a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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Jesus ora pelos seus discípulos

171Depois de ter falado desta maneira, Jesus levantou os olhos para o céu e disse: «Pai, chegou a minha hora. Mostra a glória do teu Filho, para que ele mostre também a tua. 2Tu entregaste ao teu Filho autoridade sobre toda a Humanidade, para conceder a vida eterna a todos os que lhe confiaste. 3E a vida eterna consiste em conhecerem-te como único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste.

4Manifestei neste mundo a tua glória, pois cumpri a missão de que me encarregaste. 5Dá-me, pois, ó Pai, a glória que eu tinha junto de ti, antes de o mundo ser mundo. 6Dei-te a conhecer àqueles que me confiaste, tirando-os do mundo. Eles eram teus, mas tu entregaste-mos e eles guardaram a tua palavra. 7Agora sabem que tudo quanto eu tenho é de ti que vem. 8Confiei-lhes as palavras que tu me deste e eles aceitaram-nas. Compreenderam verdadeiramente que eu vim de ti e creram que tu me enviaste. 9Peço-te por eles; não pelos que são do mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. 10Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu. E a minha glória vai aparecer neles. 11Eu deixo o mundo e vou para junto de ti, mas eles ainda ficam no mundo. Pai santo, protege-os pelo poder do teu nome, para que eles sejam um, como tu e eu somos um. 12Enquanto estive com eles no mundo, protegi-os em teu nome, nome que tu me deste. Guardei-os e nenhum deles se perdeu, a não ser aquele que se havia de perder, para que se cumprisse o que diz a Sagrada Escritura17,12 Ver Sl 41,10; Jo 13,18..

13Agora vou para ti e falo enquanto estou ainda neste mundo, para que a minha alegria os encha profundamente. 14Entreguei-lhes a tua palavra e o mundo tem-lhes ódio, porque eles não são do mundo, como eu também não sou. 15Não te peço que os tires do mundo, mas que os defendas das forças do mal. 16Eles não pertencem ao mundo, como eu também não pertenço. 17Faz com que te sirvam pela verdade. Santifica-os pela verdade; a tua palavra é a verdade. 18Eu envio-os para o mundo, como tu me enviaste também. 19Eu ofereço a minha vida por eles, para que também eles sejam santificados pela verdade.

20Não te peço apenas por eles, mas também por aqueles que crerem em mim por meio da sua pregação, 21e para que todos sejam um. Pai, que eles estejam tão unidos a nós, como tu o estás a mim e eu a ti. Desta maneira, o mundo há de acreditar que tu me enviaste. 22Dei-lhes a mesma glória que me deste, para que vivam em perfeita unidade como nós.

23Eu vivo neles e tu vives em mim. Deste modo a sua união será perfeita e o mundo há de saber que me enviaste e que os amas como a mim.

24Pai! Que todos aqueles que me deste estejam onde eu estiver, para que possam contemplar a glória que me deste, porque tu amaste-me antes que o mundo fosse mundo. 25Pai bondoso, o mundo não te conhece, mas eu conheço-te, e estes também já sabem que fui enviado por ti. 26Eu dei-lhes a conhecer quem tu és, e vou continuar a fazê-lo, para que eles se amem, como tu me amas, e o meu amor esteja neles.»

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Prisão de Jesus

(Mateus 26,47–56; Marcos 14,43–50; Lucas 22,47–53)

181Depois desta oração, Jesus saiu com os discípulos. Atravessou o ribeiro do Cédron18,1 Ver Mc 11,1. e entrou com eles num olival que lá havia. 2Judas, aquele que estava para o atraiçoar, conhecia muito bem aquele lugar, porque era costume Jesus reunir-se lá com os discípulos18,2 Ver Lc 21,37; 22,42.. 3Então Judas foi lá ter e levou com ele um destacamento de soldados romanos e alguns guardas do templo, enviados pelos chefes dos sacerdotes e pelos fariseus. Iam armados e levavam archotes e lanternas. 4Jesus sabia bem o que lhe ia acontecer, por isso adiantou-se e perguntou-lhes: «Quem é que procuram?» 5Eles responderam-lhe: «Jesus o Nazareno!» «Sou eu!», disse-lhes Jesus. E Judas, o traidor, estava lá com eles. 6Quando Jesus lhes disse: «Sou eu», recuaram e caíram no chão. 7Perguntou-lhes mais uma vez: «Quem é que procuram?» Eles responderam: «Jesus o Nazareno.» 8Então Jesus afirmou novamente: «Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procuram, deixem ir estes em paz.»

