a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Sonhos proféticos de José

371Jacob instalou-se na terra de Canaã, onde o seu pai tinha habitado algum tempo. 2A história de Jacob continua aqui.

José era um jovem de dezassete anos e guardava as ovelhas do seu pai, juntamente com os seus irmãos, filhos de Bilá e de Zilpa, que eram mulheres do seu pai37,2 Ver 16,2 e nota; 30,1–13; 35,25–26.. E ia contar ao pai o mau comportamento dos irmãos.

3Israel gostava mais de José do que de qualquer outro filho, por ter nascido quando ele já era mais velho, e ofereceu-lhe uma capa muito vistosa37,3 Expressão hebraica difícil, dando origem a variadas traduções.. 4Ao verem os seus irmãos que o pai gostava mais dele do que de qualquer um dos outros, começaram a detestá-lo e nem sequer o saudavam.

5Uma vez, José teve um sonho e foi contá-lo aos seus irmãos, e daí em diante ficaram a ter ainda mais inveja dele do que antes. 6José disse-lhes: «Ouçam lá o sonho que eu tive. 7Estávamos nós a atar os feixes no campo e, nisto, o meu feixe levantou-se e ficou de pé, enquanto os vossos feixes que estavam à sua volta se inclinavam diante dele.»

8Os irmãos replicaram: «Será que tu vais ser o nosso rei, para seres tu a mandar em nós?» E por causa dos sonhos e da explicação que ele deu, ainda mais o detestaram.

9José teve outro sonho e contou-o também aos seus irmãos. Disse-lhes ele: «Tive outro sonho. Era o Sol e a Lua e onze estrelas que se inclinavam diante de mim.» 10Quando contou este sonho ao seu pai e aos seus irmãos o pai repreendeu-o e disse-lhe: «Que sonho é esse que tu tiveste? Será que eu e a tua mãe temos de ir inclinar-nos até ao chão diante de ti?» 11Com isto, os seus irmãos tinham ainda mais inveja dele37,11 Comparar com At 7,9. e o seu pai pensava com frequência naquele sonho.

José vendido pelos irmãos

12Um dia os irmãos de José tinham ido guardar o rebanho do seu pai para a região de Siquém, 13e Israel disse a José: «Os teus irmãos andam a guardar o rebanho em Siquém e eu queria que fosses ter com eles.» José respondeu: «Vou, sim!» 14Jacob continuou: «Vai ver como é que estão os teus irmãos e como vão os rebanhos e manda-me dizer alguma coisa.» Jacob estava no vale de Hebron quando enviou José. Mas ao chegar a Siquém, 15José perdeu-se do caminho. Alguém o encontrou às voltas pelo campo e lhe perguntou: «Que é que andas a procurar?» 16Ele respondeu: «Ando à procura dos meus irmãos; diz-me, por favor, onde é que eles andam a guardar o gado.» 17Aquele homem disse-lhe: «Foram-se embora daqui. Ouvi-os dizer que iam para Dotan.»

Então José dirigiu-se para Dotan à procura dos seus irmãos e encontrou-os em Dotan. 18Os irmãos viram-no quando vinha ainda longe e, antes de ele se aproximar, fizeram planos para o matar. 19Por isso, diziam uns para os outros: «Lá vem aquele sonhador. 20Aproveitemos agora! Matamo-lo e atiramo-lo a um poço dos que há por aí e depois dizemos que foi uma fera que o devorou. Veremos em que é que param os seus sonhos.»

21Rúben ouviu isto e quis evitar que eles o matassem. Por isso, disse-lhes: «Não o matemos!» 22E continuou: «Não lhe tirem a vida. Atirem-no para aquele poço que está no deserto, mas não lhe façam mal.» O que pretendia era livrá-lo das suas mãos, para o entregar ao pai.

23Quando José chegou junto dos irmãos; eles tiraram-lhe aquela capa vistosa que trazia, 24agarraram-no e atiraram-no para um poço que estava seco e sem água nenhuma.

25Depois sentaram-se a comer e repararam que uma caravana de ismaelitas vinha ao longe, dos lados de Guilead. Nos seus camelos transportavam resinas, bálsamos e unguentos e iam a caminho do Egito. 26Judá disse então aos irmãos: «Que proveito temos nós em matar o nosso irmão e depois ocultar a sua morte? 27Vamos mas é vendê-lo àqueles ismaelitas. Não lhe façamos mal, porque afinal é nosso irmão e é do nosso sangue.» E os irmãos concordaram.

28Quando aqueles comerciantes ismaelitas de Madiã chegaram ali, os irmãos tiraram José para fora do poço e venderam-no aos ismaelitas por vinte moedas de prata. Estes levaram José para o Egito.

29Quando Rúben voltou de novo ao poço e viu que José já lá não estava, rasgou as roupas em sinal de tristeza, 30voltou para junto dos seus irmãos e disse-lhes: «O rapaz já cá não está! Que vou eu fazer agora?»

