a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
1

Jerusalém é como uma viúva desprotegida

(Álefe)

11Como ficou solitária1,1 A palavra hebraica correspondente é característica do género de Lamentações. Ver 2,1; 4,1. esta cidade,

ela que antes era tão populosa!

Não é mais que uma viúva

ela que era poderosa entre as nações;

dominava as províncias, qual princesa,

e ficou sujeita ao tributo1,1 Os quatro primeiros capítulos do livro das Lamentações são poemas cujos versículos seguem a ordem do alfabeto hebraico. A primeira letra de cada versículo (cap. 1–2 e 4), ou de cada estrofe (cap. 3) correspondem sucessivamente às vinte e duas letras do alfabeto hebraico..

(Bete)

2Hoje passa a noite a chorar;

as suas lágrimas rolam-lhe pela face;

dentre tantos que a amavam,

não ficou ninguém para a confortar.

Os seus amigos atraiçoaram-na

e fizeram-se seus inimigos.

(Guimel)

3Judá partiu para o exílio,

na miséria e com o peso da escravidão;

vive agora com os pagãos

sem ter onde repousar;

os que a perseguem apoderaram-se dela,

apanhando-a num beco sem saída.

(Dálete)

4As estradas para Sião estão de luto

porque ninguém faz mais peregrinações;

os seus habitantes já não se aglomeram nas praças públicas

e os sacerdotes não param de lamentar-se;

as moças casadoiras vivem sem esperança:

toda a cidade está mergulhada na amargura.

(Hê)

5Ela é agora governada pelos inimigos,

que vivem satisfeitos e tranquilos;

é o Senhor que a faz sofrer

por causa das suas muitas transgressões;

os seus filhos, levados pelo inimigo

tiveram de partir para o exílio.

(Vau)

6Desapareceu da filha de Sião

todo o seu encanto,

os seus príncipes parecem veados

que não encontram pastagens;

sentem faltar-lhes as forças

de tanto fugir dos caçadores.

(Zaiin)

7Agora que vive em aflição e angústia

Jerusalém põe-se a lembrar

tantas coisas preciosas que possuía

em dias que já lá vão;

agora que os seus habitantes caíram nas mãos do inimigo,

e ninguém vem em seu auxílio,

esses mesmos inimigos a contemplam

e escarnecem da sua miséria.

(Hete)

8Jerusalém cometeu faltas bem graves

que a tornaram repelente1,8 Literalmente: impura..

Quem antes a respeitava agora despreza-a,

porque a veem nua;

ela própria geme

e esconde-se envergonhada.

(Tete)

9A imundície cobre-lhe a roupa;

ela não previa o fim que a esperava

mas caiu tragicamente.

Ninguém lhe dá conforto e ela exclama:

«Senhor, olha para a minha miséria!

e para o triunfo dos meus inimigos!»

(Jode)

10Sim, o inimigo lançou a mão

a todas as suas riquezas;

com os seus próprios olhos ela viu

os pagãos a entrarem no santuário,

apesar de tu, Senhor, teres proibido

que entrassem na assembleia do teu povo.

(Cafe)

11Os seus habitantes gemem

e buscam pão para comer;

trocaram os seus tesouros por comida,

para poderem recuperar as forças.

Ela pede: «Ó Senhor, olha para mim,

vê como eu sou desprezada.

(Lâmede)

12“Venham ver quanto eu sofri,

todos os que por aqui passais!

Não há dor igual a esta,

que o Senhor me provocou,

no dia em que se irritou contra mim.

(Mem)

13De lá de cima mandou fogo

que entrou nos meus ossos;

pôs uma armadilha aos meus pés

que me fez cair no chão;

fiquei assim destruída

e infeliz para sempre.

(Num)

14Pela sua própria mão ele fez um feixe

com todas as minhas transgressões

e atou-mas ao pescoço como jugo1,14 Segundo a antiga tradução grega.;

o Senhor paralisou as minhas forças

e entregou-me aos adversários;

não consigo manter-me em pé.

