a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
3

Uma prostituta obstinada

31Diz o Senhor:

«Se o homem se divorciar da sua mulher

e ela o deixar para casar com outro,

o primeiro já não volta a recebê-la de novo.

Se tal acontecesse,

seria uma corrupção para o país.

Mas tu, ó Israel,

tiveste muitos amantes3,1 Ver nota a 2,2.,

e agora queres voltar para mim!

2Olha para o cimo dos montes3,2 Ali praticava-se o culto da fecundidade. Ver 2,20.:

Haverá algum lugar onde não te tenhas desonrado?

Puseste-te à espera dos teus amantes,

à beira da estrada,

como um nómada espreita as suas vítimas no deserto.

Com a tua prostituição e maldade,

espalhaste a corrupção no país.

3Por isso, faltou a chuva

e o orvalho não caiu.

Mas continuavas obstinada na prostituição,

sem te arrependeres disso3,3 Ver Am 4,7–8..

4E agora dizes-me: “Tu és o meu pai

e o meu amigo de infância.

5Não vais ficar irado comigo para sempre.”

Porém tu dizes isso,

tendo feito todo o mal que pudeste.»

Judá não aprende com o castigo de Israel

6No tempo do rei Josias, o Senhor disse-me: «Viste o que Israel fez, como uma mulher infeliz? Deixou-me, e foi-se entregar como prostituta3,6 Josias foi rei de Judá de 640 a 609 a.C. Ver nota a 1,2. Israel designa aqui o reino do Norte. O povo de Deus é comparado a uma mulher infeliz. Os reinos de Israel e de Judá são comparados a duas irmãs. Ver Ez 23. Prostituta. Ver 2,2 e nota., ao culto dos ídolos no cimo dos montes, e debaixo de qualquer árvore.

7Esperei que, depois de tudo isso, ela voltaria para mim. Mas não. E a sua infiel irmã, Judá, estava a par de tudo. 8Judá também viu que me divorciei de Israel, e a mandei embora, porque ela me deixou e se fez prostituta3,8 Ver Dt 24,1–2; Is 50,1. O profeta alude à ruína de Samaria em 721 a.C. Ver 2 Rs 17.. Porém Judá, a irmã infiel de Israel, não teve medo e entregou-se à mesma prostituição. 9Não teve vergonha nenhuma. Corrompeu a terra, e cometeu adultério, ao prestar culto às imagens de pedra e aos ídolos das árvores. 10Em seguida, Judá, a irmã infiel de Israel, fingiu que voltava para mim; mas não foi sincera. Sou eu, o Senhor, que to digo.»

11Então o Senhor disse-me que, embora Israel se tivesse afastado, tinha acabado por se mostrar mais fiel do que a traidora Judá. 12E mandou-me dirigir este apelo a Israel:

«Ó Israel, infiel, volta para mim.

Eu terei misericórdia e não ficarei irado;

não ficarei irado contigo para sempre.

Sou eu, o Senhor, que to digo.

13Só te peço que reconheças a tua culpa,

que te revoltaste contra o Senhor, teu Deus.

Correste atrás dos ídolos,

debaixo de árvores frondosas

e não obedeceste à minha vontade.

14Voltem para mim, ó filhos infiéis; é a mim que pertencem! Sou eu, o Senhor, que o digo. Irei buscar uma pessoa numa cidade e duas outras numa família, para vos fazer voltar ao monte Sião. 15Dar-vos-ei chefes que me obedeçam e que vos dirigirão com sabedoria e entendimento.

16E quando o vosso número aumentar bastante no país, não se falará mais na arca da aliança3,16 Arca da Aliança. Ver Sl 132,6–7 e nota. do Senhor. Nunca mais se lembrarão, nem quererão falar acerca dela; não terão necessidade dela, nem farão outra para a substituir. 17Quando esses dias chegarem, Jerusalém será chamada “o trono do Senhor” e os pagãos virão ali, para me adorarem. Deixarão de seguir os seus corações teimosos e maus. 18Judá juntar-se-á a Israel e ambos regressarão do exílio à terra que dei para sempre aos vossos antepassados.»

A idolatria do povo de Deus

19«Eu, o Senhor, dizia para comigo:

Ó Israel, eu queria fazer de ti o meu filho

e dar-te uma terra aprazível,

a mais bela terra do mundo.