31Então os irmãos pegaram na capa de José, mataram um cabrito, mancharam-na com o sangue desse cabrito 32e enviaram-na ao pai com este recado: «Encontrámos isto. Vê lá se é ou não a capa do teu filho.» 33Jacob reconheceu-a e exclamou: «É realmente a capa do meu filho. Foi uma fera que destroçou e devorou José.»

34Jacob rasgou as suas roupas, cobriu-se de tecido grosseiro em sinal de tristeza e guardou o luto durante muito tempo pelo filho. 35Todos os seus filhos e filhas tentaram confortá-lo, mas ele recusava esse conforto e repetia: «Quero continuar de luto até descer ao sepulcro para ir ter com o meu filho.» E assim continuava a chorar pelo filho. 36No Egito os madianitas venderam José a Potifar, que era um alto funcionário e chefe da guarda do faraó.

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Uma mulher luta pelos seus direitos

381Por aquela altura, Judá separou-se dos seus irmãos e foi viver em casa de um dos descendentes de Adulam, chamado Hira. 2Ali Judá conheceu a filha de um cananeu, chamado Chua, e casou-se e dormiu com ela. 3Ela ficou grávida e deu à luz um filho, ao qual Judá deu o nome de Er. 4Depois ficou novamente grávida e deu à luz outro filho a quem pôs o nome de Onan. 5Algum tempo depois, deu à luz mais outro filho, ao qual pôs o nome de Chela, que nasceu quando Judá se encontrava em Quezib.

6Judá casou o filho mais velho, Er, com uma mulher chamada Tamar38,6 Ver Mt 1,3.. 7Mas o Senhor não gostava do mau comportamento de Er e fez com que ele morresse. 8Então Judá disse a Onan: «Casa com a viúva do teu irmão, para que o teu irmão possa ter descendentes, pois essa é a tua obrigação como cunhado38,8 Segundo o que está ordenado na lei do levirato, formulada em Dt 25,5–6; cf com Mt 22,24.

9Mas Onan sabia que o filho que nascesse não seria considerado seu. Por isso, cada vez que tinha relações com a viúva do seu irmão, ele derramava no chão o sémen, e assim evitava dar descendentes ao seu irmão. 10Aquele procedimento desagradou muito ao Senhor, e o Senhor fez com que também ele morresse.

11Judá disse à sua nora Tamar: «Volta para casa do teu pai como viúva38,11 Era esta a regra a seguir pelas viúvas., até que o meu filho Chela cresça.» O que Judá na realidade pensava era evitar que ele morresse também como os irmãos. E assim Tamar foi-se embora e foi viver para casa do seu pai.

12Passado bastante tempo, morreu a mulher de Judá, a filha de Chua. Terminado o período de luto, Judá foi a Timna com o seu amigo Hira, de Adulam, para ir ver os que faziam a tosquia do seu gado. 13Alguém foi comunicar a Tamar: «O teu sogro vai a caminho de Timna para assistir à tosquia do gado.» 14Ela tirou os seus vestidos de viúva, cobriu o rosto com um véu e sentou-se à entrada de Enaim, que está no caminho para Timna; porque ela sabia que Chela já era crescido e ainda a não tinham casado com ele.

15Judá viu-a e pensou que se tratava de uma prostituta, pois ela tinha o rosto coberto. 16Desviou-se um pouco do seu caminho, para passar junto dela, e disse-lhe: «Deixa-me dormir contigo.» Ele não sabia que era a sua nora. Então ela perguntou: «Que é que me dás para dormires comigo?» 17Ele respondeu: «Mando-te depois um dos cabritos do meu rebanho.» Ela replicou: «Mas tens que me dar alguma coisa como garantia de que mo vais mandar.» 18Ele perguntou-lhe: «Que é que queres que eu te dê como garantia?» Ela respondeu: «O teu anel de selar mais o cordão38,18 O anel de selar era um instrumento pessoal que andava frequentemente preso por um cordão ao pescoço do dono. e o cajado que trazes na mão.» Ele deu-lhe o que ela pediu, foi dormir com ela e ela ficou grávida.

19Depois disso, ela foi-se embora, retirou o véu com que se cobria e voltou a vestir as roupas de viúva. 20Judá mandou o cabrito pelo seu amigo, de Adulam, para que aquela mulher lhe restituísse a garantia, mas não a encontraram. 21Então perguntaram à gente daquele lugar: «Onde está a prostituta de Enaim que costuma estar à beira do caminho?» Mas eles reponderam: «Aqui não há nenhuma prostituta.»

22Ele foi de novo ter com Judá e disse-lhe: «Não consegui encontrá-la e a gente daquela localidade respondeu-me que não havia nenhuma prostituta naquele sítio.» 23Judá respondeu: «Deixa-a lá ficar com as coisas para não cairmos em ridículo. Tu bem sabes que eu procurei enviar-lhe o cabrito, mas tu não a conseguiste encontrar.»

24Uns três meses depois, foram dizer a Judá: «A tua nora Tamar está grávida; deve ter andado na prostituição.» Judá respondeu: «Condenem-na à morte na fogueira!»

