a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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31E a mesma voz disse-me: «Homem, come esse rolo que aí tens e vai em seguida falar ao povo de Israel.»

2Então abri a boca e ele deu-me o rolo a comer 3e disse: «Homem3,3 Literalmente: Filho do Homem., come esse rolo que te dou; enche com ele o teu estômago.» Comi-o e era doce como mel. 4Deus disse-me ainda: «Vai ter com o povo de Israel e transmite-lhe o que te vou dizer. 5Não te estou a enviar a nenhuma nação que fale uma língua estranha e difícil. Envio-te aos habitantes de Israel. 6Se te enviasse às grandes nações que falam línguas estranhas e difíceis, que não percebes, esses dar-te-iam ouvidos. 7Mas ninguém de Israel vai querer dar-te ouvidos; pois nem mesmo a mim querem ouvir. Tornaram-se gente de cabeça dura e coração empedernido. 8Vou agora fazer com que fiques duro como eles, com a cabeça dura para os enfrentares. 9Serás como um rochedo, duro como um diamante. Não tenhas medo daqueles rebeldes!»

10Deus prosseguiu: «Homem, presta atenção e lembra-te de tudo o que te vou dizer. 11Vai ter com os teus compatriotas, que estão no exílio, e comunica-lhes o que eu, o Senhor Deus, lhes mando dizer, quer queiram ouvir, quer não.»

12Então o Espírito de Deus ergueu-me, e atrás de mim ouvi ressoar esta aclamação: «Bendito seja o Senhor, no lugar onde manifesta a sua gloriosa presença!» 13Ouvi as asas daqueles seres vivos, a baterem umas nas outras e o ruído das rodas a avançar, como se fosse um tremor de terra. 14O espírito apoderou-se então de mim e levou-me. Senti amargura e indignação. Mas o Senhor segurou-me com a sua mão. 15Dirigi-me em seguida a Tel-Avive, que fica à beira do canal Quebar, onde moravam os exilados, e ali permaneci durante sete dias, desolado.

Ezequiel, sentinela no meio do povo

16Decorridos os sete dias, o Senhor dirigiu-me a seguinte mensagem: 17«Ezequiel, vou colocar-te como sentinela do povo de Israel. Vais transmitir-lhes os avisos que eu te der. 18Se eu te disser que alguém deve morrer, por causa da sua maldade, e tu não o prevenires, para que mude de comportamento e salve a vida, ele morrerá, porque é pecador, e tu serás responsável pela sua morte. 19Porém se avisares esse homem mau e ele não deixar o seu mau caminho, esse tal morrerá, porque é pecador, mas a tua vida será poupada.

20Se um homem justo começar a praticar o mal, vou preparar-lhe uma armadilha e ele morrerá se não o prevenires. Morrerá por causa dos seus pecados, não será tomado em consideração o bem que tinha feito e tu serás responsável pela sua morte. 21Porém se avisares o homem justo para que não peque; se ele te der ouvidos e não pecar, viverá e a tua vida será igualmente poupada.»

Deus impõe um período de silêncio a Ezequiel

22O Senhor segurou-me de novo com a sua mão disse-me: «Levanta-te e vai para o vale. Ali te falarei.»

23Fui então para o vale e ali o Senhor me manifestou a sua presença gloriosa, tal como acontecera antes, junto ao canal Quebar. Inclinei-me com o rosto por terra, 24mas o Espírito de Deus entrou em mim e ajudou-me a ficar de pé. O Senhor disse-me: «Vai para casa e fecha-te lá dentro. 25Tu, homem, serás amarrado com cordas e não poderás sair para a rua. 26Paralisarei a tua língua e ficarás mudo, de maneira que não poderás continuar a avisar esse povo rebelde. 27E quando eu te falar outra vez e te restituir a fala, então lhes comunicarás o que eu, o Senhor Deus, disse. Alguns vão dar ouvidos, mas outros não quererão saber, porque são um povo rebelde.»

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Anúncio do cerco de Jerusalém

41Deus disse: «Homem4,1 Ver nota a 2,1., pega num tijolo, põe-no diante de ti e desenha nele uma cidade, que é Jerusalém. 2Em seguida, desenha trincheiras, baluartes, rampas, acampamentos e aríetes à volta da cidade, representando um cerco. 3Pega numa frigideira de ferro e põe-na entre ti e a cidade, como se fosse um muro de ferro. Põe-te diante da cidade, como se a estivesses a cercar. Isso será um sinal para o povo de Israel. 4Em seguida, deita-te sobre o teu lado esquerdo e toma sobre ti o pecado de Israel; carregarás com a sua iniquidade durante o tempo que assim permaneceres. 5Porque decidi que cada ano em que os israelitas cometeram a iniquidade corresponderia a um dia. Serão para ti trezentos e noventa dias4,5 Possivelmente o número de anos entre a divisão do reino de Salomão (1 Rs 12,19) e a tomada de Jerusalém (cerca de 587 a.C.)., durante os quais deverás sofrer por causa da iniquidade do povo de Israel.

6Quando terminares esses dias, volta-te então para o lado direito, suportando durante quarenta dias4,6 O número quarenta simboliza, por vezes, um período de tempo de prova, como por exemplo os quarenta dias do dilúvio ou os quarenta anos do Êxodo. o castigo pela iniquidade de Judá; um dia equivalerá a um ano de castigo.

