a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
4

Segundo sonho do rei

41«Eu vivia tranquilo no conforto e sumptuosidade do meu palácio. 2E, uma noite, enquanto dormia, tive um sonho e pesadelos que me perturbaram; neles vi coisas terríveis. 3Quando acordei, mandei vir à minha presença os sábios da Babilónia, para que me revelassem o significado daquilo que eu sonhara. 4Os magos, adivinhos, astrólogos e feiticeiros compareceram diante de mim. Contei-lhes o sonho, mas não foram capazes de me explicar o seu sentido. 5Por fim, veio à minha presença Daniel, que também se chama Beltechaçar, segundo o nome do meu deus4,5 Meu Deus. Trata-se de Bel, a principal divindade dos babilónios.. O espírito dos deuses santos4,5 Ou: do Deus santo. está com ele. Contei-lhe também o que sonhara e disse-lhe: 6“Eu sei que o espírito dos deuses santos4,6 Ou: do Deus santo. está contigo, ó Beltechaçar, chefe dos magos; sei que podes entender todos os mistérios. Vou dizer-te o que sonhei, para que me digas o que significa.

7Enquanto dormia na minha cama, tive esta visão:

Vi uma árvore gigantesca, plantada no meio da terra.

8Ela não parou de crescer

até que chegou ao céu

e podia ser vista do mundo inteiro.

9As suas folhas eram belas,

e estava carregada de fruto

suficiente para alimentar toda a terra.

Animais selvagens descansavam à sua sombra;

as aves faziam ninho nos seus ramos

e todos os seres criados comiam do seu fruto.

10Enquanto eu, deitado, meditava na visão,

vi que um anjo descia do céu, alerta e vigilante,

11que proclamava com voz forte:

Deitem a árvore abaixo e cortem os seus ramos;

tirem-lhe as folhas e espalhem os frutos.

Afastem os animais que estão debaixo dela,

e enxotem as aves dos seus ramos!

12Mas deixem no chão o cepo com as raízes,

com um anel de ferro e bronze à sua volta.

Deixem-no ali no campo, juntamente com a erva.

Será molhado pelo orvalho do céu

e comerá erva como os animais.

13Perderá o entendimento de homem

ficando só como um animal.

E que fique assim durante sete anos.

14Esta é a decisão dos anjos vigilantes,

a ordem transmitida pelos santos.

Todo o povo saiba que o Altíssimo

tem poder sobre os reinos humanos,

e que os pode entregar a quem quiser,

até mesmo ao mais insignificante dos homens.”»

Daniel dá a interpretação do sonho

15«Este é o sonho que eu, Nabucodonosor, tive. Diz-me agora, Beltechaçar! Qual é o seu sentido, pois nenhum dos sábios do meu reino pôde explicá-lo, mas tu podes, porque o espírito dos deuses santos4,15 Ou: do Deus santo. está contigo.»

16Então Daniel, também chamado Beltechaçar, ficou tão alarmado que mal podia falar. O rei disse-lhe: «Beltechaçar, não te deixes alarmar pelo sonho e pelo seu significado.» Beltechaçar respondeu: «Quem dera que o sonho e o seu significado se referissem aos vossos inimigos e não a vós, mas refere-se a Vossa Majestade! 17A árvore que viu era tão alta que chegava ao céu e podia ser vista do mundo inteiro. 18As suas folhas eram belas e o seu fruto, suficiente para alimentar toda a população da terra. Os animais selvagens repousavam à sua sombra e as aves faziam ninho nos seus ramos. 19Majestade, vós sois a grande árvore, alta e forte. Vossa Majestade cresceu tanto que chega ao céu e o seu poder chega até aos confins da terra. 20Enquanto Vossa Majestade estava a sonhar, um anjo desceu do céu e ordenou: “Que a árvore seja cortada e destruída, mas que o cepo fique intacto. Ligue-se o tronco com um anel de ferro e de bronze e seja deixado junto à erva do campo. Que o orvalho caia sobre esse homem e viva como os animais, durante sete anos.”

21É este o significado do sonho e o que o Altíssimo predisse que vai acontecer a Vossa Majestade. 22Vai ser afastado do convívio da sociedade humana e habitará com os animais selvagens. Durante sete anos, comerá erva como os bois, dormirá ao relento e será molhado pelo orvalho. Depois disto, Vossa Majestade tem que admitir, finalmente, que o Altíssimo domina sobre todos os reinos e os entrega a quem bem lhe parece. 23Os anjos deram ordens para que o cepo fosse poupado com as raízes. Isso significa que Vossa Majestade será rei novamente, quando reconhecer que Deus é soberano sobre toda a terra. 24Por isso, ó rei, siga o meu conselho. Renuncie aos seus pecados, pratique a justiça e tenha compaixão dos pobres. Só então poderá viver tranquilo.» 25E tudo isto aconteceu ao rei Nabucodonosor.

