a BÍBLIA para todos Edição Católica (BPTct)
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A tradição dos antigos

(Mateus 15,1–9)

71Um dia, encontraram-se com Jesus os fariseus e uns tantos doutores da lei vindos de Jerusalém. 2Eles repararam que alguns dos discípulos de Jesus comiam pão sem primeiro cumprir a cerimónia de lavar as mãos.

3É que todos os judeus, e de modo especial os fariseus, nunca comem sem lavar bem as mãos, conforme o costume dos antigos7,3 O costume dos antigos compreendia estes preceitos e práticas que os rabis tinham acrescentado à Lei de Moisés. Comparar com Lc 11,38.. 4Quando vêm do mercado não comem sem se lavarem. E há muitas outras tradições que eles transformaram em leis e cumprem rigorosamente, tais como certa maneira de lavar os copos, as loiças de barro e de cobre.

5Por isso, os fariseus e os doutores da lei perguntaram a Jesus: «Por que é que os teus discípulos não seguem o costume dos antigos, mas comem sem lavar as mãos?» 6E Jesus respondeu-lhes: «Razão tinha Isaías quando profetizou acerca de vós, hipócritas, conforme está escrito:

Este povo honra-me com palavras,

mas o seu coração está longe de mim.

7É em vão que eles me adoram,

pois ensinam doutrinas

que não passam de regras feitas pelos homens7,7 Ver Is 29,13 citado segundo a antiga tradução grega dos Setenta..

8Para obedecerem aos ensinamentos dos homens desprezam o mandamento de Deus.» 9E acrescentou: «Facilmente põem de parte a lei de Deus, só para manterem a vossa tradição. 10Moisés, de facto, ensinou: Honra o teu pai e a tua mãe. E disse também: Aquele que falar mal do pai ou da mãe será condenado à morte7,10 Ver Ex 20,12; Dt 5,16; Ex 21,17; Lv 20,9.. 11Todavia ensinam que se alguém tiver bens para ajudar o pai ou a mãe, mas declarar esses bens como oferta exclusiva a Deus, 12nesse caso, já o dispensam da obrigação de ajudar o pai ou a mãe. 13Desta maneira, anulam a palavra de Deus trocando-a pelas tradições que receberam dos vossos pais. E fazem muitas outras coisas deste género.»

O que torna as pessoas impuras

(Mateus 15,10–20)

14Jesus chamou outra vez o povo para lhe dizer: «Escutem todos e procurem compreender. 15Não são as coisas que entram numa pessoa que a tornam impura, mas sim as que saem dela. 16Quem tem ouvidos, preste atenção7,16 Este versículo não se encontra em diversos manuscritos antigos.

17Quando Jesus se despediu da multidão e voltou para casa, os discípulos perguntaram-lhe o que é que ele queria dizer com aquela parábola. 18E ele explicou-lhes: «São assim tão incapazes de compreender? Então não veem que não é o que a pessoa ingere que a pode tornar impura? 19Porque isso não lhe entra na alma, mas vai para o estômago e depois sai.» Jesus mostrou com isto que todos os alimentos são próprios para comer7,19 Comparar com At 10,9–16.. 20E disse mais: «Aquilo que vem de dentro das pessoas é que as torna impuras. 21Do seu íntimo vêm os maus pensamentos e tudo o que as leva à imoralidade, ao roubo, ao crime, 22ao adultério, à avareza, à malícia, à mentira, à devassidão, à inveja, à calúnia, ao orgulho e à loucura. 23Todos esses males vêm do íntimo das pessoas e é isso que as torna impuras.»

Fé de uma estrangeira

(Mateus 15,21–28)

24Saindo dali, Jesus foi para os arredores da cidade de Tiro. Entrou numa casa e não queria que ninguém soubesse onde ele estava. Mas não conseguiu esconder-se. 25Uma certa mulher, que tinha uma filha com um espírito mau, ouviu falar de Jesus, procurou-o e foi ajoelhar-se aos seus pés. 26Ela era estrangeira de origem fenícia. Pediu a Jesus que expulsasse da filha o espírito mau, 27mas ele respondeu-lhe: «Deixa primeiro que os filhos fiquem satisfeitos. Não está certo pegar no pão dos filhos e lançá-lo aos cães.» 28E ela insistiu: «Sim, Senhor, mas também os cães comem debaixo da mesa as migalhas que os filhos deixam cair.» 29Então Jesus concluiu: «Dizes muito bem! Podes voltar para casa porque o espírito mau já saiu da tua filha.»

