a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Banquete do rei Baltasar

51Certa noite, o rei Baltasar, filho de Nabucodonosor, convidou mil dos seus nobres para um grande banquete e puseram-se a beber vinho. 2Já tocado pelo vinho, Baltasar mandou buscar as taças e os copos de ouro e prata que o seu pai levara do templo de Jerusalém5,2 Ver 2 Rs 25,14–15.. Era intenção do rei servir-se deles para beber vinho com as suas mulheres e concubinas e com os nobres. 3Levaram-lhe então as taças de ouro retiradas do templo de Jerusalém e o rei com as mulheres e concubinas, puseram-se a beber por elas juntamente com os nobres. 4Quando estavam já bem bebidos, brindaram em honra dos deuses de ouro, prata, bronze e ferro, madeira e pedra.

5Mas de repente, apareceu uma mão humana, que começou a escrever na parte mais iluminada da parede estucada do palácio. Ao ver essa mão a escrever, 6o rei empalideceu e ficou com tanto medo que os seus joelhos começaram a tremer e a bater um no outro. 7Pôs-se a gritar e mandou logo chamar os adivinhos e os astrólogos e feiticeiros e, mal estes sábios da Babilónia foram introduzidos à sua presença, disse-lhes: «Quem for capaz de ler o que está escrito e me disser o que significa receberá vestes de púrpura reais e será presenteado com uma corrente de ouro para o pescoço. Também terá o terceiro lugar em poder, em todo o meu reino.»

8Porém nenhum dos sábios do rei conseguiu ler o que fora escrito nem dizer o que significava. 9O pânico do rei Baltasar era cada vez maior e os seus nobres não sabiam o que fazer.

10Então a rainha, ao ouvir o barulho que o rei e os seus nobres faziam, entrou na sala do banquete e exclamou: «Viva para sempre, Majestade! Não se aflija nem se preocupe! Escusa de ficar pálido! 11Há uma pessoa neste reino que tem o espírito dos deuses santos5,11 Ou: do Deus santo.. Quando o vosso pai era rei, essa pessoa mostrou bom senso, conhecimento e sabedoria iguais aos dos deuses5,11 Ou: de Deus.. E o senhor vosso pai, o rei Nabucodonosor, fê-lo chefe dos magos, adivinhos, astrólogos e feiticeiros. 12Ele tem habilidade especial e sabe interpretar os sonhos, resolver os enigmas e explicar os mistérios; mande pois, Vossa Majestade, chamar Daniel, a quem o rei, vosso pai, pôs o nome de Beltechaçar, e ele lhe dirá o que tudo isto significa.»

Daniel decifra a escrita misteriosa

13Mandaram chamar Daniel imediatamente à presença do rei e este disse-lhe: «És tu Daniel, o judeu, que o meu pai trouxe prisioneiro de Judá? 14Ouvi dizer que tens o espírito dos deuses5,14 Ou: de Deus. e que tens uma inteligência luminosa e sabedoria extraordinária. 15Até aqui, nenhum dos meus sábios e adivinhos que me trouxeram foi capaz de ler esta escrita nem de me explicar o seu significado. 16Mas ouvi dizer que és capaz de revelar o que está escondido e explicar os mistérios. Se conseguires ler esta escrita e me disseres o que significa, receberás vestes de púrpura reais, e ofereço-te uma corrente de ouro para o pescoço. E serás a terceira pessoa mais poderosa do meu reino.»