7Fixa os teus olhos no cerco de Jerusalém. Levanta o teu braço para a cidade e profetiza contra ela. 8Vou amarrar-te com cordas, para que não te possas virar de um lado para o outro, durante o tempo em que tens de ficar imobilizado.

9Agora recolhe trigo, cevada, favas, lentilhas, milho miúdo e aveia. Amassa-os todos num recipiente e faz um pão com eles. É isso que vais comer durante os trezentos e noventa dias que ficares deitado sobre o teu lado esquerdo. 10A tua ração será de duzentos e trinta gramas de pão por dia e deverá bastar-te até ao dia seguinte. 11A tua ração de água será de cerca de um litro por dia. 12Terás de fazer uma fogueira com excrementos humanos4,12 Este combustível era considerado impuro, pelo que tornava os alimentos nele cozinhados igualmente impuros. secos e ali cozerás o pão, em forma de torta de cevada, e o comerás à vista de todos.»

13Disse o Senhor: «É dessa maneira que os israelitas terão de comer coisas proibidas pela lei, quando os espalhar pelos países estrangeiros.»

14Porém eu respondi: «Ó Senhor Deus, eu nunca toquei nada de impuro. Desde criança, que não como carne de um animal morto de morte natural, ou que fosse morto por animais selvagens4,14 Era proibido comer um animal cujo sangue não lhe tivesse sido retirado. Ver Lv 17,15; Dt 14,21.. Nunca comi carne que fosse considerada impura.»

15Então Deus disse-me: «Pois bem, então vou deixar-te usar estrume de boi em vez de excrementos humanos e poderás cozer nele o teu pão.» 16E acrescentou: «Vou acabar com as reservas de pão de Jerusalém. O povo ficará angustiado e terá que racionar severamente as reservas de comida e de água potável. 17Ficarão sem pão e sem água; ficarão desesperados e morrerão; tudo por causa dos seus pecados.»

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O destino da nação

51Disse o Senhor: «Ezequiel5,1 Ver nota a 2,1., pega numa espada afiada como a navalha do barbeiro. Corta a barba, rapa o cabelo5,1 Era costume fazer a barba aos prisioneiros (ver Is 7,20). Este gesto indica que os habitantes de Jerusalém vão ser levados para o exílio. e, em seguida, pesa o cabelo na balança e divide-o em três partes. 2Queima uma terça parte dentro da cidade, quando terminar o cerco. Pega noutra terça parte e corta-a com a espada, enquanto dás a volta à cidade. Deixa que o vento espalhe o restante que eu hei de persegui-lo com a minha espada. 3Guarda ainda um pouco de cabelo e mete-o na dobra da tua capa. 4E desse cabelo que tu guardaste, pega num pouco e deita-o ao fogo, para que arda. O fogo que dele vai sair há de espalhar-se por toda a nação de Israel.»

5Pois o Senhor Deus declara o seguinte: «Isto representa Jerusalém. Eu coloquei-a no centro do mundo, com os outros países à sua volta. 6Mas Jerusalém revoltou-se contra os meus mandamentos e mostrou ser pior do que as outras nações, mais desobediente às minhas leis do que os países vizinhos. Jerusalém rejeitou os meus mandamentos e recusou-se a guardar as minhas leis. 7Ouve, pois, ó Jerusalém, o que eu, o Senhor Deus, te vou dizer! Mostraste-te mais rebelde do que os países que te rodeiam. Não obedeceste às minhas leis nem guardaste os meus mandamentos. Nem sequer seguiste os costumes dos outros povos5,7 Alguns manuscritos hebraicos dizem: Seguiste o costume dos outros povos.. 8Por isso, eu, o Senhor Deus, me declaro teu inimigo. As minhas sentenças cairão sobre ti, de maneira que as outras nações sejam testemunhas. 9Por causa de todas as coisas abomináveis que fazes, vou-te castigar, ó Jerusalém, como nunca o fiz nem voltarei mais a fazer. 10Por isso, os pais que moram em Jerusalém hão de comer os seus próprios filhos, e as crianças comerão os seus pais5,10 Literalmente: a fome será tal que chegarão a comer carne humana. Outros preferem ver no texto uma imagem dos conflitos que separarão os próprios membros de família. Ver Mq 7,6; Mt 10,35–36.. Castigar-te-ei e espalharei aos quatro ventos os que sobreviverem.

11Por isso, tão certo como eu sou o Deus vivo e porque profanaste o meu templo com os teus ídolos e outras coisas abomináveis5,11 Ver os cap. 6 e 8., vou matar-te sem misericórdia. 12Uma terça parte dos teus habitantes morrerá de doença e fome na própria cidade; um terço cairá morto à espada, fora da cidade; e espalharei os restantes aos quatro ventos. E hei de persegui-los à espada. 13Assim se completará a minha ira, a minha indignação e vingança contra eles. Ficarão a saber que eu, o Senhor, os avisei porque estou ofendido com a sua infidelidade. 14As outras nações e todos quantos passarem perto de ti hão de ver como ficaste arruinada e desprezível.

15Quando executar a minha sentença contra ti, com indignação e furor, as nações que te rodeiam olharão para ti com desprezo e farão troça de ti. Mas ficarão igualmente aterrorizadas, porque isto é um aviso para elas. 16Farei com que te falte a comida para que fiques com fome. Sentirás os apertos da fome como flechas afiadas que atirarei para te destruir e fazer morrer de fome. 17Enviarei fome e animais selvagens para matar os teus filhos; enviarei a doença, a violência e a guerra para te matarem. Sou eu, o Senhor, quem o declara!»