30Quando a mulher chegou a casa encontrou a menina deitada a descansar. O espírito mau já tinha saído dela.

Cura de um surdo e mudo

31Jesus saiu da região de Tiro, passou por Sídon, seguiu em direção ao lago da Galileia e dali para o território das Dez Cidades. 32Trouxeram-lhe então um surdo que também falava com dificuldade e pediram a Jesus que pusesse as mãos sobre ele para o curar. 33Jesus afastou-se da multidão, levou-o consigo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe na língua com saliva. 34Em seguida, levantou os olhos ao céu, suspirou e disse: Efatá7,34 Efatá. Palavra aramaica., que quer dizer, «abre-te». 35Os ouvidos do homem abriram-se imediatamente, a língua desprendeu-se e ele começou a falar bem. 36Jesus disse a todos os que ali estavam que não espalhassem a notícia. Mas quanto mais ele dizia que não falassem mais eles contavam o que tinha acontecido. 37Estavam todos muito impressionados e diziam: «Tudo quanto ele tem feito é maravilhoso. Até põe os surdos a ouvir e os mudos a falar.»

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Jesus dá de comer a cerca de quatro mil pessoas

(Mateus 15,32–39)

81Pouco tempo depois, juntou-se outra vez em volta de Jesus uma grande multidão. Quando já não havia comida, Jesus chamou os discípulos e disse: 2«Estou com pena desta gente que anda comigo há três dias e não tem nada para comer. 3Se os mando para casa com fome vão cair de fraqueza pelo caminho. E alguns vieram de longe.» 4Mas os discípulos responderam-lhe: «Aonde é que vamos buscar pão para tanta gente neste lugar deserto?» 5Jesus perguntou: «Quantos pães têm aí?» E eles responderam: «Sete.»

6Então Jesus mandou o povo sentar-se no chão. Pegou nos sete pães, agradeceu a Deus, partiu-os, e ia-os dando aos discípulos para os distribuírem pelo povo. E eles assim fizeram. 7Também tinham alguns peixes que igualmente agradeceu e entregou aos discípulos para os distribuírem. 8Todos comeram até ficarem satisfeitos e ainda se recolheram sete cestos com os pedaços que sobraram. 9Eram cerca de quatro mil pessoas.

Depois Jesus mandou o povo embora, 10entrou no barco com os discípulos e foi para a região de Dalmanuta8,10 Dalmanuta. Localidade desconhecida..

Sinais do poder de Jesus

(Mateus 16,1–4)

11Chegaram os fariseus e puseram-se a discutir com Jesus. Queriam que ele lhes desse uma prova, que fizesse qualquer sinal vindo do céu. 12Jesus suspirou profundamente e disse: «Por que é que esta gente me pede um milagre? Digo com toda a franqueza que não lhes vou fazer nenhum sinal.» 13Então deixou-os, tornou a entrar no barco, e foi para a outra banda do lago.

O fermento dos fariseus e de Herodes

(Mateus 16,5–12)

14Os discípulos esqueceram-se de levar comida e só tinham um pão no barco. 15Então Jesus recomendou-lhes: «Tenham cuidado com o fermento dos fariseus e do rei Herodes16E os discípulos discutiam entre si porque pensavam que Jesus tinha dito aquilo por eles não terem pão.

17Jesus apercebeu-se e disse: «Por que é que estão a discutir por não terem pão? Não percebem nem entendem? Têm o coração tão endurecido? 18Se têm olhos e ouvidos, por que é que não veem nem ouvem? Não se lembram? 19Quando parti os cinco pães para dar de comer a cinco mil pessoas quantos cestos recolheram com sobras?» «Doze8,19 Ver 6,35–44.», disseram eles. 20«E quantos recolheram quando parti os sete pães para quatro mil pessoas?» «Sete8,20 Ver 8,1–9.», responderam. 21E Jesus acrescentou: «Então ainda não compreendem?»

Cura de um cego em Betsaida

22Jesus e os discípulos chegaram a Betsaida. Trouxeram um cego e pediram a Jesus que lhe tocasse. 23Ele pegou na mão do cego e levou-o para fora da povoação. Depois chegou-lhe saliva aos olhos, colocou as mãos sobre ele e perguntou: «Vês alguma coisa?» 24O homem abriu os olhos e disse: «Vejo sim, vejo pessoas que parecem árvores a caminhar!» 25Jesus pôs-lhe outra vez as mãos nos olhos e quando o homem voltou a abri-los já via perfeitamente tudo quanto estava em volta. 26Mandou-o para casa e disse-lhe que não entrasse de novo na povoação.

