a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
18
(Bildad)

Os maus caem na armadilha

181Bildad, natural de Chua, replicou, dizendo:

2«Até quando nos vais atirar palavras de armadilha?

Compreende as coisas e depois falamos!

3Por que é que nos consideras como animais,

como animais desprezíveis para ti18,3 Segundo outros tradutores, nos v. 2–3, Bildad está a dirigir-se aos outros amigos de Job, que antes tinham falado.?

4Será que por ti a terra se vai despovoar

e os rochedos vão sair do seu lugar,

tu que, exaltado, te despedaças a ti mesmo?

5Olha que a luz do homem mau há de apagar-se,

a chama do seu fogo deixará de brilhar.

6Em sua casa, a luz vai escurecendo

e a lâmpada da sua vida extingue-se18,6 Comparar os v. 5–6 com 21,17.;

7os seus passos vigorosos vão-se encurtando

e é derrubado pelos seus próprios planos;

8cai na armadilha por seu próprio pé,

ele mesmo caminha para o perigo.

9O nó agarra-o pelo artelho,

os laços prendem-no com força.

10Escondido na terra, há um laço para ele,

uma armadilha no caminho, para o apanhar.

11Por todo o lado, os terrores o amedrontam e lhe travam o andar.

12A sua riqueza transforma-se em fome

e a desgraça é agora a sua companhia.

13A doença, filha primogénita da morte,

vai-lhe devorando pouco a pouco a pele e os membros.

14Será arrancado ao sossego da sua casa

e conduzido ao rei dos terrores da morte18,14 Personagem diferente de Deus que, segundo os mitos orientais, preside ao mundo dos mortos..

15Outro habitará na casa que foi sua

e espalhará enxofre sobre os seus bens18,15 Para alguns o enxofre tinha um papel purificador; para outros provocava a esterilidade das terras..

16As raízes que tinha hão de secar

e os ramos que produzira murcharão.

17Na sua terra, esquecer-se-ão dele,

deixará de ser recordado nas redondezas.

18Será atirado da luz para a escuridão

e desterrado para fora deste mundo.

19A sua família ficará sem filhos nem descendentes,

da sua casa ninguém sobreviveu.

20Ao saberem da sua sorte, a oriente e a ocidente,

todos ficarão admirados e dirão cheios de terror:

21“Vejam como acaba a casa do malvado,

a habitação daquele que não reconhece Deus!”»

19
(Job)

Há ainda uma esperança

191Job replicou então:

2«Até quando me vão atormentar

e ferir com as vossas palavras?

3Já por dez vezes me insultaram.

Não têm vergonha de me ultrajar assim?

4Se eu tivesse cometido algum erro,

isso diria respeito somente a mim.

5Mas já que me vêm acusar

e discutir comigo para me envergonhar,

6fiquem sabendo que foi Deus que me desorientou,

atirando sobre mim a sua rede.

7Se eu gritar injustiça, não obtenho resposta;

se peço socorro, ninguém me vem defender.

8Ele tapou-me o caminho, não consigo passar;

e cobre de escuridão o meu caminho.

9Tirou-me a minha coroa de honra,

levou-me a coroa que eu trazia na cabeça.

10Deixou-me completamente arruinado e desfeito,

tirou-me a esperança, como quem arranca uma planta.

11Voltou-se contra mim enfurecido

e tratou-me como um inimigo seu.

12As suas tropas vêm em força,

abrem caminho contra mim

e fazem cerco à volta da minha casa.

13Deus levou os meus familiares para longe de mim

e os meus amigos tratam-me como um estranho.

14Os meus parentes abandonaram-me

e os meus conhecidos esqueceram-se de mim.

15Os que moravam e serviam em minha casa

consideram-me como um estranho,

tornei-me para eles um desconhecido.

16Chamei o meu empregado e ele não respondeu,

tive que lhe pedir por favor.

17A minha mulher acha-me repugnante

e os meus próprios filhos não gostam de mim.

18Até as crianças me desprezam;

levanto-me e dizem mal de mim.

19Os que eram do meu grupo têm horror de mim,

aqueles de quem eu gostava voltaram-se contra mim.

20Os meus ossos estão colados à pele

e os dentes saem descarnados das gengivas.