9Assim se cumpria o que Jesus tinha dito: «Dos que me deste, não perdi nenhum.»

10Simão Pedro trazia com ele uma espada. Puxou dela e cortou a orelha direita a um criado do sumo sacerdote. O criado chamava-se Malco. 11Mas Jesus ordenou a Pedro: «Põe a espada no seu lugar. Não sabes que eu tenho de beber este cálice de amargura que o meu Pai me destinou18,11 Comparar com Mt 26,39; Mc 14,36; Lc 22,42.

12Então o destacamento dos soldados, com o seu comandante, e os guardas dos judeus agarraram Jesus e prenderam-no. 13Levaram-no primeiramente a Anás, sogro de Caifás, que nesse ano era o sumo sacerdote. 14Caifás é que tinha dado o seguinte conselho às autoridades judaicas: «É melhor que morra um só homem pelo povo18,14 Ver 11,49–50.

Pedro diz que não conhece Jesus

(Mateus 26,69–70; Marcos 14,66–68; Lucas 22,55–57)

15Simão Pedro e um outro discípulo seguiam atrás de Jesus. Aquele discípulo era bem conhecido do chefe dos sacerdotes e por isso entrou no pátio interior da sua casa juntamente com Jesus, 16enquanto Pedro ficou à porta, do lado de fora. O outro discípulo, o que era conhecido do sumo sacerdote, veio cá fora, falou à porteira e levou Pedro para dentro. 17Nisto, a porteira disse a Pedro: «Tu não és também um dos discípulos desse homem?» «Não sou, não!», respondeu ele.

18Como fazia frio, os criados da casa e os guardas tinham preparado uma fogueira e estavam a aquecer-se. Pedro juntou-se-lhes para se aquecer também.

Jesus diante do tribunal judaico

(Mateus 26,59–66; Marcos 14,55–64; Lucas 22,66–71)

19O chefe dos sacerdotes interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20Jesus respondeu-lhe: «Eu falei em público a toda a gente. Ensinei sempre nas sinagogas e no templo, onde se reúnem todos os judeus, e nunca disse nada em segredo. 21Por que é que me perguntas isso? Pergunta antes aos que ouviram as minhas palavras. Eles sabem o que eu disse.»

22Quando Jesus disse isto, um dos guardas do templo, que estava presente, deu-lhe uma bofetada e disse: «É assim que respondes ao sumo sacerdote?» 23Jesus replicou: «Se disse alguma coisa de mal, mostra onde está o mal. Mas se o que eu disse está certo, por que é que me bates?»

24Então Anás mandou-o preso para Caifás, que era sumo sacerdote.

Pedro volta a negar Jesus

(Mateus 26,71–75; Marcos 14,69–72; Lucas 22,58–62)

25Simão Pedro continuava junto da fogueira a aquecer-se. Disseram-lhe os outros: «Não és tu também um dos discípulos desse homem?» Pedro negou: «Não, não sou!» 26Um criado do chefe dos sacerdotes, que ainda era parente do homem a quem Pedro tinha cortado a orelha, dirigiu-se-lhe também: «Porventura não te vi eu com ele no olival?» 27Pedro negou outra vez, e nesse instante cantou o galo.

Jesus diante de Pilatos

(Mateus 27,1–2.11–14; Marcos 15,1–5; Lucas 23,1–5)

28Depois levaram Jesus da casa de Caifás ao palácio do governador romano. Já começava a amanhecer e para poderem celebrar a Páscoa, os judeus não entraram no palácio, porque as suas leis o proibiam. 29Por isso, o governador Pilatos veio cá fora para lhes falar e perguntar-lhes: «Que acusação têm contra este homem?» 30Eles responderam: «Se não fosse um criminoso, não to entregávamos.» 31Pilatos concluiu: «Então levem-no e julguem-no segundo as leis da vossa religião.» Os judeus replicaram: «Nós não podemos condenar ninguém à morte.» 32Assim se estava a cumprir o que Jesus tinha dito, quando falou sobre a maneira como devia morrer.

33Pilatos entrou novamente no palácio e chamou Jesus: «Tu és o rei dos judeus?» 34Ele respondeu: «Perguntas-me isso porque tu mesmo o pensaste ou foram os outros que to disseram de mim?» 35«Acaso sou eu judeu?», replicou Pilatos. «O teu povo e os chefes dos sacerdotes é que te entregaram a mim. Que é que tu fizeste?» 36Jesus respondeu-lhe: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos teriam lutado para eu não cair nas mãos das autoridades judaicas. Mas o meu reino não é daqui.» 37Nesta altura, Pilatos perguntou-lhe: «Mas então sempre és rei?» Jesus respondeu-lhe: «És tu que o dizes: eu sou rei. Nasci e vim ao mundo para dizer o que é a verdade. Todos os que vivem da verdade ouvem aquilo que eu digo.» 38Pilatos perguntou-lhe ainda: «Mas que é a verdade?»

