a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Abimelec

91Abimelec, filho de Gedeão, foi para Siquém, onde vivia a família de sua mãe e pediu-lhes 2que fossem perguntar aos homens de Siquém: «Que é que preferem? Ser governados pelos setenta filhos de Gedeão ou por um só homem? Não se esqueçam que Abimelec é seu filho, por parte da mulher que vive em Siquém.»

3Os parentes da mãe falaram nisso aos homens de Siquém, os quais decidiram escolher Abimelec, por este ser seu conterrâneo.

4Deram-lhe setenta siclos de prata do templo de Baal-Berit9,4 Ver 8,33. e com este dinheiro ele assalariou duzentos vagabundos para o seguirem. 5Dirigiu-se à casa de seu pai em Ofra e ali, sobre uma mesma pedra, degolou os seus setenta irmãos, filhos de Gedeão. Escapou apenas Jotam, o filho mais novo, que se escondera. 6Então os homens de Siquém e Bet-Milo reuniram-se e dirigiram-se para junto do terebinto sagrado em Siquém, proclamando rei a Abimelec.

7Quando Jotam soube, subiu ao monte Garizim9,7 Monte Garizim. Monte próximo de Siquém. e gritou-lhes: «Habitantes de Siquém, ouçam-me, para que Deus vos ouça também. 8Certa vez as árvores reuniram-se para escolher um rei. Disseram para a oliveira: “Reina sobre nós.” 9A oliveira respondeu: “Para reinar sobre vós teria de deixar de produzir azeite, o qual é usado para honrar deuses e homens.”

10Então as árvores disseram à figueira: “Sê tu o nosso rei!” 11Mas a figueira replicou: “Para reinar sobre vós não poderia produzir mais o meu doce fruto.”

12Em seguida as árvores disseram à videira: “Tu é que vais ser o nosso rei.” 13Mas a videira respondeu: “Para reinar sobre vós não mais poderia dar o meu vinho, que faz os deuses e os homens felizes.”

14Então as árvores disseram ao espinheiro: “Tu vais ser o nosso rei.” 15O espinheiro respondeu: “Se querem mesmo que eu seja vosso rei, venham todos para debaixo da minha sombra. Se não quiserem, sairá fogo dos meus ramos espinhosos e consumirá até os cedros do Líbano.”»

16E Jotam continuou: «Vejamos! Será que procederam realmente com sinceridade, quando escolheram Abimelec como rei? Respeitaram a memória de Gedeão, tratando a sua família como lhe era devido, como ele merecia? 17Lembrem-se que o meu pai combateu por vós. Arriscou a vida para vos salvar dos madianitas. 18Mas agora voltaram-se contra a minha família. Mataram os seus filhos, setenta homens sobre uma só pedra. E só porque Abimelec, seu filho por parte da escrava, é vosso parente, fizeram-no chefe de Siquém. 19Porém se o que hoje fizeram a Gedeão e à sua família foi sincero e honesto, que Abimelec seja feliz e vos faça felizes! 20Se não, que saia fogo de Abimelec e vos consuma, homens de Siquém e de Bet-Milo. E que o fogo da gente de Siquém e de Bet-Milo consuma Abimelec.»

21Em seguida, temendo o seu irmão Abimelec, Jotam fugiu e passou a viver em Ber9,21 Ber. Localidade situada a 15 km a sudeste do monte Tabor..

Revolta contra Abimelec

22Abimelec dominou em Israel, durante três anos. 23Então Deus permitiu que houvesse hostilidade entre Abimelec e os homens de Siquém, que se revoltaram contra ele. 24Isto aconteceu para que Abimelec e os habitantes de Siquém, que o tinham acompanhado no assassinato dos setenta filhos de Gedeão, fossem castigados pelo seu crime. 25Os de Siquém puseram homens emboscados nas passagens estreitas dos montes e assaltaram quem passava. E Abimelec foi informado disso.

26Então Gaal, filho de Ébed, veio a Siquém com os seus irmãos, e os homens de Siquém aliaram-se a ele. 27Foram todos para as vinhas, apanharam uvas, fizeram vinho e organizaram uma festa. Dirigiram-se em seguida ao templo do seu deus e ali comeram e beberam e escarneceram de Abimelec. 28Gaal disse: «Que espécie de homens somos nós em Siquém? Por que servimos Abimelec? Quem é ele, afinal de contas? O filho de Gedeão! E Zebul recebe ordens dele; mas por que razão o deve servir? Sejam antes leais ao vosso pai Hamor, de quem descende a vossa família! 29Quem me dera dirigir o vosso povo! Desembaraçar-me-ia de Abimelec! Dir-lhe-ia: “Reforça as tuas tropas e vem combater comigo!”»

