a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
16

Agar e o seu filho Ismael

161Sarai, mulher de Abrão, não lhe tinha dado nenhum filho. Ora ela tinha uma escrava egípcia, chamada Agar. 2Então Sarai disse a Abrão: «O Senhor não me deu a possibilidade de ter filhos. Mas talvez a minha escrava te possa dar algum filho por mim16,2 A proposta de Sara integra-se na prática das sociedades antigas. Comparar com 30,1–13. O mesmo costume é testemunhado no direito mesopotâmico, nomeadamente no Código de Hamurabi, rei da Babilónia..» Abrão concordou com a proposta de Sarai. 3E assim, dez anos depois de estarem já a viver em Canaã, Sarai mulher de Abrão deu a sua escrava Agar a Abrão como segunda mulher. 4Abrão teve relações com Agar e ela ficou grávida. Ora, ao saber que estava grávida, começou a olhar com desprezo a sua senhora.

5Sarai disse então a Abrão: «Eu pus a minha escrava nos teus braços e agora que viu que está grávida já me olha com desprezo. Isto é uma injustiça para comigo e tu também és responsável. Que o Senhor seja o juiz nesta questão entre mim e ti!» 6Abrão respondeu a Sarai: «Ela continua ainda a ser a tua escrava. Faz dela aquilo que melhor te parecer.» E Sarai começou a humilhá-la de tal maneira que ela teve de fugir.

7O anjo do Senhor16,7 O anjo do Senhor. Esta expressão serve por vezes para indicar uma intervenção do próprio Deus. Ver Gn 21,17; Ex 3,2.4; Mt 1,20. encontrou-a junto de uma fonte, no deserto, precisamente a fonte que está no caminho para Chur, 8e perguntou-lhe: «Agar, escrava de Sarai, de onde vens e para onde vais?» Ela respondeu: «Fugi de casa de Sarai, a minha senhora.» 9Mas o anjo do Senhor retorquiu: «Volta para a tua senhora e obedece-lhe.» 10E acrescentou ainda: «hei de tornar os teus descendentes tão numerosos que ninguém os poderá contar.» 11O anjo do Senhor declarou-lhe ainda:

«Tu estás grávida e vais dar à luz um filho;

hás de chamar-lhe Ismael,

porque o Senhor prestou atenção16,11 Ismael significa, em hebraico, “Deus escuta”. ao teu sofrimento.

12Será como um animal selvagem16,12 Os descendentes de Ismael são apresentados como nómadas, ciosos da sua vida livre e independente.,

sempre em luta com os outros e os outros em luta com ele.

Mas conseguirá viver na presença de todos os seus irmãos e vizinhos.»

13Agar exclamou: «Terei eu visto aquele que me vê a mim?» E disse ao Senhor, que tinha falado com ela: «Tu és o Deus que me vê!» 14Por isso, aquela nascente se ficou a chamar «Nascente de Lahai-Roi»16,14 Em hebraico Lahai-Roi significa “do Deus vivo que me vê”. e encontra-se entre Cadés e Béred.

15Agar deu à luz um filho e Abrão, seu pai, pôs-lhe o nome de Ismael. 16Abrão tinha oitenta e seis anos de idade, quando Agar deu à luz o seu filho Ismael.

17

A circuncisão como sinal da aliança

171Quando Abrão tinha noventa e nove anos de idade, o Senhor apareceu-lhe e disse-lhe:

«Eu sou o Deus supremo17,1 Em hebraico, “El Chadai” poderia significar “Deus da montanha”.; cumpre a minha vontade com retidão.

2Eu vou estabelecer uma aliança contigo,

vou dar-te uma descendência muito numerosa.»

3Abrão inclinou-se profundamente e o Senhor continuou a falar com ele: 4«Em virtude da aliança que faço contigo, vais tornar-te pai de uma imensidão de povos. 5O teu nome não será Abrão, mas sim Abraão, porque vou fazer com que sejas pai de uma imensidão de povos17,5 Abraão tem em hebraico um som parecido ao da expressão “pai de uma multidão”. A mudança de nome significa frequentemente na Bíblia uma profunda mudança na vida da pessoa. Ver Rm 4,17..

6Vou dar-te uma enorme descendência; de ti hão de surgir vários povos e haverá reis entre os teus descendentes. 7Hei de manter firme a minha aliança contigo e com os teus futuros descendentes, como uma aliança eterna. Serei o teu Deus e o Deus dos teus descendentes. 8Vou dar-te a ti e a eles em propriedade, para sempre, a terra17,8 Ver 12,2 e nota. onde agora vives como estrangeiro, toda a terra de Canaã. E serei realmente Deus para eles.»