26Doze meses mais tarde, enquanto passeava pelos jardins do seu palácio, na Babilónia, 27dizia com admiração: «Olhem para esta cidade da Babilónia, como é grandiosa! Construí-a para que fosse a minha capital, para demonstrar o meu poder e domínio, a minha glória e majestade.»

28Ainda o rei não tinha acabado de falar, ouviu-se uma voz do céu: «Rei Nabucodonosor, escuta o que te vou dizer: o teu poder real vai-te ser retirado. 29Vais ser afastado do convívio da sociedade humana; terás que viver como os animais selvagens e comer erva como os bois, durante sete anos. Então reconhecerás que o Deus altíssimo domina sobre todos os reinos e os entrega a quem bem lhe parece.»

30E logo esta sentença se cumpriu. Nabucodonosor foi afastado da sociedade e passou a comer erva como se fosse um boi. O orvalho caía sobre o seu corpo e cresceu-lhe pelo tão comprido como penas de águia; as suas unhas eram como garras das aves.

Nabucodonosor dá louvor a Deus

31«Cumprido aquele tempo, eu, Nabucodonosor, olhei para o céu e recuperei o meu juízo. Louvei o Altíssimo e dei honra e glória àquele que vive para sempre.

A sua soberania é eterna e o seu reino durará por séculos sem fim. 32Os habitantes da terra não são nada aos seus olhos; os anjos e os homens estão debaixo do seu domínio. Ninguém se pode opor à sua vontade nem pedir-lhe contas do que faz.

33Quando recuperei o juízo, recebi novamente a honra, a majestade e a glória que me são devidas. Os meus oficiais e nobres acolheram-me com alegria e foi-me restituído o poder real, mais ainda do que tinha antes. 34Por isso, eu, Nabucodonosor, louvo, honro e dou glória ao Rei do Céu. Tudo o que ele faz está certo e são justos os seus caminhos. Sim, ele tem poder para humilhar os orgulhosos!»

5

Banquete do rei Baltasar

51Certa noite, o rei Baltasar, filho de Nabucodonosor, convidou mil dos seus nobres para um grande banquete e puseram-se a beber vinho. 2Já tocado pelo vinho, Baltasar mandou buscar as taças e os copos de ouro e prata que o seu pai levara do templo de Jerusalém5,2 Ver 2 Rs 25,14–15.. Era intenção do rei servir-se deles para beber vinho com as suas mulheres e concubinas e com os nobres. 3Levaram-lhe então as taças de ouro retiradas do templo de Jerusalém e o rei com as mulheres e concubinas, puseram-se a beber por elas juntamente com os nobres. 4Quando estavam já bem bebidos, brindaram em honra dos deuses de ouro, prata, bronze e ferro, madeira e pedra.

5Mas de repente, apareceu uma mão humana, que começou a escrever na parte mais iluminada da parede estucada do palácio. Ao ver essa mão a escrever, 6o rei empalideceu e ficou com tanto medo que os seus joelhos começaram a tremer e a bater um no outro. 7Pôs-se a gritar e mandou logo chamar os adivinhos e os astrólogos e feiticeiros e, mal estes sábios da Babilónia foram introduzidos à sua presença, disse-lhes: «Quem for capaz de ler o que está escrito e me disser o que significa receberá vestes de púrpura reais e será presenteado com uma corrente de ouro para o pescoço. Também terá o terceiro lugar em poder, em todo o meu reino.»

8Porém nenhum dos sábios do rei conseguiu ler o que fora escrito nem dizer o que significava. 9O pânico do rei Baltasar era cada vez maior e os seus nobres não sabiam o que fazer.

10Então a rainha, ao ouvir o barulho que o rei e os seus nobres faziam, entrou na sala do banquete e exclamou: «Viva para sempre, Majestade! Não se aflija nem se preocupe! Escusa de ficar pálido! 11Há uma pessoa neste reino que tem o espírito dos deuses santos5,11 Ou: do Deus santo.. Quando o vosso pai era rei, essa pessoa mostrou bom senso, conhecimento e sabedoria iguais aos dos deuses5,11 Ou: de Deus.. E o senhor vosso pai, o rei Nabucodonosor, fê-lo chefe dos magos, adivinhos, astrólogos e feiticeiros. 12Ele tem habilidade especial e sabe interpretar os sonhos, resolver os enigmas e explicar os mistérios; mande pois, Vossa Majestade, chamar Daniel, a quem o rei, vosso pai, pôs o nome de Beltechaçar, e ele lhe dirá o que tudo isto significa.»