25Mas quando a levaram para ser condenada, ela mandou dizer ao seu sogro: «Eu estou grávida do homem a quem pertencem estas coisas. Procura saber, por favor, a quem pertencem este anel de selar com os cordões e este cajado.» 26Judá reconheceu que eram seus e disse: «Ela é que tem razão e não eu, pois eu devia ter-lhe dado o meu filho Chela em casamento e não o fiz.» E não voltou a dormir com ela.

27Chegou o tempo e ela deu à luz dois gémeos! 28Ao nascerem, um deles estendeu primeiro a mão e a parteira agarrou-lha e atou nela uma fita vermelha e disse: «Este será o primeiro a nascer.» 29Mas ele voltou a recolher a mão e quem nasceu primeiro foi o outro e a parteira disse: «Anda! Conseguiste abrir passagem para ti!» E deu-lhe o nome de Peres38,29 Peres é semelhante à palavra hebraica que significa brecha, passagem..

30Depois saiu o irmão que trazia na mão a fita vermelha e deram-lhe o nome de Zera38,30 Zera pode significar, em hebraico, brilho, alusão à cor da fita..

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José em casa de Potifar

391Entretanto José tinha sido levado para o Egito. Potifar, alto funcionário e chefe da guarda do faraó, tinha-o comprado aos ismaelitas, que o tinham levado para lá. 2Contudo, o Senhor estava com José e fazia com que tudo lhe corresse pelo melhor, enquanto esteve ao serviço daquele egípcio.

3O seu amo começou a dar-se conta de que o Senhor estava com José e que, por isso, tudo o que ele fazia era bem sucedido. 4Potifar estava muito satisfeito com José; pô-lo ao seu serviço pessoal e entregou toda a sua casa e todos os bens ao seu cuidado. 5Desde que José ficou encarregado da casa de Potifar e de todos os seus bens, o Senhor abençoou a casa daquele egípcio, em atenção a José. Em tudo se notava que o Senhor o abençoava, tanto em casa como nos campos. 6Por isso, Potifar deixou tranquilamente tudo o que lhe pertencia aos cuidados de José, de modo que não precisava de se preocupar com nada, a não ser com aquilo que tinha de comer39,6 No que respeita à comida, os egípcios e hebreus tinham usos e rituais muito diferentes e, por vezes, até incompatíveis..

José era um homem bem parecido e de boas maneiras. 7Por isso, depois de algum tempo, atraiu os olhares da mulher de Potifar e esta pediu-lhe para dormir com ela. 8José recusou e replicou à mulher do seu amo: «Repare que, comigo aqui, o meu amo nem sequer se preocupa com os assuntos de casa; colocou tudo ao meu cuidado. 9Não há ninguém aqui em casa que esteja acima de mim; está tudo sob o meu poder, exceto a senhora, que é a mulher dele. Como é que eu posso agora fazer uma coisa dessas, cometendo um pecado contra Deus?»

10Todos os dias ela repetia a José o mesmo convite, para deitar-se com ela. 11Certo dia José entrou em casa para fazer o seu trabalho e nenhuma das outras pessoas da casa se encontravam lá. 12Ela agarrou-o pela roupa e disse-lhe: «Dorme comigo!» Mas ele fugiu para fora de casa, deixando-lhe nas mãos a peça de roupa que ela tinha agarrado. 13Quando ela se deu conta que ele tinha deixado uma peça de roupa nas suas mãos e tinha fugido para a rua, 14chamou pelos outros criados da casa e disse-lhes: «Vejam bem! Trouxeram-me cá para casa este hebreu e agora ele faz pouco de nós. Dirigiu-se a mim com intenção de dormir comigo, mas eu gritei bem alto; 15e quando ele me ouviu gritar, deixou junto de mim esta peça de roupa e fugiu a correr para a rua.»

16Ela guardou consigo aquela peça de roupa, até que o amo de José chegasse a casa, 17e contou-lhe desta maneira o que acontecera: «Aquele escravo hebreu que trouxeste cá para casa veio ter comigo para abusar de mim. 18E, como eu gritei com voz forte, deixou ao pé de mim esta peça de roupa e fugiu para a rua.»

19Quando o amo de José ouviu aquilo da boca da mulher, ficou furioso, especialmente quando ela lhe disse: «Foi assim que o teu próprio escravo me tratou!» 20O amo de José mandou-o prender e meter numa prisão, onde costumavam ficar os que eram presos por ordem do rei. Mas mesmo lá na prisão, 21o Senhor estava com José e continuava a manifestar para com ele a sua bondade, fazendo com que ele ganhasse a simpatia do chefe da prisão. 22O chefe da prisão colocou todos os presos sob a vigilância de José e tudo aquilo que lá se fazia era José quem decidia como havia de ser feito. 23O chefe da prisão não precisava de passar revista a nada do que estivesse ao cuidado de José, pois o Senhor estava com José e tudo o que ele fazia era bem sucedido.