O meu desejo era que me chamasses pai,

e que nunca mais me deixasses.

20Mas tal como uma esposa infiel,

assim tu me atraiçoaste, ó povo de Israel.

Sou eu, o Senhor, que to digo.

21Ouvem-se vozes no cimo dos montes3,21 Ver v. 2 e nota.;

é o povo de Israel a chorar e a pedir misericórdia,

porque seguiram por maus caminhos

e esqueceram o Senhor, seu Deus.

22Voltem para mim, ó filhos pródigos;

eu vou curar-vos e ajudar-vos a ser fiéis.

E respondem-me: “Sim, nós voltamos para ti, Senhor,

porque tu és o nosso Deus.

23Realmente, não recebemos benefício nenhum

quando prestámos culto aos ídolos no cimo dos montes.

Pois só do Senhor, nosso Deus,

Israel pode receber ajuda.

24Mas desde a nossa infância, o vergonhoso culto a Baal

fez-nos perder os rebanhos, os filhos e as filhas3,24 Filhos e filhas. Alusão aos sacrifícios de crianças, oferecidos na religião cananeia. Ver Jr 7,31; 19,5; 22,3; Dt 18,10; 2 Rs 16,3; 17,17; 21,6; Sl 106,38.,

tudo o que os nossos antepassados nos deixaram.

25Devíamos prostrar-nos de vergonha

e deixar que a nossa desgraça nos cobrisse.

Nós e os nossos antepassados, desde sempre,

pecámos contra o Senhor, nosso Deus;

não obedecemos às suas ordens.”»

4

Deus convida ao arrependimento

41«Se te quiseres arrepender, ó Israel,

volta para mim.

Se deixares os ídolos que detesto,

não precisarás de andar sem rumo.

Palavra do Senhor!

2Se fores honesto e sincero,

poderás prestar juramento em nome do Senhor;

e os pagãos pedirão a minha bênção

e se sentirão felizes por isso.»

3Assim fala o Senhor a Judá e a Jerusalém:

«Lavrem os vossos terrenos incultos;

não semeiem no meio dos cardos4,3 Ver Os 10,12..

4Façam uma circuncisão

que afaste todo o mal do vosso coração,

ó habitantes de Judá e Jerusalém.

Se não, a minha ira se fará sentir

por causa das vossas transgressões;

o meu fogo vos consumirá

e ninguém o poderá apagar.»

Judá, ameaçada de invasão

5«Mandem ressoar a trombeta por todo o país!

Proclamem de maneira que se ouça bem

e digam aos habitantes de Judá e de Jerusalém

que corram para as cidades fortificadas.

6Deem o sinal de alarme a Sião!

Corram sem demora, pela vossa segurança!

Que eu vou mandar vir do norte4,6 Ver 1,14 e nota.

desgraças e grande destruição.

7O destruidor das nações acometerá

como um leão4,7 Ver Dn 7,4. que sai do covil.

Vem destruir a tua terra,

deixando em ruínas as tuas cidades,

e ninguém morará nelas.

8Vistam-se de luto4,8 Ver Is 22,12. e chorem em altos gritos,

porque Judá não escapará à ira do Senhor.

9Nesse dia, os reis e os membros do governo

perderão a sua coragem.»

Palavra do Senhor!

«Os sacerdotes ficarão pasmados

e os profetas admirados.

10Então eles replicarão:

“Ó Senhor, Deus, enganaste redondamente os habitantes de Jerusalém4,10 Ver Is 63,17.!

Disseste que teriam paz,

mas puseste a espada contra as suas gargantas.”

11Há de chegar o dia em que se dirá

aos habitantes de Jerusalém,

que um vento abrasador

sopra do deserto contra o meu povo.

Não será uma brisa suave

como a que limpa o trigo4,11 Para limpar o trigo atirava-se ao ar, com uma forquilha, a mistura de grão e de palha; o vento levava a palha deixando cair o grão..

12É um vento mais forte

que virá por minha ordem

e com o qual julgarei este povo.»

Judá, cercada pelo inimigo

(Exclama o povo)

13«Eis que o inimigo se aproxima

como se fosse uma nuvem.

Os seus carros de guerra são como um ciclone,

e os seus cavalos mais velozes do que águias.

