a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Primeira visão de Daniel: os quatro animais

71No primeiro ano do reinado de Baltasar, rei da Babilónia, Daniel teve um sonho, uma visão durante a noite. Escreveu o que viu no sonho e este é o seu relato: 2«Nessa noite, tive um sonho, uma visão noturna. Os quatro ventos sopravam de todas as direções e fustigavam a superfície do mar imenso. 3Quatro animais enormes saíram do mar7,3 Ver Ap 13,1; 17,8., sendo cada um diferente dos outros. 4O primeiro parecia um leão, mas tinha asas como as da águia. Enquanto eu olhava, as asas foram arrancadas. Fizeram levantar o animal e pôr-se de pé, como se fosse um homem. Em seguida deram-lhe entendimento humano. 5O segundo animal era parecido com um urso e estava de pé sobre as patas traseiras. Tinha três costelas entre os dentes e uma voz ordenou-lhe: “Vai, come carne com abundância!” 6Depois enquanto eu olhava, apareceu outro animal. Parecia-se com um leopardo, mas no dorso tinha quatro asas, como as asas duma ave, e tinha quatro cabeças. E a este foi dada a autoridade7,6 Ver Ap 13,2.. 7Continuei a olhar e um quarto animal apareceu. Aparentava grande força, era horrível e metia medo. Triturava as suas vítimas com os enormes dentes de ferro e o resto pisava-o com as patas. Era diferente dos outros animais anteriores e tinha dez chifres7,7 Ver Ap 12,3; 13,1.. 8Enquanto eu observava aqueles chifres, vi um outro chifre pequeno surgir dentre os primeiros e partir três deles. Este chifre tinha olhos humanos e uma boca que falava com arrogância7,8 Ver Ap 13,5–6.

O julgamento de Deus

9«Eu continuava a olhar e foram preparados tronos. Um ancião7,9 A expressão traduzida aqui por ancião designa o próprio Deus. Ver Ap 1,14; 20,4. de longa idade sentou-se num dos tronos. A sua roupa era branca como a neve e o seu cabelo, branco como a lã pura. O seu trono assentava em rodas de fogo e estava como que em brasa 10e dele saía uma torrente de fogo. Estava rodeado de milhares ou milhões de pessoas que o serviam e se mantinham continuamente às suas ordens. O tribunal iniciou os trabalhos e os livros foram abertos7,10 Ver Ap 5,11; 20,12..

11Enquanto olhava, não deixava de ouvir o pequeno chifre que gesticulava e falava de modo arrogante. Então o quarto animal foi morto e o seu corpo foi atirado ao fogo e destruído. 12Em seguida, foi retirado o poder aos outros animais que, no entanto, continuaram vivos por mais algum tempo.

13Continuei a olhar, durante essa visão noturna, e vi algo semelhante a um ser humano. Aproximou-se de mim, rodeado de nuvens7,13 Ver Mt 24,30; 26,64; Mc 13,26; 14,62; Lc 21,27; Ap 1,7.13; 14,14., e dirigiu-se ao ancião de longa idade e foi-lhe apresentado. 14A ele foi dada autoridade, honra e poder real, de maneira que os povos de todas as nações, raças e línguas lhe ficaram sujeitos. A sua autoridade devia durar para sempre e o seu reino não seria destruído7,14 Ver Ap 11,15.

Explicação da primeira visão

15«Eu, Daniel, fiquei muito alarmado e profundamente perturbado, com as visões que tive. 16Dirigi-me então a um daqueles que estavam ali de pé e pedi-lhe que me explicasse o que se passava. E ele deu-me esta explicação: 17“Estes quatro animais enormes representam quatro impérios7,17 Ver 2,40., que hão de surgir sobre a terra. 18Mas depois, os santos do Altíssimo receberão poder soberano que nunca mais lhes será retirado, por toda a eternidade7,18 Ver Ap 22,5..”

19Quis então saber mais sobre o que significava o quarto animal, que não era semelhante aos outros, aquele animal que metia um medo terrível e que despedaçava as suas vítimas com garras de bronze e dentes de ferro e, depois, pisava o resto com as patas. 20Quis saber qual o significado dos dez chifres sobre a sua cabeça e do chifre que surgira depois, provocando a queda de três dos outros chifres. Este chifre tinha olhos e boca; falava com arrogância e parecia maior do que todos os outros.

