a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
28

Destruição de Samaria

281Ai da Samaria, coroa orgulhosa dos bêbedos de Efraim!

Dominando um vale tão fértil,

a sua beleza gloriosa não passa duma flor caduca

na cabeça de gente totalmente embriagada.

2Eis que se aproxima, por ordem do Senhor,

uma potência forte e robusta,

como um turbilhão de granizo e tempestade destruidora,

como uma tromba de água caudalosa que tudo destrói;

com a sua mão põe tudo por terra.

3A coroa soberba dos bêbedos de Efraim

será pisada com os pés.

4Ela que domina com a sua beleza o vale muito fértil

não passará duma flor caduca.

Será como um figo amadurecido antes do verão:

o primeiro que o vê, logo o apanha e o come.

5Virá o dia em que o Senhor do Universo

será a coroa esplêndida e o diadema glorioso

dos sobreviventes do seu povo.

6Inspirará a justiça aos que presidem nos tribunais

e dará valentia aos que repelem o inimigo,

diante das portas da cidade.

Os bêbedos que zombam do profeta

7Vejam como o vinho e as bebidas fortes

desnorteiam e fazem cambalear as pessoas:

sacerdotes e profetas ficam tontos e cambaleiam por causa delas.

As bebidas alcoólicas fazem-nos desnortear,

veem as coisas de maneira confusa

e não conseguem falar com clareza.

8As suas mesas estão todas cobertas de vómitos

e não há um lugar sem porcaria.

9Eles perguntam: «A quem é que este quer ensinar?

A quem é que ele quer dar a lição?

A crianças recém-desmamadas?

A bebés que acabaram o período da amamentação?»

10Ora ouçam:

«tsav latsav, tsav latsav

kav lakav, kav lakav,

menino aqui, menino ali28,10 A frase hebraica dá mais importância à sonoridade das palavras do que ao seu significado. Traduções possíveis: letra por letra, sílaba por sílaba, palavra por palavra, ou: ordem sobre ordem, regra sobre regra, um pouco por aqui, um pouco por ali (menino aqui, menino ali). A frase parece aludir a um exercício escolar para principiantes. Os sacerdotes e os profetas fazem pouco de Isaías comparando-o a um professor de crianças principiantes.

11Pois bem, é com uma linguagem balbuciante,

com uma linguagem estranha

que o Senhor vai falar a este povo.

12Ele já lhes tinha dito:

«Nisto consiste o repouso:

Dai descanso aos que estão cansados.

Nisto consiste o descanso.»

Mas eles não quiseram obedecer.

13Então o Senhor fala-lhes de modo ininteligível:

«tsav latsav, tsav latsav

kav lakav, kav lakav,

menino aqui, menino ali.»

Por isso, quando caminharem, hão de cair de costas;

quebrarão os ossos e serão apanhados na rede.

A pedra angular

14Escutem, pois, a palavra do Senhor, ó gente insolente

que governais este povo de Jerusalém.

15Vocês dizem: «Concluímos uma aliança com a morte,

um pacto com o mundo dos mortos;

por isso, a catástrofe passará sem nos apanhar

porque temos a mentira por refúgio

e o engano por esconderijo.»

16Eis, então, o que declara o Senhor Deus:

«Vou colocar em Sião uma pedra de fundação28,16 Pedra de fundação. Ver Sl 118,22; Zc 4,7; Mt 21,42; Rm 9,33; 10,11; 1 Pe 2,6.

para os pôr à prova.

Será uma pedra preciosa, angular, de cimento firme.

Quem nela tiver confiança não ficará desiludido.

17Usarei o direito como cordel de medir

e a justiça como nível.»

Mas o granizo arrasará o vosso refúgio de mentira

e as águas torrenciais arrastarão o vosso abrigo.

18O vosso pacto com a morte será desfeito,

a vossa aliança com o mundo dos mortos não durará.

Quando a catástrofe passar,

sereis por ela esmagados.

19Cada manhã, cada dia e cada noite,

sempre que ela passar, há de apanhar-vos.

Basta que se fale nela, para ficardes aterrados.

20Como diz o provérbio,

o leito é muito curto para alguém se deitar

e a manta muito estreita para poder agasalhar.

