a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
5

Volta-te para Deus

51«Grita, para ver se alguém te responde!

Para qual dos santos5,1 Santo. Aqui significa qualquer ser celeste que possa valer a Job. te vais voltar?

2O insensato revolta-se e morre por causa disso;

o ignorante é invejoso e por isso está condenado.

3Já vi um insensato a prosperar,

mas amaldiçoei logo a sua família:

4“Que os seus filhos fiquem sem ajuda

e sejam maltratados no tribunal, à porta da cidade,

sem ninguém que os defenda.

5Que a sua colheita seja devorada pelos esfomeados

e lhe seja roubada, apesar da sebe de espinhos;

que os gananciosos se apoderem da sua riqueza.”

6Pois a injustiça não nasce da terra

nem a miséria brota do chão.

7É do próprio homem que nasce a miséria,

como centelhas a saltar do fogo e voando pelo ar.

8Se fosse eu, voltava-me para Deus

e contava-lhe as minhas preocupações.

9Ele faz maravilhas insondáveis

e prodígios que não têm conta.

10Dá a chuva à terra,

manda a água para regar os campos;

11faz levantar os humildes

e dá segurança aos aflitos;

12desfaz os planos dos astuciosos

e não conseguem o resultado pretendido.

13Apanha os espertos na sua esperteza5,13 Ver 1 Co 3,19.

e os seus planos perversos caem por terra.

14De dia, só acharão escuridão,

e ao meio-dia, andarão às apalpadelas como de noite.

15Assim salva Deus o pobre da espada afiada,

da língua e do poder dos prepotentes.

16Para os fracos há motivos de esperança,

enquanto os criminosos têm de calar a boca.

17Feliz o homem que aceita que Deus o corrija

e não despreza o castigo do Todo-Poderoso5,17 Ver Pv 3,11; Hb 12,5–6..

18Pois se Deus faz uma ferida, ele mesmo a trata

e para o golpe que faz, ele mesmo dá a cura5,18 Comparar com Os 6,1..

19Deus livra-te de muitas aflições

e nenhum mal te atingirá.

20Em tempo de fome, salva-te da morte

e na guerra livra-te da espada.

21Evita que sejas açoitado pelas más línguas

e não terás medo diante de nenhuma desgraça.

22Poderás rir-te da desgraça e da fome

e não temerás as feras selvagens.

23Farás aliança com as pedras do campo

e os animais selvagens deixar-te-ão em paz.

24Então verás que a tua casa está em segurança

e que nas tuas pastagens nada te falta.

25Terás a certeza de que os teus descendentes

serão tantos como os rebentos na erva do campo.

26Descerás ao sepulcro sem ter perdido as forças,

como um feixe de trigo maduro, na altura própria.

27É isto que temos como certo e provado.

Presta, portanto, atenção e tem-no em conta.»

6
(Job)

Queixas contra os seus amigos

61Job respondeu:

2«Se alguém quisesse pesar o meu penar

e colocar juntamente a minha desgraça numa balança,

3veria que é mais pesada que a areia do mar.

Por isso, as minhas palavras se descontrolam!

4As flechas do Todo-Poderoso voltaram-se contra mim

e tive de suportar o seu veneno;

Deus desencadeou contra mim males terríveis.

5Será que o burro selvagem zurra diante da sua erva

ou o boi muge diante da sua comida?

6Mas quem é que suporta uma comida sem sal,

quem encontra gosto em algo insípido6,6 Ou: quem gosta da clara de ovo crua??

7Não sou eu que me atrevo a tocar-lhes;

para mim, é como se fosse comida estragada.

8Só queria que Deus me respondesse a um pedido

e realizasse este meu desejo:

9que Deus se dignasse esmagar-me,

que me retirasse a sua proteção e me destruísse!

10Mesmo assim, eu teria ainda conforto;

mesmo torturado sem piedade, saltaria de alegria,

por não ter renegado as palavras do Deus santo.

11Que forças me restam para resistir?

Que futuro espero eu, para ter paciência?

12Será que tenho a resistência das pedras?

Será que o meu corpo é feito de bronze?

13Já não tenho em mim mais recursos6,13 Ou: Ainda que os meus recursos fossem cem vezes mais.;

o sucesso está fora do meu alcance.

14Quem recusa ao seu amigo a misericórdia,

abandona o temor do Todo-Poderoso6,14 O texto hebraico do v. 14 é de compreensão particularmente difícil. Desde a antiguidade que as traduções variam sensivelmente. Ou: O doente precisa da compreensão de um amigo, para não perder a fé no Todo-Poderoso..