17Daniel respondeu ao rei: «Pode guardar os presentes, Majestade! Ou, se o entender, pode dá-los a outra pessoa! Quanto à inscrição, eu vou lê-la e explicar para Vossa Majestade o seu significado. 18O Deus Altíssimo permitiu que Nabucodonosor, vosso pai, fosse um grande rei e deu-lhe glória e majestade. 19A sua grandeza era tal que os povos de todas as nações, raças e línguas o temiam, e tremiam diante dele. Ele tinha poder para matar ou deixar viver; honrar ou humilhar a quem ele quisesse. 20Mas por causa do seu orgulho, teimosia e crueldade, foi-lhe retirado o trono e privado da dignidade real. 21Foi afastado do convívio da sociedade humana e ficou sem entendimento como um animal. Vivia com os burros selvagens, comia erva como os bois e dormia ao relento e o orvalho caía-lhe em cima. Por fim, reconheceu que o Deus Altíssimo domina sobre os reinos dos homens e tem poder para os entregar a quem bem lhe parece. 22Porém Vossa Majestade, que é filho dele, não se mostrou submisso embora soubesse tudo isto. 23Vossa Majestade ofendeu o Senhor do céu, ao mandar vir os copos e taças que eram do seu templo. Com os seus nobres e as suas mulheres e concubinas, bebeu vinho por eles, cantando louvores aos deuses feitos de ouro, prata, bronze, ferro, madeira e pedra, deuses que não podem ver nem ouvir e que nada conhecem. Mas não prestou honra a Deus que lhe pode dar a vida ou a morte e que controla tudo o que Vossa Majestade faz. 24Por isso, Deus, por mão misteriosa, fez escrever estas palavras. 25A sua leitura é a seguinte: Mene, Mene, Tequel, Farsin5,25 Número, número, peso, divisões.. 26Ou seja: Mene: Deus contou os dias do vosso reinado e fê-los chegar ao fim. 27Tequel: Vossa Majestade foi pesado na balança e era leve demais. 28Farsin: o vosso reino foi dividido e dado aos medos e aos persas5,28 Em aramaico, a palavra persas é homófona da palavra divisão.

29Imediatamente, Baltasar deu ordens aos seus servos para que vestissem Daniel com um manto de púrpura real e lhe pusessem uma corrente de ouro ao pescoço. E fez dele a terceira pessoa mais poderosa do reino.

30Naquela mesma noite, Baltasar, o rei da Babilónia, foi morto.

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61Dario, o medo, sucedeu-lhe no trono com sessenta e dois anos de idade.

Daniel na cova dos leões

2Dario decidiu nomear cento e vinte sátrapas para administrar o seu império. 3E à frente deles colocou Daniel e mais dois outros superintendentes, para que os sátrapas lhes dessem contas e assim zelassem pelos interesses do rei. 4Daniel logo demonstrou capacidades de trabalho superiores aos outros dois e aos sátrapas. Com efeito, evidenciou-se de tal maneira que o rei pensou em o nomear responsável de todo o império. 5Então os outros superintendentes e sátrapas procuraram descobrir alguma deficiência na maneira como Daniel administrava o império, mas não conseguiram, porque Daniel era cumpridor e não fazia nada de mal nem era desonesto. 6Por isso, eles diziam entre si: «Não vamos conseguir encontrar nada para acusar Daniel, a não ser que descubramos algo relacionado com a sua religião.»

7Assim foram à presença do rei e disseram: «Que Vossa Majestade viva para sempre, ó rei Dario! 8Todos nós que administramos o vosso império, superintendentes, chefes, sátrapas, oficiais e governadores recomendamos que Vossa Majestade faça um decreto que entre imediatamente em vigor. Deem-se ordens para que, durante trinta dias, ninguém seja autorizado a requerer seja o que for dos deuses ou dos homens, exceto de Vossa Majestade. Quem violar este decreto será atirado para uma cova cheia de leões. 9Que este decreto seja imediatamente redigido, assinado por Vossa Majestade, para que não possa ser alterado e seja irrevogável, como lei dos medos e dos persas6,9 Ver Et 1,19; 8,8.10E assim, o rei Dario assinou e promulgou o decreto.

11Quando Daniel soube que aquele decreto tinha sido assinado, foi para casa. No andar superior, tinha uma janela voltada para Jerusalém6,11 Ver 1 Rs 8,44.48; Sl 5,8; 28,2; 138,2.. Como era seu costume, três vezes por dia6,11 Ver Sl 55,18., ajoelhou-se ali, de janela aberta, para orar a Deus. 12Os inimigos de Daniel apareceram de repente e descobriram que ele continuava a fazer oração ao seu Deus. 13Foram logo à presença do rei para acusar Daniel e disseram: «Vossa Majestade assinou um decreto para que nos próximos trinta dias, se alguém pedir seja o que for aos deuses ou aos homens, exceto a Vossa Majestade, seja atirado para uma cova cheia de leões!» O rei confirmou: «Sim! É um decreto que tem de ser cumprido, uma lei dos medos e dos persas, que não pode ser alterada.»

14Disseram então ao rei: «Daniel, um dos exilados de Judá, não tem respeito por Vossa Majestade e não obedece ao decreto. Ele faz a sua oração regularmente ao seu Deus, três vezes por dia.»

