a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
23

231Então Paulo olhou de frente para os membros do tribunal judaico e disse: «Meus irmãos! Vivi até ao dia de hoje com a consciência tranquila diante de Deus.» 2Mas Ananias23,2 Ananias. Sumo sacerdote do ano 47 ao ano 59 d.C., o sumo sacerdote, mandou aos que estavam perto de Paulo que lhe batessem na boca. 3Paulo disse a Ananias: «Deus há de castigar-te por isso, seu fingido! Estás aí sentado para me julgares segundo a lei e mandas-me bater sendo isso contra a lei?» 4Os que ali estavam disseram a Paulo: «Atreves-te a insultar o sumo sacerdote de Deus?» 5Paulo respondeu: «Não sabia, meus irmãos, que era o sumo sacerdote. Na verdade, a Sagrada Escritura diz: Não insultarás o chefe do teu povo23,5 Ver Ex 22,27.

6Como Paulo sabia que alguns membros do tribunal eram do partido dos saduceus e outros do partido dos fariseus, disse bem alto: «Meus irmãos, eu sou fariseu e descendente de fariseus. Estou aqui a ser julgado, porque acredito que os mortos ressuscitam!» 7Quando ele disse isto, os fariseus e os saduceus começaram a discutir e o tribunal ficou dividido. 8Porque os saduceus não acreditam na ressurreição dos mortos, nem na existência de anjos ou de espíritos, enquanto os fariseus acreditam. 9Às tantas, já todos gritavam. Alguns doutores da lei, que pertenciam ao partido dos fariseus, levantaram-se e protestaram com toda a força: «Não temos nada que reprovar neste homem. E se algum espírito lhe falou, ou até algum anjo10A discussão tornou-se tão violenta que o comandante chegou a recear que eles despedaçassem Paulo. Por isso, mandou aos guardas que o tirassem dali e o levassem outra vez para a fortaleza.

11Nessa noite, apareceu o Senhor a Paulo e disse-lhe: «Coragem! Porque assim como deste testemunho de mim aqui em Jerusalém, também terás que fazê-lo em Roma.»

Planos para matar Paulo

12Já era manhã quando alguns judeus se reuniram para fazerem um juramento. Juraram que não haviam de comer nem beber, enquanto não matassem Paulo. 13Eram mais de quarenta os que tomaram esse compromisso. 14Foram ter com os chefes dos sacerdotes e com os anciãos e informaram-nos: «Fizemos um juramento diante de Deus de que não havemos de comer nada, enquanto não matarmos Paulo. 15Mandem pois agora, com os outros membros do tribunal, recado ao comandante para o trazer aqui amanhã. Digam que querem ter informações mais completas a respeito dele. Quanto a nós, estamos preparados para o matar antes que ele cá chegue.» 16Mas o filho da irmã de Paulo soube do plano e foi à fortaleza avisar o tio. 17Paulo chamou um dos oficiais e disse: «Leva este rapaz ao comandante, porque ele tem uma coisa para lhe contar.» 18O oficial levou o rapaz ao comandante e disse: «O prisioneiro Paulo chamou-me e pediu-me que te trouxesse este rapaz. Disse-me que ele tem qualquer coisa para te dizer.» 19O comandante pegou no rapaz pela mão, levou-o para um canto e perguntou-lhe: «Que é que tens para me contar?» 20Ele respondeu: «Alguns judeus combinaram pedir-te que leves Paulo amanhã ao tribunal, fingindo que querem ter informações mais completas a respeito dele. 21Não acredites, porque são mais de quarenta os que vão ficar escondidos à espera de Paulo para o matar. Fizeram todos um juramento solene de não comerem nem beberem nada enquanto não o matarem. Estão prontos para fazer isso. Só esperam que o deixes lá ir.» 22Então o comandante mandou o rapaz embora, mas pediu-lhe que não dissesse a ninguém que lhe tinha contado aquilo.

Paulo é levado para Cesareia

23O comandante chamou dois oficiais e ordenou: «Arranjem duzentos soldados, setenta cavaleiros e duzentos lanceiros para irem a Cesareia. Estejam prontos para sair às nove horas da noite. 24Preparem também cavalos para Paulo montar e levem-no com toda a segurança ao governador Félix.» 25Mandou também por eles esta carta: 26«Da parte de Cláudio Lísias ao Excelentíssimo Governador Félix, os meus cumprimentos. 27Os judeus prenderam este homem e iam matá-lo, mas quando eu soube que era cidadão romano, fui lá com os meus soldados e libertei-o. 28Como eu queria saber de que o acusavam, levei-o ao tribunal dos judeus. 29Percebi então que ele nada fizera que merecesse a prisão ou a morte. A acusação que lhe faziam era a respeito da lei deles. 30Quando fui informado de que os judeus tinham feito planos para o matar, resolvi mandar-to. Aos que o acusam pedi que tratem contigo do que tiverem contra ele.»