(Sâmeque)

15O Senhor reduziu ao desprezo

os meus bravos soldados;

ele mobilizou um exército contra mim

para derrotar os meus homens;

calcou-me aos pés como se faz às uvas,

a mim, jovem casadoira de Judá.”

(Aiin)

16Agora choro por tudo o que me aconteceu;

os meus olhos não param de verter lágrimas;

quem podia consolar-me e dar-me novas forças

está muito longe de mim;

os meus filhos estão perdidos,

o inimigo foi mais forte e venceu.»

(Pê)

17Sião estende as suas mãos em desespero:

mas não há quem a console;

por ordem do Senhor, os vizinhos de Israel

tornaram-se seus inimigos;

no meio deles, Jerusalém ficou

como imundície desprezível.

(Tsadê)

18«Mas o Senhor tem razão,

porque eu não aceitei as suas ordens!

Oiçam o que vos digo, ó nações,

e sejam testemunhas do meu sofrimento;

as minhas filhas e os meus jovens foram para o exílio.

(Cofe)

19Chamei pelos que me amavam,

mas eles atraiçoaram-me;

os meus sacerdotes e conselheiros

caíram mortos na cidade,

enquanto procuravam encontrar comida,

para poderem recuperar as forças.

(Reche)

20Senhor, vê como estou angustiada

e consumida pelo desespero.

As minhas entranhas revoltam-se,

ao pensar como tenho sido rebelde.

Na rua, a espada matou-me os filhos;

em casa, estou rodeada de mortos.

(Chin)

21Muitos me ouviram suspirar,

mas ninguém veio acudir-me.

Os inimigos souberam da minha desgraça

e alegraram-se pelo que me fizeste.

Faz agora raiar o dia que anunciaste,

em que eles terão a mesma sorte que eu.

(Tau)

22Olha para a sua maldade

e faz-lhes também a eles

o que me fizeste a mim,

por causa das minhas transgressões.

Repara como os meus suspiros são muitos,

e o meu coração desfalece.»

2

O Senhor fez-se inimigo de Jerusalém

(Álefe)

21Eis como o Senhor, na sua ira,

continua a cobrir Jerusalém de escuridão!

Deitou por terra o esplendor de Israel,

que se erguia para o céu;

no dia da sua ira, esqueceu-se

que Sião era o estrado para os seus pés2,1 Referência ao templo de Jerusalém. Ver Sl 99,5..

(Bete)

2O Senhor destruiu sem misericórdia

as habitações do seu povo;

no auge da sua ira,

derribou as fortalezas de Judá;

deitou-as completamente por terra;

e destruiu o reino e os seus príncipes.

(Guimel)

3Na sua cólera intensa,

abateu o poderio de Israel.

E recusou-se a intervir,

quando apareceu o inimigo.

Consumiu o seu povo

como o fogo que tudo devora.

(Dálete)

4Qual inimigo, esticou bem o arco,

com a mão direita pronta a disparar;

comportou-se como nosso adversário,

destruindo o que mais estimávamos.

Qual fogo avassalador

pôs em escombros o templo de Jerusalém2,4 Ou: as casas de Jerusalém..

(Hê)

5Sim, o Senhor parecia nosso inimigo

quando aniquilou a Israel,

derribou os seus palácios

e deitou por terra as suas fortalezas;

e obrigou o povo de Judá

a gemer e a lamentar-se sem cessar.

(Vau)

6O seu templo ficou como um pomar devastado,

a sua sala de culto foi deitada por terra.

O Senhor fez com que se esquecessem

dos sábados e das festas de Sião.

No auge da sua ira,

repudiou o rei e os sacerdotes.

(Zaiin)

7O Senhor não quer mais o seu altar

e abandonou o seu santuário,

ao entregar nas mãos dos inimigos

as paredes dos palácios de Sião.