30Zebul, governador da cidade, ficou furioso, quando soube do que Gaal dissera. 31Enviou mensageiros a Abimelec, que estava em Arumá, para o avisarem: «Gaal, filho de Ébed, e os seus irmãos vieram a Siquém e vão impedir que entres na cidade. 32Por isso, tu e os teus homens, saiam de noite e escondam-se nos campos. 33Levanta-te amanhã de manhã, ao romper do sol e ataca a cidade de surpresa. E quando Gaal e os seus homens te vierem dar luta, não tenhas pena deles.» 34Assim Abimelec e os seus homens foram esconder-se de noite, fora de Siquém, em quatro grupos.

35Quando Abimelec e os seus depararam com Gaal a sair ao seu encontro e a parar à porta da cidade, deixaram os esconderijos. 36Gaal viu-os e disse a Zebul: «Atenção! Há homens a descer dos montes!» Zebul respondeu: «Não são homens; trata-se apenas de sombras.» 37Gaal avisou segunda vez: «Atenção! Há homens a descer dos montes e um grupo vem pelo caminho do carvalho dos Adivinhos!» 38Então Zebul respondeu: «Que estás para aí a dizer? Foste tu que nos perguntaste por que havíamos de servir Abimelec. Esses são os homens que trataste com desdém. Sai e dá-lhes luta.»

39Gaal levou os homens de Siquém a combater contra Abimelec. 40Gaal fugiu, e Abimelec perseguiu-o. Muitos ficaram feridos, mesmo à porta da cidade. 41Abimelec morava em Arumá, e Zebul expulsou Gaal e os seus irmãos de Siquém, de maneira que já lá não puderam morar.

42No dia seguinte, Abimelec descobriu que os habitantes de Siquém tencionavam sair para os campos. 43E assim dividiu os seus homens em três grupos e escondeu-se nos campos, à espera. Quando viu o povo a sair da cidade, saiu do esconderijo, para o matar. 44Enquanto Abimelec e o seu grupo avançavam, para se pôr em guarda à porta da cidade, os outros dois grupos atacaram o povo nos campos e mataram-nos a todos. 45O combate durou todo o dia. Abimelec capturou a cidade e destruiu-a; matou os seus habitantes e cobriu o chão de sal9,45 Ver Dt 9,22..

46Quando os homens influentes da torre de Siquém ouviram o que se passara, procuraram refugiar-se na fortaleza do templo de Baal-Berit. 47Abimelec soube que eles estavam lá escondidos 48e subiu ao monte Salmon com os seus. Ali pegou num machado, cortou o ramo de uma árvore e pô-lo aos ombros. Disse então aos seus homens para fazerem o mesmo. 49Cada um se apressou a cortar ramos de árvores; com Abimelec puseram a lenha ao redor da fortaleza. Deitaram-lhe fogo, e as pessoas que estavam lá dentro morreram todas. Eram cerca de mil homens e mulheres. 50Depois disto, Abimelec foi para Tebes9,50 Tebes. Localidade a alguns quilómetros a nordeste de Siquém., sitiou a aldeia e conquistou-a. 51Havia ali uma torre forte, onde os homens e as mulheres juntamente com os chefes se fecharam por dentro e subiram ao telhado. 52Quando Abimelec se dispôs a atacar a torre, dirigiu-se para a porta para a incendiar. 53Mas uma mulher deixou cair uma pedra de mó em cima dele, fraturando-lhe o crânio. 54Abimelec então pediu ao seu escudeiro: «Puxa da espada e mata-me! Não quero que se diga que uma mulher me matou.» O escudeiro obedeceu e matou-o.

55Quando os israelitas viram que Abimelec estava morto, regressaram às suas casas. 56Assim Deus castigou Abimelec pelo crime que cometera contra seu pai, ao matar os seus setenta irmãos. 57Deus fez também com que os habitantes de Siquém sofressem pela sua maldade, tal como Jotam, filho de Gedeão, predissera, quando os amaldiçoou9,57 Ver 9,20..

10

Tola e Jair

101Após a morte de Abimelec, Tola, filho de Puá e neto de Dodo, tornou-se o chefe de Israel. Pertencia à tribo de Issacar, morava em Chamir, nos montes de Efraim. 2Foi juiz dos israelitas, durante vinte e três anos e quando morreu foi sepultado em Chamir.