15Quando o rei ouviu estas palavras, ficou muito abatido e fez o possível para encontrar maneira de salvar Daniel. Até ao pôr do sol, não descansou para o livrar. 16Então os que tinham acusado Daniel voltaram à presença do rei e disseram: «Vossa Majestade sabe que, segundo as leis dos medos e dos persas, nenhum decreto promulgado pelo rei pode ser mudado.» 17Então o rei deu ordem para que Daniel fosse preso e lançado numa cova cheia de leões. Disse porém a Daniel: «Que o teu Deus, a quem tu serves tão fielmente, venha em teu socorro6,17 Ou: Espero que o teu Deus te salvará.

18Uma grande pedra foi colocada sobre a abertura da cova, selada com o selo do rei e com o dos seus nobres, para que ninguém pudesse socorrer a Daniel.

Daniel, são e salvo

19O rei voltou para o palácio e passou a noite sem dormir, recusando comida e quaisquer divertimentos.

20De madrugada, levantou-se e foi a correr para a cova dos leões. 21Mal lá chegou, chamou, cheio de ansiedade: «Daniel, servo do Deus vivo! Será que o Deus a quem tu serves tão fielmente te livrou realmente dos leões?»

22Daniel respondeu-lhe: «Viva Vossa Majestade para sempre! 23Deus enviou o seu anjo para fechar a boca dos leões, a fim de que não me fizessem mal. Ele sabia que eu estava inocente e que também não tinha feito nada contra Vossa Majestade.»

24O rei ficou cheio de alegria por causa de Daniel e imediatamente deu ordem para que este fosse retirado da cova. Quando o puxaram para fora verificaram que não tinha sido mordido, pois tinha confiado em Deus. 25Então o rei mandou prender aqueles que tinham acusado Daniel e mandou-os atirar, juntamente com as suas mulheres e filhos, para dentro da cova cheia de leões. Antes de chegarem ao fundo, já os leões se tinham apoderado deles e despedaçado os seus ossos.

26Depois o rei Dario enviou aos povos de todas as nações, raças e línguas da terra a seguinte mensagem:

«Desejo-vos paz e prosperidade!

27Ordeno e mando, que todos os súbditos do meu império temam e respeitem o Deus de Daniel.

Pois, ele é um Deus vivo

que subsistirá para sempre.

O seu reino nunca será destruído

e o seu domínio não terá fim.

28Ele salva e socorre;

faz maravilhas e milagres,

tanto no céu como na terra.

Foi ele que salvou Daniel

de ser morto pelos leões.»

29E Daniel prosperou durante o reinado de Dario e, depois, durante o de Ciro, rei dos persas6,29 Ver Ed 1,1.

7

Primeira visão de Daniel: os quatro animais

71No primeiro ano do reinado de Baltasar, rei da Babilónia, Daniel teve um sonho, uma visão durante a noite. Escreveu o que viu no sonho e este é o seu relato: 2«Nessa noite, tive um sonho, uma visão noturna. Os quatro ventos sopravam de todas as direções e fustigavam a superfície do mar imenso. 3Quatro animais enormes saíram do mar7,3 Ver Ap 13,1; 17,8., sendo cada um diferente dos outros. 4O primeiro parecia um leão, mas tinha asas como as da águia. Enquanto eu olhava, as asas foram arrancadas. Fizeram levantar o animal e pôr-se de pé, como se fosse um homem. Em seguida deram-lhe entendimento humano. 5O segundo animal era parecido com um urso e estava de pé sobre as patas traseiras. Tinha três costelas entre os dentes e uma voz ordenou-lhe: “Vai, come carne com abundância!” 6Depois enquanto eu olhava, apareceu outro animal. Parecia-se com um leopardo, mas no dorso tinha quatro asas, como as asas duma ave, e tinha quatro cabeças. E a este foi dada a autoridade7,6 Ver Ap 13,2.. 7Continuei a olhar e um quarto animal apareceu. Aparentava grande força, era horrível e metia medo. Triturava as suas vítimas com os enormes dentes de ferro e o resto pisava-o com as patas. Era diferente dos outros animais anteriores e tinha dez chifres7,7 Ver Ap 12,3; 13,1.. 8Enquanto eu observava aqueles chifres, vi um outro chifre pequeno surgir dentre os primeiros e partir três deles. Este chifre tinha olhos humanos e uma boca que falava com arrogância7,8 Ver Ap 13,5–6.