A algazarra que eles faziam no templo do Senhor era tanta

que até parecia um dia de festa.

(Hete)

8O Senhor decidiu destruir

os muros de Jerusalém.

Ele estendeu a linha de nivelar

e não parou de demolir.

Cobriu de luto as ameias e os muros

e ficou tudo destruído.

(Tete)

9Os portões caíram por terra;

os seus fechos foram despedaçados.

O rei e a corte foram presos pelos pagãos.

Reina a anarquia,

pois até os seus profetas

já não recebem mensagens do Senhor.

(Jode)

10Em silêncio sentam-se no chão,

os chefes de Jerusalém.

Deitam terra sobre as suas cabeças

e vestem-se de luto.

As jovens de Jerusalém andam pela rua

de cabeça baixa, envergonhadas!

(Cafe)

11Os meus olhos estão cansados de chorar,

e as minhas entranhas revoltam-se.

O meu desespero é imenso

por causa da ruína do meu povo.

Crianças e bebés morrem de sede

nas praças da cidade.

(Lâmede)

12As crianças pedem às mães:

«Não tens nada para eu matar a fome e a sede?»

Como feridas mortalmente, desfalecem

pelas praças da cidade,

soltando o último suspiro

ao colo das suas mães.

(Mem)

13Que mais te posso dizer, ó Jerusalém?

Não há desgraça igual à tua!

Que casos semelhantes te posso recordar,

para te poder confortar, ó jovem cidade de Sião.

A tua calamidade é tão grande como o mar.

Quem te poderá trazer a cura?

(Num)

14Os teus profetas dirigiram-te

mensagens enganosas e falsas.

Não desmascararam a tua maldade,

para que a tua sorte fosse diferente.

Pelo contrário, as mensagens que te dirigiam

só te atiravam terra aos olhos.

(Sâmeque)

15Aqueles que passam perto de ti

aplaudem a tua ruína.

Assobiam e abanam a cabeça

fazendo troça de ti, Jerusalém:

«Será esta, aquela cidade tão bela,

que era o orgulho de toda a terra?»

(Pê)

16Os que querem o teu mal

abrem a boca para te provocar.

Assobiam-te e mostram-te os dentes.

Dizem: «Dêmos cabo dela!

O dia que esperávamos há tanto tempo,

ele aí está finalmente!»

(Aiin)

17O Senhor fez o que tinha decidido

e cumpriu a ameaça,

que há muito tinha anunciado.

Demolindo assim sem piedade,

encheu o inimigo de alegria com a tua ruína

e fortaleceu o seu orgulho.

(Tsadê)

18Que os teus lamentos e gemidos, ó Jerusalém,

subam até ao Senhor!

Não cesses de chorar, dia e noite;

deixa correr as lágrimas como um rio.

Não procures reconfortar-te,

antes, dá largas ao teu pranto!

(Cofe)

19Levanta-te e enche a noite,

hora a hora, com os teus lamentos.

Abre inteiramente o teu coração

na presença do Senhor.

Estende para ele as mãos em súplica,

para que os teus filhos vivam,

eles que morrem de fome

às esquinas de todas as ruas.

(Reche)

20Olha, Senhor! Repara bem

a quem estás a tratar assim.

As mulheres chegaram ao ponto de comer

os filhos que elas geraram e criaram!

E os sacerdotes e profetas

foram mortos no teu santuário!

(Chim)

21Os jovens e os velhos

jazem lado a lado nas ruas.

Os meus filhos e filhas

caíram mortos à espada.

Mataste-os, dando largas à tua indignação,

dizimaste-os sem piedade.

(Tau)

22Convidaste aqueles que me eram hostis

como se se tratasse de um dia de festa.

Nesse dia, o teu furor fez-se sentir

e não houve sobreviventes, ninguém escapou.

Os filhos que eu eduquei e vi crescer,

foram exterminados pelo inimigo.