3Depois de Tola veio Jair de Guilead. Foi juiz de Israel durante vinte e dois anos. 4Tinha trinta filhos, que montavam trinta jumentos10,4 Ver 5,10. e possuíam vilas na região de Guilead. Ainda agora se chamam as vilas de Jair. 5Quando morreu, Jair foi sepultado em Camon.

6Mais uma vez os israelitas desagradaram ao Senhor, prestando culto aos deuses Baal e Astarté e também aos deuses da Síria, Sídon, Moab, Amon e dos filisteus. Deixaram de servir ao Senhor e de lhe prestar culto. 7Por isso, o Senhor ficou irado com os israelitas e permitiu que os filisteus e os amonitas os dominassem. 8Durante dezoito anos oprimiram e perseguiram as tribos israelitas que moravam no território amorreu, na margem oriental do Jordão, em Guilead. 9Os amonitas chegaram mesmo a atravessar o Jordão e a fazer guerra às tribos de Judá, Benjamim e Efraim. Israel estava em grandes apuros. 10Então os israelitas clamaram ao Senhor e disseram: «Pecámos contra ti, porque te deixámos, ó nosso Deus, e adorámos os ídolos de Baal.» 11O Senhor respondeu-lhes: «Os egípcios, os amorreus, os amonitas, os filisteus, 12os sidónios, os amalecitas e Maon, oprimiram-vos no passado, e vocês pediram-me ajuda. Não vos libertei eu de todos eles? 13Mas logo se separaram de mim para adorar outros deuses. Por isso, não vos libertarei novamente. 14Vão pedir ajuda aos deuses que escolheram. Eles que vos libertem, quando estiverem em dificuldade.» 15Mas o povo de Israel implorou: «Pecámos. Faz o que quiseres, mas por favor, liberta-nos hoje.»

16Então puseram de parte os deuses estrangeiros e adoraram ao Senhor; e ele compadeceu-se da aflição dos israelitas. 17O exército amonita preparou-se para combater e acampou em Guilead. Os homens de Israel, por sua vez, reuniram-se e acamparam em Mispá10,17 Mispá. Localidade de Guilead a sul do rio Jaboc.. 18E o povo mais os chefes das tribos israelitas, perguntavam uns aos outros: «Quem dentre nós irá à frente, no combate contra os amonitas? Quem o fizer será chefe de todos os que vivemos em Guilead.»

11

Jefté

111Jefté11,1 Ver Hb 11,32., valente soldado de Guilead, era filho de uma meretriz. 2O seu pai Guilead tivera outros filhos da sua esposa, os quais, quando cresceram, obrigaram Jefté a sair de casa. Disseram-lhe: «Não herdarás nada do nosso pai, porque és filho de outra mulher.»

3Jefté fugiu dos irmãos e passou a morar no território de Tob. Ali reuniu um grupo de vagabundos, que o seguiam.

4Algum tempo depois, os amonitas entravam em guerra com Israel. 5Foi então que os anciãos de Guilead procuraram Jefté, na terra de Tob, para o trazer de volta. 6Disseram: «Vem e sê o nosso chefe, para podermos combater contra os amonitas.» 7Mas Jefté respondeu: «O vosso ódio obrigou-me a sair de casa de meu pai. Por que me pedem agora para acorrer em vosso auxílio?» 8E eles replicaram: «Vimos a ti, porque precisamos que nos ajudes a combater os amonitas e para que sejas o chefe dos que vivem em Guilead.» 9Jefté concordou e propôs: «Se eu voltar à casa paterna para combater os amonitas e o Senhor nos der a vitória, serei o vosso chefe.» 10Eles concluíram: «Faremos como dizes! O Senhor seja nossa testemunha.» 11Jefté foi à frente dos dignitários de Guilead e o povo fê-lo seu chefe. Jefté repetiu o que antes dissera, desta vez em Mispá, tomando o Senhor como testemunha.

12Então Jefté enviou mensageiros ao rei de Amon dizendo: «Que queres de nós? Por que invadiste o nosso país?» 13O rei de Amon respondeu, pelos mensageiros de Jefté: «Quando os israelitas saíram do Egito, apoderaram-se das minhas terras, desde o rio Arnon até ao rio Jaboc e ao rio Jordão. Agora chegou o momento de tudo ser restituído pacificamente.»

