaria e carros de combate e muita infantaria, que chegaram à noite a Dotan e cercaram a cidade. 15O criado de Eliseu levantou-se muito cedo e, quando saiu de casa, viu o exército que cercava a cidade, com cavalos e carros de combate, foi perguntar a Eliseu: «E agora mestre, que vamos fazer?» 16Eliseu respondeu: «Não tenhas medo, porque são mais os que estão connosco do que os que estão com eles.» 17Depois orou ao Senhor: «Rogo-te, Senhor, que lhe abras os olhos para que veja.» O Senhor abriu os olhos do criado e ele viu que a montanha estava cheia de cavalos e carros de fogo em volta de Eliseu.

18Quando os arameus se aproximavam para o capturar, Eliseu rogou ao Senhor: «Peço-te que cegues estes homens.» O Senhor cegou-os, como Eliseu tinha pedido. 19Então Eliseu foi ter com eles e disse-lhes: «Não é este o caminho, nem é esta a cidade. Sigam-me, que eu vos levo até ao homem que procuram.» E levou-os até Samaria.

20Quando entraram na cidade, Eliseu rogou ao Senhor: «Peço-te que lhes abras de novo os olhos para que vejam.» O Senhor abriu-lhes os olhos e eles viram que estavam dentro de Samaria.

21Quando o rei de Israel os viu, perguntou a Eliseu: «Meu pai, devo matá-los?» 22Mas ele respondeu: «Não! Não os mates! Não costumas matar os prisioneiros que os teus soldados trazem da guerra. Dá-lhes de comer e beber e deixa-os voltar para o seu rei.» 23O rei de Israel mandou preparar-lhes um grande banquete e eles comeram e beberam. Depois mandou-os embora e eles voltaram para o seu rei. Desde então os arameus deixaram de fazer incursões em território israelita.

Cerco de Samaria

24Algum tempo depois, Ben-Hadad, rei da Síria, mobilizou todo o seu exército contra Israel e pôs cerco à cidade de Samaria. 25Como resultado do cerco, a falta de comida na cidade era tão grande que uma cabeça de jumento custava oitenta moedas de prata e um quarto de litro de esterco de pomba6,25 Expressão hebraica de difícil compreensão. Nome de uma planta não identificada ou então uma espécie de combustível feito de esterco seco, ou ainda uma expressão popular para significar alguma outra coisa., cinco moedas de prata.

26Um dia em que o rei passeava pela muralha, uma mulher gritou: «Socorro, Majestade!» 27O rei respondeu: «Se o Senhor não te ajuda, como queres que eu o faça? Já não há reservas, nem de trigo, nem de vinho. 28Que te aconteceu?» Ela respondeu: «Esta mulher que aqui está disse-me que nós comíamos o meu filho e no dia seguinte comíamos o dela. 29Cozinhámos então o meu filho e comemo-lo. No outro dia, eu disse-lhe para comermos o filho dela, mas ela escondeu-o.»

30Ao ouvir isto, o rei rasgou as suas vestes de indignação e os que estavam perto da muralha viram que, por baixo das vestes, ele trazia um tecido áspero junto ao corpo6,30 Este tecido áspero junto à pele era um sinal de penitência.. 31O rei então exclamou: «Que Deus me castigue severamente, se eu não cortar hoje a cabeça a Eliseu, filho de Chafat!»

Eliseu anuncia o fim da fome

32Eliseu estava em sua casa, e os anciãos do lugar estavam lá com ele. O rei mandou à frente um mensageiro, mas, antes que o mensageiro lá chegasse, Eliseu disse aos anciãos: «Vejam isto! Aquele assassino enviou aqui alguém para me cortar a cabeça. Mas prestem atenção! Quando esse homem chegar, fechem a porta e impeçam-no de entrar, pois ouvem-se já os passos do rei, que vem atrás dele.»

33Estava Eliseu ainda a falar com eles, quando o mensageiro6,33 Ou: rei. As palavras para rei e mensageiro são idênticas em hebraico. se apresentou e disse: «Já que esta desgraça nos foi enviada pelo Senhor, que mais posso esperar dele?»

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71Eliseu respondeu: «Escutem o que o Senhor diz: “Amanhã, por esta hora, à entrada de Samaria, poder-se-ão comprar, com uma só moeda de prata, sete litros de farinha e catorze de cevada. É o Senhor quem o declara!”»