Pedro declara que Jesus é o Messias

(Mateus 16,13–20; Lucas 9,18–21)

27Jesus foi depois com os discípulos para as aldeias da região de Cesareia de Filipe8,27 Ver Mt 16,13 e nota. e pelo caminho perguntou-lhes: «Quem diz o povo que eu sou?» 28E eles responderam: «Uns dizem que tu és João Batista, outros, que és Elias, e outros ainda, que és um dos profetas29Jesus acrescentou: «E vocês, quem acham que eu sou?» «Tu és o Messias!», respondeu Pedro. 30Jesus ordenou-lhes que não dissessem isso a ninguém.

Jesus fala da sua morte e ressurreição

(Mateus 16,21–28; Lucas 9,22–27)

31Jesus começou então a ensinar aos discípulos: «É preciso que o Filho do Homem sofra muito, seja rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos doutores da lei; que seja morto e depois de três dias ressuscite.»

32Jesus falava abertamente sobre o assunto. Mas Pedro chamou-o à parte e começou a censurá-lo por dizer aquilo. 33Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu Pedro: «Sai da minha frente, Satanás! Só percebes as coisas humanas e não as de Deus.»

34Depois chamou a multidão, juntamente com os discípulos, e disse: «Se alguém quiser acompanhar-me, renuncie-se a si mesmo, pegue na sua cruz e siga-me. 35Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a vida, por causa de mim e do evangelho, a salvará. 36Pois que proveito tem alguém em ganhar o mundo inteiro e perder a vida? 37Que poderá uma pessoa dar em troca da sua vida?

38Portanto, se alguém dentre esta gente infiel e pecadora tiver vergonha de mim e do que eu ensino, também o Filho do Homem, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos, terá vergonha dessa pessoa.»

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91E disse mais: «Prestem bem atenção: alguns dos que aqui estão presentes não morrerão sem verem chegar o reino de Deus com poder.»

Transfiguração de Jesus

(Mateus 17,1–13; Lucas 9,28–36)

2Seis dias depois, Jesus subiu a uma montanha e levou com ele apenas Pedro, Tiago e João. Lá em cima, o seu aspeto transformou-se diante deles. 3A roupa que tinha ficou brilhante, extremamente branca como ninguém no mundo seria capaz de a branquear assim. 4Nisto, os discípulos viram Elias e Moisés a conversar com Jesus. 5Então Pedro disse: «Mestre, é tão bom estarmos aqui! Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.» 6Pedro nem sabia o que dizia. É que os discípulos estavam cheios de medo. 7Depois apareceu por cima deles uma nuvem que os envolveu na sua sombra. E dessa nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho querido. Oiçam o que ele diz9,7 Ver 1,11. Comparar com Sl 2,7; Is 42,1.8De repente, os discípulos olharam em volta mas só viram Jesus com eles.

9Quando desciam da montanha, Jesus avisou-os para não contarem a ninguém o que viram, antes de o Filho do Homem ressuscitar. 10Eles obedeceram, mas perguntavam entre si o que queria Jesus dizer com aquelas palavras acerca da ressurreição. 11Foram então perguntar a Jesus: «Por que é que os doutores da lei dizem que Elias tem de vir primeiro9,11 Comparar com Ml 3,23.12Jesus respondeu: «É verdade que Elias vem primeiro preparar tudo. Mas por que será que as Escrituras dizem que o Filho do Homem há de sofrer muito e ser desprezado9,12 Ver Is 53,3; Sl 22,1–18.? 13Pois eu afirmo que Elias já veio e fizeram-lhe tudo o que quiseram, como está nas Escrituras a respeito dele.»

Jesus cura um possesso

(Mateus 17,14–21; Lucas 9,37–43a)

14Quando chegaram junto dos outros discípulos viram muita gente ali à volta e doutores da lei a discutir com eles. 15Logo que a multidão viu Jesus ficou muito agitada e correu para o cumprimentar. 16Então Jesus perguntou: «Que é que estão a discutir?» 17Alguém da multidão respondeu: «Mestre, trouxe-te o meu filho que tem um espírito mau e não o deixa falar. 18Sempre que o espírito toma posse dele atira-mo ao chão e o rapaz começa a espumar, a ranger os dentes e fica sem forças. Pedi aos teus discípulos para expulsarem o espírito mau mas eles não foram capazes.»

