Que Futuro(!?)

Com a crise sanitária emergiram outras crises. Até a ciência entrou em crise. Não tanto pela incapacidade de responder no tempo que seria desejado, mas pela disseminação de ideias e práticas antagónicas justificadas com base em opiniões científicas divergentes. A recomendação e o desaconselhamento no uso das máscaras foi apenas um dos muitos exemplos. Não obstante estas fragilidades a ciência avança em geral com as suas crises particulares e podemos dar graças a Deus pela bênção do conhecimento científico. O futuro, ou o aumento exponente da imprevisibilidade e falta de confiança nele, parece agora apresentar-se como a mãe de todas as crises! À crise sanitária juntou-se uma crise económica e social por todos admitido! Contudo, na resolução destas está em iminência uma crise política que pode pôr em risco a própria união europeia e ditar o fim da moeda única. Se, por um lado a melhor ficção científica nunca havia conseguido reproduzir as circunstâncias e os efeitos da COVID 19, por outro lado, alguns consideram que as consequências daquilo que ainda pode vir a acontecer são inimagináveis! Certo é que vivemos dias de grande preocupação e aflição. Tempo em que a nossa mente é pré-ocupada com as dificuldades do futuro que se avizinha. Tempo em que o nosso coração é tomado pela angústia de não saber se existe um escape. Porém a Palavra de Deus tem palavras sobre o tempo das mais variadas crises.

Quando lemos o evangelho de Mateus 24, 1-4b há uma expressão de Jesus de Nazaré que deveria saltar à vista de todos: “que ninguém vos engane!” De imediato esta exortação alerta-nos para a possibilidade de sermos enganados. Pelos políticos, pelos cientistas, pelos religiosos e até por nós próprios. Independentemente da sua natureza e da nossa capacidade de desfazer equívocos, a consciência de que estamos sujeitos a eles deverá convocar-nos a um estado de vigilância permanente. Não se trata de desconfiar de tudo, e de todos, mas da necessidade de redobrar a nossa atenção. Para melhor percebermos o sentido e o alcance destas palavras não podemos perder de vista o contexto onde foram proferidas e entender o seu significado à luz das histórias que seguem e ilustram a verdade nelas contida.

A frase foi dita no final de uma espécie de visita de Jesus ao templo com os discípulos. Não podemos deixar de recordar que este edifício se assumia como um símbolo arquitetónico, pela beleza da sua construção, um símbolo histórico e social tendo em conta os 40 anos de trabalho ininterrupto que deram rendimento a muitas famílias e, também, um símbolo espiritual enquanto elemento representativo da restauração da identidade de Israel. E é precisamente neste ambiente festivo, gerado pela celebração da inauguração de uma obra tão marcante e aguardada, bem como pelo entusiasmo de visitar o lugar (guiando e sendo guiados pelo mestre), que Jesus decide provocar uma crise na mente dos discípulos declarando que aquele edifício seria destruído. Nada ficaria de pé.

Todas as sirenes tocaram numa espécie de recolher obrigatório! Soaram todos os alarmes de perigo iminente na mente dos discípulos: “Quando vai acontecer isso?” (v.3) responderam eles! Retirando a atenção do templo, Jesus reorienta-os para uma outra construção: a deles próprios como indivíduos. Quantas vezes ficamos embevecidos com as coisas que conseguimos construir e esquecemo-nos de cuidar de nós como construção à nossa responsabilidade. Talvez por isso, usufruímos, mas não gozamos do fruto do nosso trabalho. Focado na construção humana dos seus discípulos Jesus começa por ensinar que diante de uma preocupação legitima com o futuro o mais importante não é saber antecipadamente a data das crises, mas quão preparados estamos para a enfrentar. Para ilustrar este princípio JESUS conta três histórias e ensina aos discípulos três princípios que ajudam na preparação e no combate a qualquer crise, independentemente do tempo e do espaço em que ocorrem! Hoje, vamos nos deter na primeira.

Trata-se de uma parábola (Mt 25, 1-13) mediante a qual Jesus confronta os discípulos com as atitudes de dez damas de honor. A história, mais conhecida pelas 10 virgens (as loucas e as prudentes) não é sobre a sua virgindade, mas por serem convidadas especiais de uma cerimónia de casamento. Essa condição exigia requisitos e os discípulos são convidados a, simbolicamente, ocupar o lugar destas personagens. Muitos de nós desconhecem, mas eles sabiam muito bem, os hábitos e costumes inerentes a uma boda palestiniana á época. Qual o papel da noiva, do noivo e dos convidados, entre eles, as Damas de honor (convidadas da noiva)? Muitas vezes oferece-se a moral desta história, sem pensar na história tão pouco na verdade espiritual que dela deve ser extraída.

Sem me deter muito tempo nos detalhes, quero destacar que Jesus chama a atenção dos discípulos para a responsabilidade de, tal qual as damas de honor, estarem prevenidos. Não se tratava de vigilância no sentido de não dormir (Mt25,5).

As damas que dormiram não entraram em crise. A história mostra-nos que quem não compra azeite no presente, corre o risco de, no futuro acordar num pesadelo. Quem compra azeite em tempo útil, pode aguardar dormindo.

Mediante o anúncio da destruição do templo Jesus não nos ensina sobre futurologia mas PREVENÇÂO! A história das damas de honor alerta-nos para o facto de que, crise baterá à porta de todos mas afetará de forma diferente os que se acautelaram e os descuidados e desprecavidos.  Por isso a história sugere que o futuro deve começar a ser resolvido no presente. Não durante o sono mas durante a hora de trabalho. Quem não compram azeite no presente, corre o risco de, no futuro acordar num pesadelo. Quem compra azeite em tempo útil, pode aguardar dormindo. Os discípulos não deveriam estar preocupados com a data da destruição do templo, mas em estarem devidamente preparados para essa experiência. Como? Com lamparinas cheias de Azeite. Sendo prudentes com a providência. Não basta pertencer ao cortejo, ao grupo de Jesus, é preciso estar prevenido! Simbolicamente, no lugar do Azeite, precisamos ter as lamparinas, que representam as nossas vidas, cheias do Espírito Santo.

Com esta história Jesus ensina-nos que a nossa preocupação não deve assentar no saber Quando é que as crises vão começar/acabar mas como nos preparámos para enfrentá-las. O enlace destas duas narrativas promove uma atitude preventiva. Seja na dimensão espiritual ou física, o princípio é trabalhar primeiro descansar depois. Também por isso o profeta exortava a buscarmos a Deus enquanto é tempo. Enquanto podemos achá-lo (Is 55,6) e Paulo recomendava que nos enchêssemos do Espírito Santo (Ef 5,18). Preparados espiritualmente no presente não sermos surpreendidos no futuro.

Termino lembrando as palavras de Jesus que citei ao início: não te deixes enganar! Pode ser por coisas que, por mais belas e robustas, não deixam de ser inconsistentes. O templo era uma coisa boa, mas uma ideia mais humana do que divina, por isso frágil e a prazo. Que a nossa vida (uma ideia divina e para a eternidade) possa ser uma lamparina cheia de azeite, do ES, para, no momento preciso, na altura certa, possa ser acesa e iluminar o caminho no meio da noite, das dificuldades, das crises.

 

Simão Silva
Colaborador da Sociedade Bíblica

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