O julgamento de Deus

9«Eu continuava a olhar e foram preparados tronos. Um ancião7,9 A expressão traduzida aqui por ancião designa o próprio Deus. Ver Ap 1,14; 20,4. de longa idade sentou-se num dos tronos. A sua roupa era branca como a neve e o seu cabelo, branco como a lã pura. O seu trono assentava em rodas de fogo e estava como que em brasa 10e dele saía uma torrente de fogo. Estava rodeado de milhares ou milhões de pessoas que o serviam e se mantinham continuamente às suas ordens. O tribunal iniciou os trabalhos e os livros foram abertos7,10 Ver Ap 5,11; 20,12..

11Enquanto olhava, não deixava de ouvir o pequeno chifre que gesticulava e falava de modo arrogante. Então o quarto animal foi morto e o seu corpo foi atirado ao fogo e destruído. 12Em seguida, foi retirado o poder aos outros animais que, no entanto, continuaram vivos por mais algum tempo.

13Continuei a olhar, durante essa visão noturna, e vi algo semelhante a um ser humano. Aproximou-se de mim, rodeado de nuvens7,13 Ver Mt 24,30; 26,64; Mc 13,26; 14,62; Lc 21,27; Ap 1,7.13; 14,14., e dirigiu-se ao ancião de longa idade e foi-lhe apresentado. 14A ele foi dada autoridade, honra e poder real, de maneira que os povos de todas as nações, raças e línguas lhe ficaram sujeitos. A sua autoridade devia durar para sempre e o seu reino não seria destruído7,14 Ver Ap 11,15.

Explicação da primeira visão

15«Eu, Daniel, fiquei muito alarmado e profundamente perturbado, com as visões que tive. 16Dirigi-me então a um daqueles que estavam ali de pé e pedi-lhe que me explicasse o que se passava. E ele deu-me esta explicação: 17“Estes quatro animais enormes representam quatro impérios7,17 Ver 2,40., que hão de surgir sobre a terra. 18Mas depois, os santos do Altíssimo receberão poder soberano que nunca mais lhes será retirado, por toda a eternidade7,18 Ver Ap 22,5..”

19Quis então saber mais sobre o que significava o quarto animal, que não era semelhante aos outros, aquele animal que metia um medo terrível e que despedaçava as suas vítimas com garras de bronze e dentes de ferro e, depois, pisava o resto com as patas. 20Quis saber qual o significado dos dez chifres sobre a sua cabeça e do chifre que surgira depois, provocando a queda de três dos outros chifres. Este chifre tinha olhos e boca; falava com arrogância e parecia maior do que todos os outros.

21Estando eu a olhar, esse chifre fez guerra aos santos e estava mesmo a vencê-los7,21 Ver Ap 13,7.. 22O ancião de longa idade entrou em ação e pronunciou uma sentença a favor dos santos do Altíssimo7,22 Ver Ap 20,4.. Chegou então o momento de os santos receberem o reino.

23Esta é a explicação que me foi dada: “O quarto animal representa um quarto império que dominará a terra e será diferente dos outros impérios. Ele vai devorar toda a terra; vai pisá-la aos pés e esmagá-la. 24Os dez chifres representam os dez reinos que dominarão sobre o império7,24 Ver Ap 17,12.. A seguir surgirá outro rei; ele será muito diferente dos anteriores e destronará três reis. 25Este há de insultar o Altíssimo e oprimirá os seus santos. E há de tentar mudar as suas leis religiosas e os seus dias de festa; e os santos ficarão nas mãos deste império, durante três anos e meio7,25 Ver Dn 12,7; Ap 12,14; 13,5–6.. 26Então o tribunal do céu vai reunir-se para o julgamento; vai retirar o poder a esse império e destruí-lo por completo e para sempre.

27E assim a soberania, o poder e a grandeza de todos os reinos da terra serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo. Esse será para sempre e todos os governantes da terra o hão de servir e lhe obedecerão7,27 Ver Ap 20,4; 22,5..”

28Assim termina a explicação da visão. Eu, Daniel, fiquei tão cheio de medo que o meu rosto empalideceu. E guardei todas estas coisas sem as revelar a ninguém.»