2O ajudante de campo do rei de Israel, seu íntimo colaborador, respondeu ao profeta: «Isso não seria possível, mesmo que o Senhor nos enviasse chuva em abundância7,2 Em hebraico: mesmo que o Senhor abrisse as janelas do céu.!» Eliseu respondeu: «Tu vais ver isso com os teus próprios olhos, mas não hás de comer dessa comida.»

Retirada do exército arameu

3Havia quatro leprosos instalados fora da cidade, junto da porta principal. Eles disseram uns aos outros: «Que fazemos nós aqui sentados, esperando a morte? 4Se entrarmos na cidade, morreremos, porque ali reina a fome; se ficarmos aqui, morreremos da mesma maneira. Vamos mas é para o acampamento dos arameus. Se eles nos pouparem a vida, viveremos; se nos matarem, paciência!»

5Assim ao anoitecer, dirigiram-se para o acampamento dos arameus; mas quando já estavam perto, repararam que não havia lá ninguém. 6É que o Senhor tinha feito com que os arameus ouvissem ruídos de carros de combate e de cavalos dum poderoso exército. Disseram então uns para os outros: «O rei de Israel pagou aos reis dos hititas e dos egípcios, para enviarem os seus exércitos contra nós!» 7Por isso, ao cair da noite, fugiram todos, abandonando as tendas, os cavalos e os jumentos, deixando o acampamento como estava, para escaparem com vida.

8Quando os quatro leprosos chegaram ao limite do acampamento, entraram numa tenda, comeram e beberam do que lá havia, apoderaram-se da prata, do ouro e das roupas que encontraram e foram esconder tudo. Em seguida voltaram, entraram noutra tenda e foram esconder também o que nela tinham encontrado.

Fim do cerco e da fome

9Eles disseram então uns aos outros: «Não estamos a proceder bem! Temos hoje boas notícias e ficámos calados. Se esperarmos pela manhã para dar a notícia, Deus vai castigar-nos. Vamos informar o palácio real.»

10Voltaram para a cidade de Samaria e gritaram para as sentinelas da porta principal: «Fomos ao acampamento dos arameus e não vimos nem ouvimos lá ninguém; os cavalos e os jumentos estavam presos e as tendas estavam como as instalaram.»

11As sentinelas da entrada da cidade fizeram chegar a notícia ao palácio real. 12Era de noite, mas o rei levantou-se da cama e disse aos seus oficiais: «Vou explicar-vos o que os arameus estão a preparar! Como sabem que estamos cheios de fome, deixaram o acampamento e foram esconder-se no campo, pensando que nós sairemos da cidade, para nos apanharem vivos e depois poderem entrar nela.»

13Mas um dos oficiais propôs ao rei: «Com cinco dos cavalos que nos restam, enviemos alguns homens para fazerem um reconhecimento. De qualquer modo, eles correm o risco de morrer, como todos os habitantes da cidade7,13 Texto hebraico de difícil compreensão: tradução provável.14Escolheram os homens e o rei enviou-os em dois carros para seguirem as pisadas do exército arameu, para irem ver o que se passava. 15Eles seguiram o rasto dos arameus até ao rio Jordão, e por todo o caminho viram roupas e objetos de equipamento que os arameus tinham abandonado na fuga. Voltaram, então, para a cidade e contaram tudo ao rei. 16Em seguida, o povo saiu e saqueou o acampamento aramaico. E, conforme tinha sido anunciado pelo Senhor, a farinha vendeu-se à razão de sete litros por uma moeda de prata; e a cevada, à razão de catorze litros por uma moeda de prata.

17O rei ordenou ao ajudante de campo, seu íntimo colaborador, que se encarregasse de vigiar o mercado da porta principal da cidade, mas foi espezinhado pelo povo e ali morreu, conforme o que tinha sido anunciado pelo profeta, quando o rei o foi ver. 18Eliseu tinha prevenido o rei de que, por aquelas horas, no dia seguinte, se poderiam comprar, à entrada de Samaria, com uma só moeda de prata, sete litros de farinha de trigo ou catorze litros de cevada. 19O ajudante de campo do rei tinha respondido ao profeta que isso não seria possível, mesmo que o Senhor nos enviasse chuva com abundância. E Eliseu tinha respondido que ele veria isso com os seus próprios olhos, mas que nunca comeria dessa comida. 20De facto, assim aconteceu, porque o povo o espezinhou à entrada da cidade e ele morreu.