21Estando eu a olhar, esse chifre fez guerra aos santos e estava mesmo a vencê-los7,21 Ver Ap 13,7.. 22O ancião de longa idade entrou em ação e pronunciou uma sentença a favor dos santos do Altíssimo7,22 Ver Ap 20,4.. Chegou então o momento de os santos receberem o reino.

23Esta é a explicação que me foi dada: “O quarto animal representa um quarto império que dominará a terra e será diferente dos outros impérios. Ele vai devorar toda a terra; vai pisá-la aos pés e esmagá-la. 24Os dez chifres representam os dez reinos que dominarão sobre o império7,24 Ver Ap 17,12.. A seguir surgirá outro rei; ele será muito diferente dos anteriores e destronará três reis. 25Este há de insultar o Altíssimo e oprimirá os seus santos. E há de tentar mudar as suas leis religiosas e os seus dias de festa; e os santos ficarão nas mãos deste império, durante três anos e meio7,25 Ver Dn 12,7; Ap 12,14; 13,5–6.. 26Então o tribunal do céu vai reunir-se para o julgamento; vai retirar o poder a esse império e destruí-lo por completo e para sempre.

27E assim a soberania, o poder e a grandeza de todos os reinos da terra serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo. Esse será para sempre e todos os governantes da terra o hão de servir e lhe obedecerão7,27 Ver Ap 20,4; 22,5..”

28Assim termina a explicação da visão. Eu, Daniel, fiquei tão cheio de medo que o meu rosto empalideceu. E guardei todas estas coisas sem as revelar a ninguém.»

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Segunda visão: o carneiro e o bode

81«No terceiro ano do reinado de Baltasar8,1 A partir de 8,1 o texto original encontra-se novamente em hebraico. Ver nota a 2,4., eu, Daniel, tive uma segunda visão, depois daquela que tinha acontecido anteriormente. 2E o que vi foi o seguinte: eu encontrava-me na cidade fortificada de Susa, na província de Elam; estava em pé, na margem do rio Ulai. 3Olhei para a margem do rio e vi um carneiro que estava ali de pé com dois chifres compridos, e o último a nascer era o mais comprido dos dois8,3 Dois chifres de carneiro. Simbolizam os impérios meda e persa.. 4O carneiro dava marradas para ocidente, para o norte e para o sul. Nenhum animal podia detê-lo nem fugir ao seu domínio. Fazia o que lhe aprazia e crescia em arrogância.

5Enquanto eu procurava entender o significado disto, surgiu um bode do ocidente, a correr com tanta velocidade que os pés não tocavam no chão. Ele tinha um chifre proeminente entre os olhos8,5 Bode. Simboliza o reino grego sob Alexandre Magno.. 6Dirigiu-se para o carneiro com os dois chifres, que eu vira à beira do rio, e precipitou-se sobre ele com toda a força. 7Vi-o atacar o carneiro. Estava tão furioso que arremeteu contra ele, partindo-lhe logo os dois chifres. O carneiro era incapaz de lhe resistir, pelo que foi atirado ao chão e pisado. E não houve ninguém para o socorrer. 8O bode tornou-se cada vez mais arrogante; porém no auge da sua força, o chifre partiu-se. Em seu lugar, surgiram quatro chifres proeminentes, cada um apontando em direção aos quatro pontos cardeais8,8 Após a morte de Alexandre, com a idade de 33 anos, sucederam-lhe quatro generais..

9De um destes chifres cresceu um outro chifre pequeno, cujo poder se estendia para o sul, para o oriente, e em direção à terra querida8,9 Terra querida. Referência evidente à terra de Israel.. 10Tornou-se tão poderoso que podia atacar o exército do céu, as próprias estrelas8,10 Ver Ap 12,4.. Com efeito atirou algumas delas para o chão e pisou-as. 11Até desafiou o comandante do exército do céu, acabando com as ofertas diárias8,11 Sobre estas ofertas diárias, ver Ex 29,38–42; Nm 28,3–8. que lhe eram oferecidas e destruiu o santuário. 12O povo pecava por não apresentar as ofertas diárias devidas; a religião verdadeira estava por terra. Aquele chifre apresentava-se cada vez mais vitorioso8,12 Texto hebraico de difícil compreensão..