Daniel decifra a escrita misteriosa

13Mandaram chamar Daniel imediatamente à presença do rei e este disse-lhe: «És tu Daniel, o judeu, que o meu pai trouxe prisioneiro de Judá? 14Ouvi dizer que tens o espírito dos deuses5,14 Ou: de Deus. e que tens uma inteligência luminosa e sabedoria extraordinária. 15Até aqui, nenhum dos meus sábios e adivinhos que me trouxeram foi capaz de ler esta escrita nem de me explicar o seu significado. 16Mas ouvi dizer que és capaz de revelar o que está escondido e explicar os mistérios. Se conseguires ler esta escrita e me disseres o que significa, receberás vestes de púrpura reais, e ofereço-te uma corrente de ouro para o pescoço. E serás a terceira pessoa mais poderosa do meu reino.»

17Daniel respondeu ao rei: «Pode guardar os presentes, Majestade! Ou, se o entender, pode dá-los a outra pessoa! Quanto à inscrição, eu vou lê-la e explicar para Vossa Majestade o seu significado. 18O Deus Altíssimo permitiu que Nabucodonosor, vosso pai, fosse um grande rei e deu-lhe glória e majestade. 19A sua grandeza era tal que os povos de todas as nações, raças e línguas o temiam, e tremiam diante dele. Ele tinha poder para matar ou deixar viver; honrar ou humilhar a quem ele quisesse. 20Mas por causa do seu orgulho, teimosia e crueldade, foi-lhe retirado o trono e privado da dignidade real. 21Foi afastado do convívio da sociedade humana e ficou sem entendimento como um animal. Vivia com os burros selvagens, comia erva como os bois e dormia ao relento e o orvalho caía-lhe em cima. Por fim, reconheceu que o Deus Altíssimo domina sobre os reinos dos homens e tem poder para os entregar a quem bem lhe parece. 22Porém Vossa Majestade, que é filho dele, não se mostrou submisso embora soubesse tudo isto. 23Vossa Majestade ofendeu o Senhor do céu, ao mandar vir os copos e taças que eram do seu templo. Com os seus nobres e as suas mulheres e concubinas, bebeu vinho por eles, cantando louvores aos deuses feitos de ouro, prata, bronze, ferro, madeira e pedra, deuses que não podem ver nem ouvir e que nada conhecem. Mas não prestou honra a Deus que lhe pode dar a vida ou a morte e que controla tudo o que Vossa Majestade faz. 24Por isso, Deus, por mão misteriosa, fez escrever estas palavras. 25A sua leitura é a seguinte: Mene, Mene, Tequel, Farsin5,25 Número, número, peso, divisões.. 26Ou seja: Mene: Deus contou os dias do vosso reinado e fê-los chegar ao fim. 27Tequel: Vossa Majestade foi pesado na balança e era leve demais. 28Farsin: o vosso reino foi dividido e dado aos medos e aos persas5,28 Em aramaico, a palavra persas é homófona da palavra divisão.

29Imediatamente, Baltasar deu ordens aos seus servos para que vestissem Daniel com um manto de púrpura real e lhe pusessem uma corrente de ouro ao pescoço. E fez dele a terceira pessoa mais poderosa do reino.

30Naquela mesma noite, Baltasar, o rei da Babilónia, foi morto.

6

61Dario, o medo, sucedeu-lhe no trono com sessenta e dois anos de idade.

Daniel na cova dos leões

2Dario decidiu nomear cento e vinte sátrapas para administrar o seu império. 3E à frente deles colocou Daniel e mais dois outros superintendentes, para que os sátrapas lhes dessem contas e assim zelassem pelos interesses do rei. 4Daniel logo demonstrou capacidades de trabalho superiores aos outros dois e aos sátrapas. Com efeito, evidenciou-se de tal maneira que o rei pensou em o nomear responsável de todo o império. 5Então os outros superintendentes e sátrapas procuraram descobrir alguma deficiência na maneira como Daniel administrava o império, mas não conseguiram, porque Daniel era cumpridor e não fazia nada de mal nem era desonesto. 6Por isso, eles diziam entre si: «Não vamos conseguir encontrar nada para acusar Daniel, a não ser que descubramos algo relacionado com a sua religião.»