9Deus acrescentou ainda: «Mas tu, Abraão, deves também ser fiel à minha aliança, tu e os teus descendentes, para sempre. 10E a obrigação da aliança entre mim e ti e todos os teus descendentes é esta: devem fazer a circuncisão a todos os vossos homens17,10 Circuncisão. Para muitos povos antigos e atuais rito de iniciação ao matrimónio, é tida pelos hebreus como sinal de pertença a Deus; por isso, é feita oito dias após o nascimento. Ver ainda Gn 17,23–27; 34,14–17; Is 4,24–26; 12,48; At 7,8; Rm 4,11.. 11A carne do prepúcio será circuncidada e a circuncisão será o sinal da aliança entre mim e vós. 12Aos oito dias de idade, façam a circuncisão a todos os descendentes do sexo masculino, quer sejam filhos da família, quer sejam escravos adquiridos por dinheiro e descendam doutras raças diferentes da vossa. 13Tanto os nascidos em tua casa, como os que foram adquiridos por dinheiro têm de ser circuncidados. Este será para sempre o sinal da minha aliança no vosso corpo. 14E aquele que não tiver sido circuncidado deve ser eliminado do vosso povo, por não ter respeitado a minha aliança.»

Sara terá um filho

15Deus disse a Abraão: «A tua mulher já não continuará a chamar-se Sarai, mas Sara17,15 Apesar da mudança de nome, ambas as formas parecem significar “princesa”. Ver 17,5 e nota.. 16Hei de abençoá-la e farei com que ela tenha um filho teu. Ainda há de ser mãe de muitos povos e há de haver reis entre os seus descendentes.»

17Abraão inclinou-se e sorriu, pensando no seu íntimo: «Será que pode nascer um filho de um pai de cem anos? Será que Sara vai mesmo ter um filho aos noventa anos?» 18Então Abraão exclamou: «Oxalá tu conserves a vida a Ismael!» 19Mas Deus disse: «Sim, mas também a tua mulher Sara vai ter um filho teu e tu hás de dar-lhe o nome de Isaac17,19 Em hebraico, o nome Isaac evoca o verbo traduzido por “sorriu” no v. 17. Ver 18,12–15.. Eu hei de fazer aliança com ele e com os seus descendentes para sempre.

20Também quero responder ao teu pedido a favor de Ismael. Hei de abençoá-lo e dar-lhe uma descendência muito numerosa. Será pai de doze chefes e os seus descendentes formarão um grande povo. 21Mas a minha aliança será feita a favor de Isaac, o filho que Sara te vai dar, no próximo ano, por esta altura.» 22Depois de ter falado com Abraão, Deus afastou-se de junto dele.

23Naquele mesmo dia, cumprindo as ordens que recebera do Senhor, Abraão fez a circuncisão a todos os homens que se encontravam em sua casa, ao seu filho Ismael e a todos os nascidos em sua casa, bem como a todos os escravos que tinha adquirido por dinheiro.

24Abraão tinha noventa e nove anos de idade 25e Ismael tinha treze anos quando foram circuncidados. 26Naquele mesmo dia, receberam a circuncisão Abraão e o seu filho Ismael 27e ainda os restantes homens da casa de Abraão, tanto os nascidos em sua casa como os escravos estrangeiros que tinham sido adquiridos por dinheiro. Todos receberam como ele a circuncisão.

18

Deus promete de novo um filho a Abraão

181Um dia o Senhor apareceu a Abraão, quando ele estava sentado à porta da sua tenda, à hora do calor, junto dos carvalhos de Mambré. 2Abraão levantou os olhos e viu três personagens18,2 Nesta passagem fala-se ora de três homens (v. 2.16.22), ora do Senhor (v. 20.33), ora de dois anjos (19,1). É portanto, o Senhor (v. 1), acompanhado de dois anjos, que Abraão confunde inicialmente com três viajantes e recebe com a típica hospitalidade oriental. Comparar com Hb 13,2. que estavam diante dele. Da porta da sua tenda, onde estava, correu ao encontro deles, inclinou-se profundamente 3e exclamou: «Se o meu senhor me quer fazer um favor, fique um pouco em minha casa. 4Mandarei trazer água para lavarem os pés, para que possam descansar uns momentos à sombra das árvores. 5Já que passaram por casa deste vosso servo, vou buscar pão para recuperarem as forças, antes de continuarem a viagem.» E eles responderam: «Está bem. Pode ser como disseste.»

6Então Abraão correu para dentro da tenda e disse a Sara: «Depressa! Amassa três medidas da melhor farinha e faz alguns pães!» 7E ele correu para o seu gado e trouxe um vitelo novo e gordo e entregou-o a um criado que o cozinhou rapidamente. 8Depois serviu aos hóspedes o vitelo que tinha preparado, ofereceu-lhes ainda manteiga e leite. E ele próprio ficou à disposição junto deles, debaixo das árvores, enquanto eles comiam.