21O Senhor levantar-se-á como no monte Peracim28,21 Monte Peracim. Lugar de uma vitória contra os filisteus. Ver 2 Sm 5,20; 1 Cr 14,11. Guibeon. Outra vitória de David contra os filisteus. Ver 1 Cr 14,16; cf. também Js 10,1–15.

e mostrar-se-á zangado como no vale de Guibeon,

para realizar a sua obra,

para fazer o seu trabalho,

uma obra extraordinária e um trabalho inaudito.

22Assim pois, deixem-se de insolências,

para que não se apertem mais as vossas cadeias,

pois soube da parte do Senhor, Deus do Universo,

que ele decidiu destruir todo o país.

Sabedoria dos trabalhadores do campo

23Escutem-me bem e prestem atenção!

Ouçam o que tenho para vos dizer.

24Porventura o lavrador que vai semear

passa todo o tempo a arar e a abrir regos na terra?

25Não! Depois de ter preparado a terra,

ele semeia os grãos de nigela e depois os de cominho,

semeia o trigo, o milho miúdo e a cevada,

nos regos convenientes, e o trigo duro nas bordas.

26Assim o instrui o seu Deus

e lhe ensina as regras a seguir.

27Não se debulha a nigela com o trilho de ferro,

nem as rodas do carro devem passar sobre o cominho.

A nigela deve ser sacudida com uma vara

e o cominho com um pau.

28O trigo tem que ser debulhado,

mas sem ser triturado em demasia.

As rodas do carro põem-se em movimento,

mas de modo a não esmagar o grão.

29Este proceder vem do Senhor do Universo,

que demonstra como é admirável o seu plano

e como é grande a sua eficiência.

29

Cerco e libertação de Jerusalém

291Ai de Ariel! Ai de Ariel29,1 Ariel. Palavra de difícil tradução. Indica provavelmente a parte mais alta do altar onde eram consumadas as vítimas oferecidas em sacrifício. Ver Ez 43,15–16; 29,2. Neste texto designa a cidade de Jerusalém e o mesmo acontece no v. 7.,

a cidade que David cercou!

Podem manter o ciclo das festas,

ano após ano, ou mesmo acrescentá-lo!

2Mas virá o tempo em que eu, o Senhor te castigarei,

e então haverá prantos e gemidos.

Serás para mim como o antigo Ariel.

3Vou montar acampamento à tua volta;

cercar-te-ei de trincheiras

e levantarei baluartes contra ti.

4Cairás tão baixo que a tua voz

parece vir das profundezas da terra,

a tua palavra mal se percebe debaixo do chão.

Será como a voz dum fantasma saído da terra,

cuja mensagem mal se percebe do fundo da cova.

5A multidão dos teus inimigos

será como uma nuvem de poeira,

e a multidão dos teus agressores

como uma nuvem de flocos de palha.

Mas logo a seguir, de imprevisto,

6o Senhor do Universo virá em teu auxílio,

por meio duma grande trovoada,

tremores de terra e grande tumulto,

com furacões, vendavais e chamas devoradoras.

7A multidão dos povos que te combatia, Ariel,

os que te atacavam, assediavam e sitiavam,

desapareceram como se fosse um sonho

ou como uma visão na noite29,7 Alusão provável ao cerco falhado de Jerusalém pelo exército assírio em 701 a.C. Ver os cap. 36—37 e cf. 31,4–5..

8Acontecerá à multidão das nações que lutam contra Sião

o que acontece ao homem esfomeado,

que sonha estar a comer,

mas acorda de estômago vazio,

ou ao homem cheio de sede,

que sonha estar a beber,

mas acorda de garganta seca.

Cegueira do povo

9Pasmem, fiquem espantados,

fiquem cegos, deixem de ver;

embriaguem-se, sem ser de vinho,

cambaleando, sem ter bebido.

10Foi o Senhor que vos mergulhou

num estado profundo de sonolência:

fechou os vossos olhos, isto é, os profetas,

e cobriu as vossas cabeças, isto é, os videntes.

11A revelação destes acontecimentos é para vós como o texto dum livro selado. Entregam-no a alguém que saiba ler e pedem-lhe: «Lê-o, por favor!» Mas ele responde: «Não posso, porque está selado!» 12Então entregam-no a alguém que não sabe ler, e pedem-lhe: «Lê tu, por favor», mas ele responde: «Não sei ler.»

Formalismo religioso

13Diz o Senhor:

«Este povo aproxima-se de mim só com palavras,

honra-me apenas com os lábios,

pois o seu coração está longe de mim.

O culto que me tributam

não passa dum hábito ou duma tradição humana29,13 Este versículo é citado de maneira livre em Mt 15,8–9; Mc 7,6–7..