21Intercedam por mim, meus amigos,

intercedam por mim,

porque a mão de Deus foi muito dura para comigo.

22Por que é que me perseguem, como Deus?

Não ficam satisfeitos sem me devorar?

23Oxalá as minhas palavras pudessem ser escritas

e gravadas numa inscrição ou num livro!

24Quem me dera que fossem gravadas a ferro e chumbo,

para ficarem eternamente marcadas na pedra!

25Eu sei que o Deus da vida é o meu libertador

e ele tem a última palavra contra a morte19,25 Ou: Mas eu sei que ainda tenho vivo um defensor, que há de finalmente levantar-se contra a morte. Ver 16,19.

26E, depois de assim se ter desfeito a minha pele,

de novo vivo19,26 Ou: mesmo descarnado., poderei ver a Deus.

27Hei de vê-lo a meu favor,

hei de vê-lo com os meus olhos, sem estranhar.

O meu coração anseia por que isso aconteça.

28Podereis dizer: “Como é que o vamos perseguir?

Mas a raiz da questão está em mim19,28 Ou: Que motivo de acusação podemos encontrar nele?

29Mas temam a Deus que, com a espada do seu furor,

vos pode castigar pelos vossos crimes.

E ficarão a saber que Deus faz justiça.»

20
(Sofar)

O criminoso tem o seu castigo

201Sofar de Naamá interveio então dizendo:

2«As minhas reflexões levam-me a responder,

porque estou realmente impressionado.

3Estive a ouvir a tua exposição brilhante

e vou procurar responder com espírito de compreensão.

4Não sabes que é assim desde o princípio,

desde que a Humanidade existe neste mundo?

5Que a satisfação dos maus não vai longe

e a felicidade dos ímpios é passageira?

6Ainda que se levante orgulhoso até ao céu,

até tocar com a cabeça nas nuvens,

7há de desaparecer como esterco;

quem o procurar não saberá onde ele está.

8Desaparece como um sonho que ninguém encontra

e foge como uma visão noturna20,8 Ver Sl 90,5..

9Os olhos que o viam já não o veem mais,

nem sequer veem o lugar onde ele estava.

10Ele é obrigado a restituir a sua riqueza,

os seus filhos têm de reembolsar os pobres.

11Estava cheio de força e de juventude,

mas tudo isso jaz com ele no pó da terra.

12A maldade agradava-lhe ao paladar,

escondia-a debaixo da língua;

13guardava-a bem, sem a deixar cair,

conservando-a colada ao céu da boca.

14Mas no seu estômago, esse alimento

transforma-se em veneno de víbora.

15As riquezas que engoliu tem de as vomitar,

Deus obriga-o a deitá-las fora.

16Chupava veneno de víbora,

a mordidela da serpente dar-lhe-á a morte.

17Não encontrará enchentes de azeite,

nem rios de mel e de manteiga.

18Tem que devolver os seus lucros sem os consumir

e o fruto do seu trabalho sem chegar a saboreá-lo.

19Explorou os pobres e deixou-os ao abandono,

apoderou-se de casas que não tinha construído.

20Não teve um momento de sossego,

nada escapou à sua ambição.

21Ninguém escapou à sua ganância;

por isso, o seu bem-estar não pode durar muito.

22Depois de se encher de riquezas, sente-se angustiado

cai sobre ele a aflição20,22 Ou: caem sobre ele as mãos dos oprimidos..

23Deus faz com que ele encha a barriga:

manda sobre ele a chama ardente da sua ira

e rega-o com a chuva do seu fogo abrasador!

24Ao fugir das armas de ferro,

é atravessado por um arco de bronze20,24 Comparar com Is 24,18; Am 5,19..

25Uma flecha sai-lhe pelas costas

e outra brilha a sair-lhe do fígado:

são os terrores da morte a cair sobre ele.

26Espera-o a escuridão total,

devora-o um fogo misterioso,

que destrói os restos da sua morada.

27Os céus revelarão os seus crimes

e a terra levanta-se para o acusar.

28Que a inundação arraste a sua casa,

no dia em que Deus deixar correr em torrentes

o furor do seu castigo.

29Esta é a sorte que Deus destina aos maus,

o castigo que Deus determinou para eles.»