15Mas os meus amigos enganaram-me,

como um ribeiro que ficou sem água.

16Primeiro, correm cheios a transbordar

com os restos do degelo e da neve,

17mas quando o tempo aquece, eles baixam

e, com o calor, desaparecem completamente.

18Por isso, as caravanas desviam-se do seu caminho,

entram pelo deserto dentro e perdem-se.

19As caravanas de Temá6,19 Temá. Oásis no norte da Arábia. Sobre Sabá, ver nota a 1,15. procuram descobri-lo,

os viajantes de Sabá vão à sua procura,

20mas as suas esperanças ficam desiludidas;

ao aproximarem-se sentem-se desapontados.

21Também vocês me não valeram de nada;

viram os meus males e ficaram cheios de medo.

22Pedi-vos porventura alguma coisa?

Pedi-vos que me dessem parte da vossa riqueza,

23que me libertassem do inimigo

ou me resgatassem dos opressores?

24Instruam-me que eu quero ouvir em silêncio;

mostrem-me em que é que eu errei.

25Como é que uma palavra verdadeira podia ser dura?

Como é que um aviso vosso me podia ferir?

26Querem porventura criticar as minhas palavras?

Mas as palavras de um desesperado são como o vento!

27Vocês seriam capazes de jogar um órfão aos dados

e de vender até um dos vossos amigos.

28Mas olhem para mim, por favor!

Vejam que não estou a mentir na vossa cara.

29Mais uma vez, por favor, e sem fingimento,

mais uma vez, que está em causa a minha inocência:

30será que nas minhas palavras há mentira?

Será que eu não sei expor a verdade?»

7

Job queixa-se de Deus

71«O homem está na terra a cumprir duro serviço,

os seus dias são semelhantes aos de um assalariado.

2Como um escravo, suspira pela sombra,

como um assalariado, anseia pela paga.

3A sorte que me coube foram meses a esperar em vão,

o que me deram foram noites e noites de sofrimento.

4Quando me deito, penso:

“Quando conseguirei levantar-me?”

A noite é longa e farto-me de dar voltas até de manhã.

5O meu corpo está coberto de vermes e pó,

a minha pele, cheia de chagas purulentas.

6Os meus dias passam mais rápidos que uma lançadeira7,6 Peça de tear que o tecelão mexia com toda a rapidez.

e chegam ao fim sem qualquer esperança7,6 Ou: acaba-se o fio e chegam ao fim..

7Lembra-te de que a minha vida é como o vento

e nunca mais voltarei a ver a felicidade.

8Quem olhar para mim deixará de me ver,

porque o teu olhar caiu sobre mim e me aniquilou.

9Como nuvem que se desfaz e desaparece,

também o que desce ao sepulcro não volta a subir.

10Não regressa mais à sua casa

e a sua morada nunca mais o reconhecerá.

11Por isso, não vou deixar de falar;

falarei da angústia que me oprime,

darei a conhecer a minha amargura.

12Serei eu o mar ou outro monstro marinho,

para te pores de guarda contra mim7,12 Possível alusão a antigas tradições orientais sobre a criação, segundo as quais o Deus Criador, depois de ter dominado o oceano e os monstros marinhos, os mantém submissos ao seu poder. Comparar com Is 27,1; Sl 74,13.?

13Ainda pensei que, se me deitasse, estaria sossegado,

que isso aliviaria as minhas queixas.

14Mas tu aterrorizas-me com pesadelos,

fazes-me ver coisas que me metem medo,

15de modo que eu preferia morrer estrangulado

a viver com este meu horrível esqueleto7,15 Ou: a ter de passar por estes sofrimentos..

16Não posso viver para sempre;

deixa-me, que os meus dias não passam de uma ilusão!

17Que é um homem para lhe dares importância,

para fixares nele a tua atenção7,17 Comparar com Sl 8,5; 144,3.?

18Por que o vens revistar todos os dias

e continuamente o pões à prova?

19Por que é que não desvias de mim o olhar

e nem sequer me deixas engolir a saliva?

20Que mal fiz eu contra ti, ó juiz da Humanidade?

Por que me escolheste para teu alvo?

Será que me tornei um peso para ti, ó Deus altíssimo?

21Por que não perdoas tu o meu pecado

e não fazes desaparecer a minha culpa?

Em breve estarei no sepulcro

e, se então me procurares, não me encontras.»