19Jesus disse-lhes: «Oh que gente sem fé! Até quando estarei convosco? Até quando terei de vos suportar? Tragam-me cá o rapaz.» 20Trouxeram-no, e o espírito ao ver Jesus atirou logo o rapaz ao chão; este rebolava-se na terra espumando pela boca. 21Jesus perguntou ao pai: «Há quanto tempo está ele assim?» «Desde pequeno», respondeu. 22«Muitas vezes o espírito o atirou ao fogo e à água para o destruir. Se te for possível, ajuda-nos, tem pena de nós!» 23A estas palavras respondeu Jesus: «Se achas que sim, tudo é possível àquele que tiver fé.» 24Logo o pai do rapaz disse em alta voz: «Eu creio; aumenta a minha fé!»

25Ao reparar que ali se tinha juntado muita gente, Jesus repreendeu o espírito mau: «Espírito surdo-mudo, sou eu quem te ordena, sai deste rapaz e nunca mais entres nele!» 26O espírito saiu aos gritos, depois de o agitar violentamente. O rapaz ficou como morto, de tal modo que muitas pessoas já diziam que ele tinha morrido. 27Mas Jesus agarrou-lhe na mão, levantou-o e ele pôs-se de pé.

28Quando Jesus voltou para casa, os discípulos perguntaram-lhe em particular: «Por que é que nós não conseguimos expulsar aquele espírito?» 29Ele respondeu: «Aquele género de espíritos só sai por meio da oração.»

Jesus fala outra vez da sua morte e ressurreição

(Mateus 17,22–23; Lucas 9,43–45)

30Jesus e os discípulos saíram dali e andavam pela Galileia, mas Jesus não queria que se soubesse onde ele estava. 31E ensinava os discípulos: «O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens. Hão de matá-lo, mas ressuscitará três dias depois.» 32Eles não entenderam o que lhes dizia, mas tinham receio de lho perguntar.

Quem será o mais importante?

(Mateus 18,1–5; Lucas 9,46–48)

33Chegaram à cidade de Cafarnaum. Quando já estavam em casa, Jesus perguntou aos discípulos: «O que é que vinham a discutir pelo caminho?» 34Eles calaram-se porque pelo caminho tinham discutido sobre quem seria o mais importante. 35Jesus então sentou-se, chamou os Doze e disse-lhes: «Se alguém quer ser o primeiro terá de ser o último e o servo de todos.»

36Em seguida pegou num menino e colocou-o no meio deles. Depois tomou-o nos braços e disse aos discípulos: 37«Todo aquele que receber uma criança em meu nome, é a mim que recebe. E quem me receber, não recebe só a mim, mas também aquele que me enviou.»

Quem não é contra nós é por nós

(Lucas 9,49–50)

38João disse a Jesus: «Mestre, vimos um homem a expulsar espíritos maus em teu nome e proibimo-lo porque não é um dos nossos.» 39Jesus respondeu: «Não o impeçam, porque ninguém pode fazer milagres em meu nome e logo a seguir dizer mal de mim. 40Quem não é contra nós é por nós.

41Todo aquele que vos der um simples copo de água em meu nome, por serdes de Cristo, garanto-vos que será recompensado.»

Não levar os outros a pecar

(Mateus 18,6–9; Lucas 17,1–2)

42Jesus acrescentou: «Mas todo aquele que fizer cair em pecado algum destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que atirassem essa pessoa ao mar com uma pedra de moinho atada ao pescoço. 43Portanto, se a tua mão te fizer pecar, corta-a. É melhor entrares no Céu com uma só mão do que teres as duas e ires parar ao inferno, onde o fogo está sempre aceso. 44[Ali os vermes não morrem e o fogo nunca se apaga9,44 Este versículo não se encontra em vários manuscritos antigos..] 45E se o teu pé te fizer pecar, corta-o. É melhor entrares no Céu com um só pé do que teres os dois e ires parar ao inferno, 46[onde os vermes não morrem e o fogo nunca se apaga9,46 Este versículo não se encontra em vários manuscritos antigos..] 47E se um dos teus olhos te fizer pecar, arranca-o. É melhor entrares no reino de Deus com um só olho do que teres os dois e ires parar ao inferno, 48onde os seus vermes não morrem e o fogo nunca se apaga9,48 Comparar com Is 66,24..

49Porque todos serão temperados pelo fogo, tal como o sal tempera os alimentos9,49 Alguns manuscritos não têm as palavras tal como o sal tempera os alimentos.. 50O sal é bom, mas se perder as suas qualidades como poderão salgar com ele? Procure cada um temperar bem a sua vida e vivam todos em paz uns com os outros.»