7Assim foram à presença do rei e disseram: «Que Vossa Majestade viva para sempre, ó rei Dario! 8Todos nós que administramos o vosso império, superintendentes, chefes, sátrapas, oficiais e governadores recomendamos que Vossa Majestade faça um decreto que entre imediatamente em vigor. Deem-se ordens para que, durante trinta dias, ninguém seja autorizado a requerer seja o que for dos deuses ou dos homens, exceto de Vossa Majestade. Quem violar este decreto será atirado para uma cova cheia de leões. 9Que este decreto seja imediatamente redigido, assinado por Vossa Majestade, para que não possa ser alterado e seja irrevogável, como lei dos medos e dos persas6,9 Ver Et 1,19; 8,8.10E assim, o rei Dario assinou e promulgou o decreto.

11Quando Daniel soube que aquele decreto tinha sido assinado, foi para casa. No andar superior, tinha uma janela voltada para Jerusalém6,11 Ver 1 Rs 8,44.48; Sl 5,8; 28,2; 138,2.. Como era seu costume, três vezes por dia6,11 Ver Sl 55,18., ajoelhou-se ali, de janela aberta, para orar a Deus. 12Os inimigos de Daniel apareceram de repente e descobriram que ele continuava a fazer oração ao seu Deus. 13Foram logo à presença do rei para acusar Daniel e disseram: «Vossa Majestade assinou um decreto para que nos próximos trinta dias, se alguém pedir seja o que for aos deuses ou aos homens, exceto a Vossa Majestade, seja atirado para uma cova cheia de leões!» O rei confirmou: «Sim! É um decreto que tem de ser cumprido, uma lei dos medos e dos persas, que não pode ser alterada.»

14Disseram então ao rei: «Daniel, um dos exilados de Judá, não tem respeito por Vossa Majestade e não obedece ao decreto. Ele faz a sua oração regularmente ao seu Deus, três vezes por dia.»

15Quando o rei ouviu estas palavras, ficou muito abatido e fez o possível para encontrar maneira de salvar Daniel. Até ao pôr do sol, não descansou para o livrar. 16Então os que tinham acusado Daniel voltaram à presença do rei e disseram: «Vossa Majestade sabe que, segundo as leis dos medos e dos persas, nenhum decreto promulgado pelo rei pode ser mudado.» 17Então o rei deu ordem para que Daniel fosse preso e lançado numa cova cheia de leões. Disse porém a Daniel: «Que o teu Deus, a quem tu serves tão fielmente, venha em teu socorro6,17 Ou: Espero que o teu Deus te salvará.

18Uma grande pedra foi colocada sobre a abertura da cova, selada com o selo do rei e com o dos seus nobres, para que ninguém pudesse socorrer a Daniel.

Daniel, são e salvo

19O rei voltou para o palácio e passou a noite sem dormir, recusando comida e quaisquer divertimentos.

20De madrugada, levantou-se e foi a correr para a cova dos leões. 21Mal lá chegou, chamou, cheio de ansiedade: «Daniel, servo do Deus vivo! Será que o Deus a quem tu serves tão fielmente te livrou realmente dos leões?»

22Daniel respondeu-lhe: «Viva Vossa Majestade para sempre! 23Deus enviou o seu anjo para fechar a boca dos leões, a fim de que não me fizessem mal. Ele sabia que eu estava inocente e que também não tinha feito nada contra Vossa Majestade.»

24O rei ficou cheio de alegria por causa de Daniel e imediatamente deu ordem para que este fosse retirado da cova. Quando o puxaram para fora verificaram que não tinha sido mordido, pois tinha confiado em Deus. 25Então o rei mandou prender aqueles que tinham acusado Daniel e mandou-os atirar, juntamente com as suas mulheres e filhos, para dentro da cova cheia de leões. Antes de chegarem ao fundo, já os leões se tinham apoderado deles e despedaçado os seus ossos.

26Depois o rei Dario enviou aos povos de todas as nações, raças e línguas da terra a seguinte mensagem:

«Desejo-vos paz e prosperidade!

27Ordeno e mando, que todos os súbditos do meu império temam e respeitem o Deus de Daniel.

Pois, ele é um Deus vivo

que subsistirá para sempre.

O seu reino nunca será destruído

e o seu domínio não terá fim.

28Ele salva e socorre;

faz maravilhas e milagres,

tanto no céu como na terra.

Foi ele que salvou Daniel

de ser morto pelos leões.»

29E Daniel prosperou durante o reinado de Dario e, depois, durante o de Ciro, rei dos persas6,29 Ver Ed 1,1.