31Então os soldados, conforme as ordens que tinham recebido do comandante, levaram Paulo de noite até à cidade de Antipátride. 32No outro dia, voltaram à fortaleza e os cavaleiros seguiram com Paulo para Cesareia. 33Quando lá chegaram, deram a carta ao governador e entregaram-lhe Paulo. 34O governador leu a carta e perguntou a Paulo de que região era. Ao saber que era da Cilícia, 35disse-lhe: «Quero ouvir-te quando chegarem os teus acusadores.» E deu ordens para ficar preso no palácio de Herodes23,35 Palácio construído por Herodes, o Grande, em Cesareia; foi escolhido como residência dos governadores romanos..

24

Paulo defende-se diante de Félix

241Cinco dias depois, Ananias, o chefe dos sacerdotes, foi a Cesareia com alguns anciãos e com um advogado chamado Tertulo. Apresentaram queixa ao governador, contra Paulo. 2Quando trouxeram Paulo, Tertulo começou a acusá-lo, dizendo a Félix: «Excelentíssimo Governador Félix! Graças a ti e às reformas que fizeste com tanta sabedoria a favor deste povo, gozamos de uma paz completa. 3Estamos-te muito agradecidos por tudo aquilo que temos recebido, em todas as ocasiões e em todos os lugares. 4Para não te roubar muito tempo, peço-te que tenhas a bondade de nos escutar por uns momentos. 5Nós sabemos que este homem é uma peste. Provoca desordens entre os judeus de todo o mundo e é cabecilha da seita dos Nazarenos. 6Até tentou profanar o templo. Foi então que o prendemos24,6 Alguns manuscritos acrescentam: e queríamos julgá-lo de acordo com a nossa lei.. 7[Mas apareceu o comandante Lísias e tirou-o das nossas mãos à força, dizendo-nos que os que o acusavam deviam vir ter contigo24,7 Este versículo não se encontra em alguns dos manuscritos antigos..] 8Se o interrogares, vais ouvir da sua boca tudo aquilo de que o acusamos.» 9Os outros judeus apoiaram a acusação do advogado e afirmaram que era tudo verdade.

10O governador fez sinal a Paulo para falar e ele então disse: «Eu sei que há muitos anos és juiz do povo judeu. Por isso faço a minha defesa diante de ti com toda a confiança. 11Como podes averiguar, cheguei a Jerusalém para adorar a Deus há apenas doze dias. 12Os judeus não me encontraram a discutir com ninguém ou a agitar o povo, nem no templo, nem nas sinagogas, nem em qualquer parte da cidade. 13Eles não têm provas para nenhuma das acusações que agora trazem contra mim. 14Há uma coisa que eu reconheço: é que sirvo o Deus dos meus antepassados de acordo com o novo Caminho24,14 Ver 2 Pe 2,2 e nota., que eles dizem que é uma seita. Creio em tudo o que está escrito na Lei de Moisés e nos profetas 15e tenho a mesma esperança que eles têm em Deus, de que todos hão de ressuscitar, tanto os bons como os maus. 16Por isso procuro ter sempre a minha consciência limpa diante de Deus e dos homens. 17Depois de ter estado fora de Jerusalém vários anos, voltei lá para levar algum dinheiro ao meu próprio povo e para oferecer sacrifícios a Deus. 18Quando estava a fazer isso, depois de ter acabado a cerimónia da purificação, viram-me no templo. Não havia desordem nenhuma. 19Estavam lá alguns judeus da província da Ásia. São eles que devem vir aqui diante de ti fazer acusações, se é que têm alguma coisa contra mim. 20Ou então, que estes homens aqui digam se me acharam culpado de algum crime quando eu estava diante do supremo tribunal dos judeus. 21A não ser que se trate desta frase que eu disse em voz alta, quando estava no meio deles: “Estou aqui hoje a ser julgado por vós, porque acredito que os mortos ressuscitam.”»

22Então Félix, que estava bem informado sobre o Caminho do Senhor24,22 Ver 2 Pe 2,2 e nota., adiou o julgamento e disse: «Quando o comandante Lísias chegar, vou resolver o caso.» 23E deu ordens ao oficial de serviço para manter Paulo na prisão, mas com certa liberdade e licença para receber ajuda dos amigos.

Paulo na prisão

24Alguns dias mais tarde, Félix24,24 Ver 23,24 e nota. ia acompanhado de Drusila24,24 Drusila era a filha mais nova do rei Herodes Agripa (ver 12,1 e nota). Ela abandonou o seu primeiro marido, o rei Emeso, para se casar com Félix., sua mulher, que era judia. Mandou chamar Paulo e ouviu-o a respeito da fé em Cristo Jesus. 25Mas quando Paulo começou a falar da justiça, do autodomínio e do dia do juízo final, Félix assustou-se muito e disse a Paulo: «Por agora, podes ir. Quando eu puder, chamo-te outra vez.» 26Félix esperava também que Paulo lhe desse algum dinheiro e por isso o chamava muitas vezes para falar com ele. 27Dois anos depois, Pórcio Festo24,27 Pórcio Festo. Nomeado governador da Judeia em 59 ou 60; morreu em 62 d.C. substituiu Félix como governador. Como Félix queria agradar aos judeus, deixou Paulo na prisão.