14Por isso, vou continuar

a espantá-los com os meus prodígios:

fracassará a sabedoria dos seus sábios,

e será confundida a competência dos seus expertos29,14 Em 1 Co 1,19 Paulo cita este versículo segundo a antiga tradução grega.

O lugar de Deus e o dos homens

15Ai daqueles que trabalham em segredo,

que ocultam ao Senhor os seus planos

e planeiam as suas jogadas na sombra

e dizem: «Quem é que nos pode ver?

Quem é que vai saber disto?»

16Que insensatez a vossa,

pôr no mesmo plano o barro e o oleiro!

Pode o objeto dizer ao que o fabricou:

«Não foste tu que me fizeste?»

Ou pode o vaso dizer do oleiro:

«Ele não entende nada disto!»

A grande viragem

17Dentro de muito pouco tempo, a montanha do Líbano

transformar-se-á num pomar

e esse pomar será como uma floresta.

18Naquele dia,

os surdos ouvirão o que diz o livro;

e, livres de escuridão e trevas,

os cegos ficarão a ver.

19Os humildes voltarão a alegrar-se no Senhor,

e os pobres da terra exultarão no Santo de Israel.

20Será o fim do tirano e o extermínio dos insolentes,

e serão aniquilados todos os que buscam a maldade:

21os que acusam de crime os inocentes,

os que subornam os juízes

e atiram os homens para os calabouços.

22Por isso, o Senhor que resgatou Abraão,

assim fala aos descendentes de Jacob:

«O povo de Jacob nunca mais será humilhado,

a sua cara nunca mais ficará envergonhada29,22 Ou: Por isso, o Senhor, o Deus de Jacob e dos seus descendentes, o salvador de Abraão..

23Quando eles ou os seus filhos virem

o que eu vou fazer por eles,

hão de reconhecer quem eu sou,

eu, o Deus santo de Jacob;

hão de tremer diante de mim, o Deus de Israel.

24Os espíritos desencaminhados compreenderão então

e os que protestavam, aceitarão o ensino.»

30

Contra a aliança com o Egito

301O Senhor declara:

«Ai de vós, filhos rebeldes,

que fazeis projetos sem contar comigo,

que estabeleceis alianças sem a minha intervenção.

É assim que cometeis pecado atrás de pecado30,1 Projetos. Alianças. O profeta alude aos tratados de aliança entre Judá e o Egito pelos anos 713–702 a.C..

2Pondes-vos a caminho do Egito

sem antes me consultarem.

Ides procurar segurança junto do faraó

e refúgio à sombra do Egito.

3Mas a segurança do faraó será a vossa vergonha,

e o refúgio que procurais no Egito, a vossa humilhação,

4embora os vossos ministros já se encontrem em Soan

e os vossos embaixadores tenham chegado a Hanés30,4 Soan. Ver 19,11 e nota. Hanés. Trata-se provavelmente de Heracleopolis, mais ou menos a 100 km a sul do Cairo..

5Ficarão todos desiludidos por este povo inútil,

que não vos poderá socorrer nem auxiliar;

pelo contrário, será para eles uma desilusão e uma vergonha.»

Contra a embaixada ao Egito

6Mensagem sobre os animais selvagens do Sul.

Os animais de carga que caminham pelo Sul

atravessam uma região de tristeza e angústia,

de leões e leoas ferozes,

de víboras e dragões voadores.

As riquezas e os tesouros são transportados

por asnos e camelos e levados ao Egito,

uma nação que não é útil a ninguém.

7O seu auxílio é inútil e nulo,

e por isso o chamo: «Besta que nada faz30,7 Besta que faz nada. Tradução do hebraico Raab, que aparece por vezes como nome simbólico do Egito. Ver 51,19.

Instruções a Isaías

8«Agora despacha-te e escreve estas coisas numa tabuinha,

grava-as num documento,

para que sirvam para o futuro

como testemunho perpétuo.»

9Este povo é, de facto, rebelde, filhos renegados,

que não querem ouvir a lei do Senhor.

10Dizem aos videntes: «Deixem-se de visões!»

E aos profetas: «Não queremos que nos façam mais avisos!

Digam-nos antes coisas agradáveis e profetizem ilusões!

11Afastem-se do caminho reto, retirem-se da boa direção

e que o Santo de Israel não nos aborreça mais!»