14Jefté enviou de novo os seus mensageiros ao rei de Amon 15com a resposta: «Não é verdade que Israel se apoderou da terra de Moab ou da terra de Amon. 16O que aconteceu foi que, quando os israelitas saíram do Egito, atravessaram o deserto até ao Mar Vermelho e chegaram a Cadés. 17Então enviaram mensageiros ao rei de Edom, pedindo autorização para passarem11,17 Ver Nm 20,14–21. pelo território. Mas o rei de Edom11,17 Ver Nm 21,4. não consentiu. Em seguida, pediram ao rei de Moab, mas este também não consentiu que atravessassem o seu território. Por isso, os israelitas permaneceram em Cadés, 18até que atravessaram o deserto, contornando o território de Edom e de Moab e atingiram o lado oriental de Moab, do outro lado do rio Arnon. Ali acamparam, mas não atravessaram o Arnon, porque era a fronteira de Moab.

19Então os israelitas enviaram mensageiros a Seon, rei amorreu de Hesbon, e pediram-lhe autorização para atravessar o seu país. 20Mas Seon não o permitiu. Pelo contrário, reuniu o seu exército, acampou em Jaás e atacou Israel. 21Mas o Senhor, o Deus de Israel, deu a vitória aos israelitas sobre Seon e o seu exército. Por isso, os israelitas se apoderaram de todo o território dos amorreus, que habitavam esse país. 22Ocuparam todo o território amorreu desde o Arnon, no sul, até ao Jaboc, no norte, e desde o deserto oriental até ao Jordão11,22 Ver Nm 21,21–24.. 23Se, portanto, foi o Senhor, o Deus de Israel, que expulsou os amorreus, em favor do seu povo, os israelitas, queres agora mandar-nos embora? 24Podem ficar com o que o vosso deus Camós vos deu. E nós ficaremos com tudo o que o Senhor, nosso Deus, nos entregou. 25Acaso, pensas tu que és melhor do que Balac, filho de Sipor11,25 Ver Nm 22,1–6., rei de Moab? Ele nunca desafiou a Israel, pois não? Alguma vez saiu a combater-nos? 26Durante trezentos anos Israel ocupou Hesbon e Aroer, as cidades circunvizinhas e as cidades de ambas as margens do Arnon. Por que não as recuperaste entretanto? 27Não! Não vos fiz nada de mal. Tu é que me fazes o mal, combatendo contra mim. O Senhor é juiz. Ele decidirá hoje entre os israelitas e os amonitas.»

28Mas o rei de Amon não quis saber da mensagem que Jefté lhe enviou. 29Então o Espírito do Senhor apoderou-se de Jefté e este atravessou Guilead e Manassés, regressando a Mispá de Guilead, donde prosseguiu até Amon.

O voto de Jefté

30Jefté prometeu ao Senhor: «Se me deres a vitória sobre os amonitas, 31oferecerei em holocausto a primeira pessoa que sair de minha casa, ao meu encontro, quando voltar da guerra. Oferecerei essa pessoa em sacrifício

32Em seguida, Jefté atravessou o rio para combater contra os amonitas e o Senhor concedeu-lhe a vitória. 33Derrotou-os e conquistou-lhes ao todo vinte cidades, desde Aroer até à região de Minit e até Abel-Queramim. Foi uma derrota terrível.

Morte da filha de Jefté

34Quando Jefté regressou a Mispá, a filha veio ao seu encontro, dançando e tocando o tamborim. Era a sua filha única. Não tinha mais filhos nem filhas. 35Quando ele a avistou, rasgou as suas roupas, em sinal de tristeza, dizendo: «Ó minha filha! Quebraste o meu coração! Por que devias ser tu a dar-me tamanha dor? Fiz uma promessa solene ao Senhor e não posso voltar atrás11,35 Ver Nm 30,2.36Ela respondeu: «Se fizeste uma promessa ao Senhor em relação a mim, cumpre-a, pois o Senhor permitiu que tu te vingasses dos teus inimigos, os amonitas37E acrescentou: «Apenas te peço um favor. Deixa-me durante dois meses, ir para os montes com as minhas amigas chorar, por ter de morrer virgem.» 38O pai então consentiu que ela se ausentasse por dois meses, juntamente com as amigas. Nos montes lamentaram a sua má sorte, de morrer solteira e sem filhos. 39Dois meses decorridos, voltou para junto de seu pai. Ele fez como tinha prometido ao Senhor e ela morreu sem se ter casado. Assim teve origem o costume, que existe em Israel, 40de as jovens saírem quatro dias por ano, para chorarem a má sorte da filha de Jefté, de Guilead.