9Eles perguntaram-lhe: «Onde está a tua mulher, Sara?» E ele respondeu: «Está ali na tenda.» 10Então um deles disse: «Para o ano que vem voltarei a tua casa e, na devida altura, a tua mulher Sara terá um filho.» Ora Sara estava a ouvir a conversa à entrada da tenda, mesmo por trás de Abraão.

11Abraão e Sara eram bastante idosos e Sara já não estava em idade de ter filhos. 12Então Sara sorriu ao pensar para consigo mesma: «Como é que eu vou ainda sentir essa alegria, se eu e o meu marido estamos velhos e cansados?»

13O Senhor disse a Abraão: «Por que é que Sara sorriu, pensando que já não pode ter um filho nesta idade? 14Será que, para o Senhor, isso é uma coisa tão difícil18,14 Comparar com Jr 32,17.27; Jb 42,2; Mt 19,26; Lc 1,36–37; Hb 11,11–12.? Daqui a um ano voltarei a passar por tua casa e, no fim do tempo devido, a tua mulher terá dado à luz um filho.» 15Sara ficou com medo e negou que tivesse sorrido. Mas ele respondeu: «Sorriste, sim.»

Abraão intercede por Sodoma

16Os visitantes levantaram-se e preparavam-se para se dirigirem a Sodoma; Abraão foi caminhando com eles para se despedir. 17Então o Senhor disse para consigo: «Será que eu vou esconder a Abraão aquilo que pretendo fazer? 18De facto, Abraão vai ser o pai de um povo muito grande e poderoso e por ele serão abençoados todos os povos do mundo18,18 Ver 12,2 e nota.. 19Eu escolhi-o para ensinar aos seus filhos e descendentes a seguirem a vontade do seu Senhor, praticando o que é justo e honesto, para que as promessas que lhe fiz sejam mantidas e cumpridas.»

20Então o Senhor disse-lhe: «As queixas contra Sodoma e Gomorra são numerosas e os seus crimes são muito graves. 21Vou até lá, para ver se as queixas que me fizeram contra essas cidades correspondem à sua maldade ou não. Quero saber ao certo.»

22Dois dos visitantes afastaram-se na direção de Sodoma, enquanto Abraão continuava junto do Senhor. 23Abraão aproximou-se mais do Senhor e perguntou-lhe: «Será que vais destruir os inocentes juntamente com os culpados? 24Suponhamos que existem uns cinquenta inocentes naquela cidade, vais destruí-la na mesma? Não és capaz de perdoar a toda a cidade em atenção aos cinquenta que estão inocentes? 25Não é possível que tu vás fazer uma coisa dessas: condenar à morte o inocente juntamente com o culpado. Desse modo, ser inocente ou culpado, seria a mesma coisa. Tu que és o juiz do mundo inteiro tens que ser justo, nas tuas sentenças.»

26O Senhor respondeu: «Se eu encontrar na cidade de Sodoma cinquenta pessoas que estejam inocentes, perdoo a toda a cidade em atenção a eles.»

27Abraão continuou: «Já que tomei a liberdade de falar ao meu Senhor, mesmo que eu não seja mais do que pó da terra, permita-me mais uma palavra. 28Suponhamos que não chegam bem a cinquenta, mas que faltam uns cinco. Será que vais destruir toda a cidade, só por causa de cinco?» O Senhor respondeu: «Se lá encontrar quarenta e cinco que estejam inocentes, também não destruo a cidade.»

29Abraão continuou ainda a falar com o Senhor e disse-lhe: «Suponhamos que lá existam quarenta que estão inocentes.» O Senhor respondeu: «Também não faço mal à cidade, em atenção a esses quarenta.»

30Abraão insistiu: «Que o meu Senhor não se vá zangar, se eu continuar a falar. Mas suponhamos que lá se encontram trinta.» E o Senhor respondeu: «Também não faço mal à cidade, se de facto lá encontrar esses trinta.»

31Abraão continuou: «Já que tive a ousadia de falar com o meu Senhor, direi mais uma coisa só: Suponhamos que lá existem apenas uns vinte.» O Senhor respondeu: «Não a destruirei, em atenção a esses vinte.»

32Abraão disse ainda: «Que o meu Senhor não se zangue, se eu falo uma vez mais. Suponhamos que lá existem só dez pessoas que estão inocentes.» O Senhor respondeu: «Também não a destruirei, em atenção a esses dez.»

33Depois de assim ter falado com Abraão, o Senhor foi-se embora e Abraão voltou para onde estava antes.