12Por isso, o Deus santo de Israel declara:

«Uma vez que rejeitais a minha palavra

e confiais e vos apoiais na opressão e nas intrigas,

13semelhante pecado será para vós

como uma fenda numa alta muralha.

Aparece a saliência e, de repente,

sem ninguém esperar, desmorona-se tudo.

14A muralha desfaz-se em pedaços

como uma vasilha de barro despedaçada, sem se poder consertar.

De entre os bocados não se arranja sequer um caco

para apanhar brasas do braseiro

ou tirar um pouco de água do tanque.»

Confiar em Deus e não na força dos cavalos

15Assim declara o Senhor Deus, o Santo de Israel:

«Vocês só serão salvos se voltarem para mim

e se se mantiverem calmos;

só terão força, se tiverem confiança em mim

e ficarem tranquilos;

mas vocês não quiseram.

16E, ainda respondem:

“De modo algum! Nós vamos a cavalo!”

Sim, irão a cavalo, mas é para fugir!

E replicam: “Iremos em carros velozes!”

Mas os vossos perseguidores ainda serão mais rápidos.

17Um só inimigo bastará para ameaçar mil dos vossos.

Fugirão todos diante da ameaça de cinco inimigos.

Por fim, os que ficarem serão como um mastro

abandonado no cimo dum monte,

ou como um estandarte numa colina.»

O tempo da salvação

18Entretanto, o Senhor espera o momento

de vos conceder os seus favores,

de vos manifestar misericórdia.

Porque o Senhor é um Deus reto,

e felizes aqueles que nele esperam.

19Povo de Sião, que habitas em Jerusalém,

não chores mais.

Quando chamarem pelo Senhor, ele terá misericórdia;

mal ouça o pedido, imediatamente vos responderá.

20O Senhor vos dará o pão em tempo de tristeza

e a água em tempo de opressão.

Aquele que te ensina, não se esconderá mais;

tu o verás com os teus próprios olhos.

21Ouvirás dentro de ti esta voz,

quando tiveres de caminhar

para a direita ou para a esquerda:

«Este é o caminho a seguir!»

22Deves considerar impuros os teus ídolos prateados

e as tuas estátuas adornadas de ouro;

lançá-los-ás fora como imundície

e lhes dirás: «Fora daqui!»

23O Senhor te dará chuva

para as sementes que semeares na terra,

e o alimento que a terra produzir

será abundante e excelente.

Naquele dia, os teus rebanhos terão amplas pastagens.

24Os bois e os burros que trabalham a terra

comerão forragem salgada30,24 Forragem muito apreciada pelos animais.,

remexida com a pá e a forquilha.

25No dia do grande massacre,

em que as torres desabarão,

haverá torrentes de água abundante

em todas as montanhas e colinas.

26No dia em que o Senhor curar as chagas do seu povo

e tratar das feridas que sofreu,

a Lua refulgirá como um sol

e o Sol brilhará sete vezes mais em cada dia.

O Senhor castiga a Assíria

27É o Senhor em pessoa que vem de longe;

a sua cólera é ardente, como fogo espesso,

os seus lábios estão cheios de furor,

a sua palavra é fogo devorador.

28O seu sopro é uma torrente transbordante,

que inunda até ao pescoço.

Vem crivar os povos com o crivo da destruição

e pôr na boca das nações um freio

que os desvia contra a sua vontade.

29Vós, porém, haveis de cantar

como na noite sagrada de festa30,29 Provavelmente a festa das Tendas ou dos Tabernáculos, celebrada no outono, durante a noite. Há quem pense tratar-se da Páscoa..

O vosso coração alegrar-se-á

como aquele que caminha ao som da flauta,

enquanto vai à montanha do Senhor,

que é a rocha de Israel.

30O Senhor fará ouvir a sua voz majestosa,

e mostrará a força ameaçadora do seu braço.

Manifestará o seu furor nas chamas dum fogo devorador,

no meio de tempestades e tormentas de granizo.

31A Assíria ficará aterrada à voz do Senhor

e castigada pelos seus golpes.

32Cada paulada que o Senhor lhe infligir

será acompanhada de pandeiretas, guitarras e danças30,32 Texto de difícil compreensão. Traduz-se por danças o texto hebraico no meio dos combates..

33Desde há muito que a fogueira está preparada,

e nem o rei lhe escapa.

Está preparada numa cova profunda e larga,

com muita madeira empilhada para o fogo.

O sopro do Senhor vai pegar-lhe o fogo,

como uma torrente de enxofre.