13Então ouvi um santo perguntar ao outro: “Estas coisas que vi em visão, por quanto tempo vão continuar? Por quanto tempo este horrível pecado substituirá as ofertas diárias? Por quanto tempo será espezinhado o exército do céu e o santuário?” 14Ouvi o outro santo responder: “Assim será por duas mil e trezentas tardes e manhãs. Depois o santuário será purificado.”»

O anjo Gabriel explica a visão

15«Procurava eu, Daniel, descobrir o significado daquela visão, quando subitamente alguém apareceu diante de mim. 16Ouvi uma voz que chamava das bandas do rio Ulai: “Gabriel, explica-lhe o significado do que ele viu.” 17Quando Gabriel se aproximou de mim, fiquei cheio de medo e caí no chão. Ele disse-me: “Procura compreender, ó homem, o significado daquilo que viste. A visão diz respeito ao fim dos tempos.” 18Enquanto ele falava comigo, adormeci profundamente com o meu rosto voltado para o chão. Mas ele segurou-me e pôs-me de pé outra vez, 19dizendo: “Vou-te mostrar as consequências da ira de Deus. A visão refere-se ao fim dos tempos. 20O carneiro que tu viste, e que tinha dois chifres, representa os reinos da Média e da Pérsia. 21O bode simboliza o reino da Grécia e o chifre proeminente entre os seus olhos representa o seu primeiro rei. 22Os quatro chifres que apareceram, quando o primeiro foi quebrado, representam os quatro reinos em que essa nação será dividida e que não serão tão fortes como o primeiro reino. 23Quando se aproximar o fim desses reinos, e a sua maldade for tão grande que devam ser castigados, surgirá um rei tirano e astuto. 24Será poderoso à custa dos outros. Sairá vitorioso em todos os seus empreendimentos e estará na origem da terrível destruição de nações poderosas e do próprio povo dos santos. 25Pela sua habilidade, terá êxito e enganará a muitos. Será cheio de orgulho e matará muita gente, sem ser provocado. Chegará mesmo a desafiar o Príncipe dos príncipes, mas será morto sem nenhuma intervenção humana. 26A visão acerca dos sacrifícios da tarde e da manhã foi-te explicada e será cumprida. Contudo, por agora, guarda-a em segredo, porque ainda falta muito tempo até que se torne realidade.”

27Fiquei deprimido e doente durante vários dias, findos os quais me levantei e voltei para o trabalho que o rei me dera a fazer, não sem ficar intrigado com a visão, cujo significado eu não compreendia.»

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Daniel ora pelo seu povo

91«Dario, filho de Xerxes, da dinastia dos medos, foi reis dos caldeus. 2No primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, pus-me a estudar os livros sagrados e a meditar nos setenta anos, durante os quais Jerusalém ficaria em ruínas, segundo aquilo que o Senhor comunicou ao profeta Jeremias. 3Então jejuei, vesti roupas grosseiras e sentei-me na cinza, em sinal de penitência, orando e suplicando com fervor ao Senhor Deus. 4Orei ao Senhor, meu Deus, e confessei os pecados do meu povo dizendo:

“Senhor Deus, tu és grande e infundes respeito. Tu cumpriste a aliança que fizeste e mostraste constante amor para com os que te amam e obedecem aos teus mandamentos. 5Pecámos, procedemos mal, fomos culpados. Rejeitámos as tuas ordens e afastámo-nos dos caminhos direitos que nos mostraste. 6Não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que falaram em teu nome aos nossos reis e governantes, aos nossos antepassados e a toda a nação, em geral. 7Tu, Senhor, és justo! Mas nós que vivíamos na Judeia e em Jerusalém, nós os israelitas que espalhaste pelos países vizinhos e longínquos, estamos ainda hoje cheios de vergonha por causa da nossa infidelidade para contigo.