Jesus condenado à morte

(Mateus 27,15–31; Marcos 15,6–20; Lucas 23,13–25)

Depois de fazer esta pergunta, Pilatos saiu outra vez do palácio para falar com os judeus: «Não encontro nenhum motivo para condenar este homem! 39É vosso costume que eu vos solte um preso todos os anos por altura da festa da Páscoa. Não querem que vos solte este ano o rei dos judeus?» 40Eles gritaram: «Não, esse não! Solta-nos Barrabás!» Ora Barrabás era um criminoso.

19

191Então Pilatos mandou prender e açoitar Jesus. 2Os soldados entrelaçaram uma coroa de espinhos que puseram na cabeça de Jesus. Depois colocaram-lhe aos ombros um manto vermelho19,2 Ver Mc 15,17.. 3Aproximavam-se e faziam pouco dele: «Viva o rei dos judeus!» E davam-lhe bofetadas.

4Uma vez mais, Pilatos saiu do palácio e foi dizer aos judeus: «Eu vou trazê-lo cá fora, para que saibam que não encontro nenhuma razão para o mandar matar.» 5Quando Jesus saiu do palácio, trazia a coroa de espinhos na cabeça e o manto vermelho pelos ombros. Pilatos disse aos judeus: «Aqui está o homem!» 6Quando os chefes dos sacerdotes e os guardas do templo o viram, começaram a gritar: «Crucifica-o! Crucifica-o!» Disse-lhes Pilatos: «Levem-no e crucifiquem-no vocês. Eu não encontro nenhuma razão para o condenar.» 7Os judeus responderam-lhe: «Nós temos uma lei, e segundo essa lei ele deve morrer, porque afirmou que era o Filho de Deus19,7 Comparar com Lv 24,16.

8Quando Pilatos ouviu estas palavras, ficou ainda com mais medo. 9Entrou outra vez no palácio e perguntou a Jesus: «Donde és tu?» Mas Jesus não respondeu. 10Admirado, Pilatos insistiu: «Não me falas? Não sabes que tenho autoridade para te soltar ou para te mandar crucificar?» 11Respondeu-lhe Jesus: «Não terias qualquer autoridade contra mim, se não te tivesse sido dada do alto. Por isso mesmo, quem me entregou a ti tem mais culpa diante de Deus do que tu.» 12Por causa destas palavras, Pilatos procurava todas as maneiras de o pôr em liberdade. Mas os judeus gritavam: «Se dás a liberdade a esse homem, não és amigo do imperador, pois todo aquele que se faz rei, é inimigo do imperador.» 13Pilatos, ao ouvir isto, levou Jesus para fora do palácio e sentou-o na cadeira de juiz, num lugar pavimentado com pedras e que por isso se chama em hebraico Gabatá.19,13 Gabatá. Palavra aramaica que designa um lugar um pouco elevado.

14Era o dia da Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia19,14 Era a partir do meio-dia que se imolavam no templo os cordeiros destinados à refeição da Páscoa.. Pilatos disse aos judeus: «Aqui está o vosso rei!» 15Mas eles gritaram: «Fora com ele! Fora com ele! Crucifica-o!» Pilatos tornou a questioná-los: «Então hei de crucificar o vosso rei?» Desta vez os chefes dos sacerdotes responderam-lhe: «Nós não temos outro rei a não ser o imperador!» 16Por fim, Pilatos entregou-lhes Jesus para ser crucificado.

Jesus crucificado

(Mateus 27,32–44; Marcos 15,21–32; Lucas 23,26–43)

Eles levaram Jesus. 17E ele, carregando ele próprio a cruz, saiu em direção a um lugar chamado Caveira, que em língua hebraica se diz Gólgota. 18Foi ali que o pregaram na cruz. E crucificaram com ele outros dois homens, um à esquerda e outro à direita de Jesus.

19Pilatos mandou escrever e colocar sobre a cruz um letreiro que dizia: Jesus o Nazareno, Rei dos judeus. 20Muitos judeus puderam facilmente ler este letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado era perto da cidade e o letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. 21Os chefes dos sacerdotes disseram a Pilatos: «Não escrevas “Rei dos judeus”, mas sim: “Este homem disse: Eu sou o Rei dos judeus”.» 22E Pilatos retorquiu: «O que escrevi, escrevi.»