Estamos perdidos!

Não conseguiremos escapar!»

(Responde Deus)

14«Ó Jerusalém, limpa a maldade do teu coração,

para poderes ser salva.

Até quando abrigarás dentro de ti

os teus maldosos pensamentos?

15Ouçam as más notícias que vêm de Dan

e das montanhas de Efraim4,15 Dan. Tribo de Israel situada próxima da nascente do Jordão. Montanhas de Efraim. Zona montanhosa entre Siquém e Betel, no centro da Palestina..

16Proclamem a toda a gente,

anunciem a Jerusalém

que o inimigo vem de um país longínquo,

lançando o grito de ataque contra as cidades de Judá.

17Cercarão Jerusalém,

como homens de guarda a um campo,

porque os seus habitantes se mostraram rebeldes.

Palavra do Senhor!

18Atraíste sobre ti tudo isto,

devido ao teu comportamento e à tua maldade.

A tua rebeldia produziu sofrimento;

feriu o teu coração.»

Jeremias lamenta o seu povo

19O meu coração parte-se de dor!

O meu peito está apertado pelo sofrimento.

Não consigo sossegar por um momento,

porque ouço o toque das trombetas e os gritos de guerra!

20É calamidade atrás de calamidade:

todo o país está em ruínas.

As nossas tendas foram subitamente deitadas por terra,

e os nossos abrigos destruídos.

21Até quando terei de ver o estandarte de guerra

e ouvir o toque das trombetas?

(Deus)

22«O meu povo é estúpido: não me conhece.

É como uma criança sem tino;

não tem entendimento.

É perito em fazer o mal,

mas não sabe fazer o que é bem.»

Jeremias contempla a destruição futura

23Vejo a terra desolada4,23 Terra desolada. A mesma expressão é usada em Gn 1,2.; o céu está sem luz.

24As montanhas tremem,

e as colinas fogem de um lado para o outro.

25Vejo que já não há ninguém;

até as aves desapareceram do céu.

26Vejo a terra fértil transformada num deserto;

as cidades ficaram em ruínas

por causa da terrível ira do Senhor.

27Eis o que declara o Senhor:

«O país inteiro será um deserto árido

porém não o destruirei totalmente.

28A terra cobre-se de luto;

e o céu escurece.

O que eu decidi foi o que mandei que se cumprisse.

E não voltarei atrás na decisão que tomei.»

29Toda a gente se põe em fuga

ao ouvir o ruído dos cavaleiros e arqueiros.

Uns escondem-se na floresta,

outros fogem para os rochedos.

As cidades ficam desertas,

ninguém se atreve a ficar lá.

30Ó Jerusalém, tu estás perdida!

Por que te vestiste de púrpura?

Por que te adornaste com joias e pintaste os olhos?

Isso não serve para nada!

Os teus amantes rejeitaram-te

e agora tentam matar-te.

31Ouço gemidos, como duma mulher a dar à luz,

com as dores do primeiro parto.

É Jerusalém que geme e suplica, estendendo a mão:

«Estou perdida! Vão matar-me!»

5

Pecado de Jerusalém

(Deus)

51«Habitantes de Jerusalém,

percorram as vossas ruas!

Busquem por toda a parte!

Verifiquem, pelas praças,

para ver se encontram uma pessoa que faça o bem

e que procure ser fiel a Deus.

Se a encontrarem, perdoarei a Jerusalém.»

(Jeremias)

2Embora jurem em nome do Senhor vivo

o vosso juramento é mentiroso.

3Ó Senhor, o que tu procuras

é quem te seja fiel.

Tu castigaste-os, mas sem resultado;

feriste-os, mas eles recusaram aceitar a correção.

Ficaram mais duros que a pedra

e não quiseram arrepender-se.

4Disse então para comigo:

«São pobres ignorantes!

O seu comportamento é de gente louca.

Não conhecem a vontade do Senhor,

as exigências do seu Deus.

5Vou ter com os seus chefes e falarei com eles;

eles conhecem certamente a vontade do Senhor

e as exigências do seu Deus.»

Porém todos rejeitaram a autoridade do Senhor

e recusaram-se a obedecer-lhe.

6Por isso, leões sairão do bosque e os matarão;

lobos do deserto os despedeçarão,

e os leopardos atacarão as suas cidades.