8Sim, ó Senhor! Estamos cheios de vergonha! Nós, os nossos reis e governantes e os nossos antepassados. Procedemos vergonhosamente e pecámos contra ti! 9Mas o Senhor nosso Deus é compassivo e quer perdoar, embora nos tenhamos revoltado contra ele. 10Não te demos ouvidos, Senhor, nosso Deus, quando nos mandaste viver segundo as leis que nos deste, por meio dos teus servos, os profetas. 11Todo o povo de Israel transgrediu as tuas leis e recusou dar ouvidos ao que disseste. Pecámos contra ti, e por isso fizeste cair sobre nós as maldições mencionadas na Lei de Moisés9,11 Ver Lv 26,14–39; Dt 28,15–68., teu servo. 12Cumpriste as tuas ameaças contra nós e contra os nossos governantes. Eles contribuíram para que esta desgraça caísse sobre nós. Castigaste Jerusalém mais do que qualquer outra cidade do mundo, 13fazendo-nos sofrer o castigo escrito na Lei de Moisés. Tudo isto caiu sobre nós. E mesmo agora, Senhor, nosso Deus, não procurámos agradar-te, arrependendo-nos dos nossos pecados e seguindo a tua verdade. 14Tu, Senhor nosso Deus, estavas pronto a castigar-nos e castigaste-nos realmente, porque sempre procedes com justiça e nós não te demos ouvidos.

15Ó Senhor, nosso Deus, tu mostraste o teu poder, quando tiraste o teu povo para fora do Egito. Sim, ainda hoje nos lembramos desse teu poder. Mas pecámos e fizemos mal. 16Ó Senhor, nós sabemos que tu és justo! Não te zangues mais com Jerusalém, que é a tua cidade, o teu monte santo. Os habitantes das terras vizinhas desprezam agora Jerusalém e o teu povo, por causa dos nossos pecados e do mal que os nossos antepassados fizeram. 17Ó Deus, ouve a oração e a súplica deste teu servo. Por favor! Olha com bondade para o teu templo, que foi destruído! 18Meu Deus, ouve-nos; olha para nós e repara na nossa aflição e no sofrimento por que está a passar a cidade que te pertence. Fazemos-te este pedido, porque tu és um Deus de misericórdia, não porque tenhamos procedido bem. 19Senhor, ouve-nos! Senhor, perdoa-nos! Senhor, escuta-nos e faz alguma coisa. Para que toda a gente saiba que tu és Deus. Não te demores, pois esta cidade e este povo são teus.”»

Interpretação da profecia de Jeremias

20«Continuei a orar, confessando os meus pecados e os pecados do meu povo, Israel, e intercedendo junto do Senhor, meu Deus, a favor do seu santo monte9,20 A colina do templo de Jerusalém.. 21Enquanto eu assim orava, o anjo Gabriel, que eu vira na visão anterior, desceu voando até onde me encontrava, à hora da oferta da tarde, 22e, em jeito de explicação disse-me:

“Daniel, eu vim para te ajudar a compreender a profecia. 23Quando começaste a dirigir a Deus a tua súplica, ele decidiu responder-te. Ele ama-te e eu vim para te dar a resposta. Presta pois atenção ao que te vou explicar sobre a visão.

24Setenta semanas9,24 O termo semana figura aqui não como um período de sete dias, mas de anos. é o espaço de tempo que Deus determinou para libertar o teu povo e a tua cidade santa do pecado e do mal, para que os pecados sejam perdoados e reine a justiça para sempre, para que a visão e a profecia se cumpram e o santuário seja de novo consagrado. 25Toma nota e compreende o seguinte: desde o momento em que foi pronunciada a mensagem sobre o fim do exílio e a reconstrução de Jerusalém, até que venha um chefe que Deus escolheu, passarão sete semanas9,25 Para comparar com a mensagem de Jeremias, ver Jr 25,11–12; 29,10.. Jerusalém será reconstruída, tanto as ruas como as muralhas, e ficará de pé durante sessenta e duas semanas; todavia, este será um tempo cheio de dificuldades. 26Depois das sessenta e duas semanas, alguém escolhido de Deus será morto, embora inocente. A cidade e o templo serão destruídos por um exército invasor, comandado por um chefe poderoso. O fim virá, qual enxurrada, trazendo consigo a guerra e a destruição, conforme foi decidido por Deus. 27Esse chefe fará um acordo, durante uma semana, com muitos dentre o povo; e durante meia semana, ele fará com que os sacrifícios e as ofertas terminem. O ídolo abominável9,27 Trata-se de uma imagem pagã colocada em Jerusalém pelos invasores. será colocado na parte mais elevada do templo, onde permanecerá, até que aquele que o colocou lá tenha o fim que Deus lhe destinou.”»