23Os soldados, depois de terem crucificado Jesus, pegaram na roupa dele e dividiram-na em quatro partes, ficando cada um com uma parte19,23 A lei romana concedia aos algozes o direito de ficarem com os despojos dos condenados.. E havia também a túnica, feita de uma só peça de pano, sem costura. 24Os soldados disseram uns aos outros: «Não a vamos rasgar, mas tiremos à sorte para ver quem fica com ela.» Assim se cumpriu a passagem da Sagrada Escritura:

Repartiram as minhas roupas entre si

e tiraram sortes sobre a minha túnica19,24 Ver Sl 22,19..

Foi isto o que os soldados fizeram.

25Junto da cruz de Jesus estavam a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. 26Jesus viu a sua mãe e junto dela o discípulo que ele amava. E disse à sua mãe: «Mulher, aí tens o teu filho.» 27Depois disse ao discípulo: «Aí tens a tua mãe.» E, desde esse momento, aquele discípulo recebeu-a em sua casa.

Morte de Jesus

(Mateus 27,45–56; Marcos 15,33–41; Lucas 23,44–49)

28Depois disto, como Jesus sabia que a sua obra agora tinha chegado ao fim, exclamou para se cumprir o que diz a Sagrada Escritura: «Tenho sede19,28 Ver Sl 69,22; Comparar com 22,16.

29Havia ali uma vasilha cheia de vinagre19,29 Comparar com Sl 69,22.. Molharam19,29 Geralmente os tradutores partem do princípio que o sujeito do verbo molhar são os soldados (os soldados molharam a esponja no vinagre), mas o original grego nada diz. uma esponja no vinagre, ataram-na a uma cana, e chegaram-na à boca de Jesus. 30Ele provou o vinagre e disse então: «Tudo está cumprido.» Depois inclinou a cabeça e morreu19,30 Literalmente: entregou o espírito.. 31Como era a Preparação da Páscoa, e também o início do sábado — porque aquele sábado era muito solene19,31 A festa da Páscoa era móvel. Naquele ano calhou num sábado, razão pela qual o autor classifica aquele sábado de muito solene — os corpos dos condenados não deviam ficar na cruz. Por isso os chefes dos judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e retirar os corpos19,31 Os crucificados morriam de asfixia lenta. Quebrando-lhes as pernas deixavam de ter qualquer apoio e assim se lhes apressava a morte. Ver Dt 21,22–23.. 32De facto, os soldados foram e quebraram as pernas aos dois homens que tinham sido crucificados ao mesmo tempo que Jesus. 33Mas quando chegaram a Jesus, vendo que ele já tinha morrido não lhe quebraram as pernas. 34No entanto, um dos soldados espetou-lhe a lança no peito e imediatamente saiu sangue e água. 35Quem viu estas coisas dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro — e ele sabe que diz a verdade — para que também vocês acreditem.

36Estas coisas aconteceram para se cumprir a Sagrada Escritura que diz: Não lhe hão de quebrar nenhum osso19,36 Ver Ex 12,46; Nm 9,12; Sl 34,21.. 37E há ainda outra passagem da Escritura que diz: hão de contemplar aquele que trespassaram com uma lança19,37 Ver Zc 12,10..

Sepultura de Jesus

(Mateus 27,57–61; Marcos 15,42–47; Lucas 23,50–56)

38Depois disto, um homem chamado José, da cidade de Arimateia19,38 Ver Mt 27,57., pediu licença a Pilatos para retirar da cruz o corpo de Jesus. José era um discípulo de Jesus, mas às escondidas, porque tinha medo das autoridades judaicas. Pilatos deu-lhe licença. José foi então ao lugar da cruz e retirou o corpo. 39Nicodemos19,39 Ver 3,1–2., aquele homem que tinha ido ter com Jesus pela calada da noite, apareceu também com uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés. 40Levaram então o corpo de Jesus e envolveram-no com ligaduras de linho, perfumadas com os produtos que tinham preparado, como era costume entre os judeus ao sepultarem os mortos.

41No lugar onde Jesus foi crucificado havia uma propriedade com um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. 42Foi ali que puseram o corpo de Jesus, por causa do dia — a Preparação da Páscoa dos judeus — e porque o túmulo ficava perto e o dia do descanso19,42 Ver 19,31. dos judeus ia começar.