Quem delas sair será despedaçado,

porque são muitos os seus pecados

e graves as suas transgressões.

(Deus)

7«Por que haveria eu de perdoar as transgressões do meu povo?

Ele abandonou-me e prestou culto a falsos deuses!

Dei de comer ao meu povo até o saciar,

mas ele tornou-se adúltero e frequentou cultos imorais5,7 Ver 2,20; 3,8 e respetivas notas..

8Ficaram como cavalos bem alimentados e cheios de cio,

cada qual cobiçando a mulher do próximo.

9Não devo eu castigá-los por causa disso

e vingar-me do povo que faz semelhantes coisas?

Palavra do Senhor!

10Venham os inimigos e arrasem o meu povo como uma vinha,

mas sem os destruírem totalmente.

Devem cortar todos os rebentos que não me pertencem5,10 Sobre a vinha, como imagem do povo de Deus, ver Is 5,1–7..

11Os habitantes de Israel e de Judá

traíram-me por completo.

Palavra do Senhor

O Senhor rejeita a Israel

12O povo renegou o Senhor e disse:

«Ele não vale nada. Não haverá problema;

nem guerra nem fome nos incomodarão!

13As palavras dos profetas são como o vento:

o que dizem não vale nada

e o mal que anunciam só a eles acontece.»

14O Senhor, Deus todo-poderoso, disse-me então:

«Jeremias, por causa do que este povo tem dito,

as minhas palavras serão como fogo na tua boca.

O povo será como madeira, e o fogo os consumirá.

15Eis que vou mandar contra vós um povo de longe,

para vos atacar, ó Israel!

É uma nação poderosa e antiga,

uma nação cuja língua não sabes falar,

nem percebes o que eles dizem.

16As suas flechas são morte certa

e todos eles são valentes soldados.

17Devorarão as tuas colheitas e a tua comida;

matarão os teus filhos e filhas;

dizimarão os teus rebanhos

e destruirão as tuas vinhas e figueiras.

As cidades fortificadas, nas quais pões a tua confiança,

serão destruídas pelo seu exército.

18Todavia, nesses dias, não exterminarei por completo o meu povo. Palavra do Senhor! 19Quando perguntarem por que fiz tudo isso, deves dizer-lhes que foi por se afastarem de mim e por servirem a outros deuses na sua terra; por isso terão de ir servir os estrangeiros numa terra que não é vossa.

20Fala aos descendentes de Jacob

e anuncia ao povo de Judá:

21“Prestem atenção, gente louca e insensata,

que têm olhos, mas não veem

têm ouvidos, mas não ouvem5,21 Comparar com Is 6,9–10; Ez 12,2; Mc 8,18.!”

22Por que não me respeitam,

nem a minha presença vos faz tremer?

Palavra do Senhor!

Não fui eu que pus a areia como limite do mar,

como fronteira que ele nunca pode atravessar?

O mar pode agitar-se, mas não passará dessa fronteira5,22 Comparar com Jb 38,8–11.;

as ondas podem rugir, mas não passarão aquele limite.

23Mas como povo teimoso e rebelde,

voltaram-me as costas e foram-se embora.

24Nunca reconheceram

que deviam respeitar o Senhor, vosso Deus,

que vos manda a chuva do outono e da primavera,

e vos garante, cada ano,

as semanas da colheita necessária.

25Pelo contrário, pelos vossos crimes e transgressões

afastaram toda a prosperidade do vosso meio.

26Há entre o meu povo homens maus,

que andam com armadilhas à espreita,

para ver se conseguem apanhar alguém.

27As suas casas estão cheias de rapina,

como uma gaiola cheia de aves.

Por isso, são ricos, poderosos,

28e anafados: nada lhes falta.

Não há limite para as suas más ações.

Não tratam os órfãos como devem,

nem reivindicam os direitos do necessitado.

29Mas eu, hei de castigá-los por tudo isso!

Este povo terá de pagar pelo que me fez!

Palavra do Senhor!

30Uma coisa horrível e espantosa

aconteceu nesta terra:

31os profetas só falam mentiras5,31 Ou: falam em nome dos falsos deuses.

os sacerdotes governam por interesse5,31 Ou: ao seu mando.

e o meu povo concorda com eles.

Mas como acabará tudo isso?»