25

Paulo apela para o imperador

251Três dias depois de ter tomado conta do governo daquela região, Festo saiu de Cesareia e foi a Jerusalém. 2Os chefes dos sacerdotes e as autoridades judaicas apresentaram-se diante dele com as suas acusações contra Paulo. 3Pediram a Festo o favor de mandar vir Paulo a Jerusalém. O plano deles era matá-lo no caminho. 4Mas Festo respondeu: «Paulo está preso em Cesareia e eu vou voltar para lá dentro de pouco tempo. 5Os mais qualificados de entre vós poderão vir comigo para lá o acusarem, se é que ele fez algum mal.» 6Festo só ficou em Jerusalém uns oito ou dez dias e depois voltou para Cesareia. No dia seguinte, tomou o seu lugar no tribunal e mandou buscar Paulo. 7Quando Paulo entrou, os judeus que tinham vindo de Jerusalém ficaram em volta dele e começaram a fazer muitas acusações graves, mas não conseguiram provar nenhuma. 8Então Paulo disse em sua defesa: «Eu não cometi qualquer falta, nem contra a lei judaica, nem contra o templo, nem contra o imperador9Então Festo, para agradar aos judeus, perguntou a Paulo: «Queres ir a Jerusalém para seres lá julgado por mim a respeito destas coisas?» 10Paulo respondeu: «Estou diante do tribunal do imperador romano, onde devo ser julgado. Não fiz mal nenhum aos judeus, como tu sabes muito bem. 11Se de facto sou culpado, ou se fiz alguma coisa que mereça a pena de morte, estou pronto a morrer. Mas se o que dizem contra mim não é verdade, ninguém me pode entregar aos judeus. Portanto, apelo para o imperador.»

12Então Festo, depois de conversar com os seus conselheiros, disse: «Apelaste para o imperador, irás ao imperador!»

Paulo diante de Agripa

13Algum tempo depois, o rei Agripa25,13 Agripa II, filho de Herodes Agripa I, referido no cap. 12. Drusila e Berenice eram, portanto, irmãs de Agripa II. e Berenice foram a Cesareia para cumprimentar Festo25,13 Ver 24,27 e nota.. 14Como ali ficaram alguns dias, Festo contou ao rei o caso de Paulo: «Tenho cá um homem que Félix deixou na prisão. 15Quando fui a Jerusalém, os chefes dos sacerdotes e as autoridades judaicas puseram-me uma queixa contra ele e reclamavam a sua condenação. 16Eu disse-lhes que as autoridades romanas não costumam condenar ninguém sem primeiro chamar os acusadores diante do acusado, para que ele tenha oportunidade de se defender. 17Por isso, quando eles cá vieram não perdi tempo e, logo no dia seguinte, tomei lugar no tribunal e mandei trazer o homem. 18Os seus inimigos apresentaram-se para o acusar, mas não tinham contra ele nenhum crime grave, como eu pensava. 19A única acusação era a respeito da sua própria religião e de um certo Jesus que morreu, mas que Paulo afirma estar vivo. 20Como eu não sabia o que havia de fazer com uma questão destas, perguntei a Paulo se queria ir a Jerusalém para ser lá julgado sobre essas coisas de que o acusavam. 21Mas Paulo pediu para ser julgado pelo imperador e eu dei ordem para ele continuar preso até poder mandá-lo ao imperador.» 22Então Agripa disse a Festo: «Também eu gostava de ouvir esse homem.» Festo respondeu: «Pois amanhã mesmo vais ouvi-lo.»

23No dia seguinte, Agripa e Berenice chegaram com grande cerimónia e pompa. Entraram na sala de receções com os chefes militares e os homens mais importantes da cidade. Festo mandou trazer Paulo 24e disse: «Rei Agripa e todos os senhores aqui presentes! Vejam este homem! É contra ele que todos os judeus, tanto daqui como de Jerusalém, fazem acusações na minha presença. Eles insistem em que este homem não deve continuar vivo. 25Mas eu acho que ele não fez nada que mereça a morte. Contudo, como pediu para ser julgado pelo imperador, resolvi enviá-lo a César. 26Como até agora não sei bem o que escrever a respeito dele ao imperador, trago-o aqui diante de todos, especialmente de ti, rei Agripa, para que do interrogatório eu consiga tirar alguma coisa para escrever. 27Pois parece-me absurdo mandar um prisioneiro sem indicar as acusações que há contra ele.»