Todos estamos a(in)fetados

Seja pelo medo da doença, seja pelo sofrimento que ela está a causar por todo o planeta, seja pelo desespero diante da impotência que sentimos para travá-la, seja ainda pelo stress devido ao impacto que ela está a causar, todos estamos a(in)fetados. Ao ler e ouvir muito do que tem sido dito e escrito nestes últimos dias dei comigo a comentar com colegas e amigos assuntos que não entendemos, e a prever coisas que não sabemos.  Nisto, perguntei a mim mesmo se eu não estava também afetado por um outro pandemónio: todos somos médicos, todos somos jornalistas, todos somos políticos (melhor, já erámos). De repente temos uma opinião científica formada e assumimos o dever de informar as nossas redes de contacto. De caminho apresentamos as nossas propostas para resolver a crise que se instalou.

Enquanto pensava nisto, lembrei-me de uma história. Um dia um homem ficou doente e vieram os amigos visitá-lo. Depois de apresentarem o seu mais profundo e sincero lamento, desenrolou-se um acérrimo e longo debate no qual uns apresentaram as suas teses sobre as causas da doença enquanto outros expuseram as suas soluções para superar o problema. A história de Job está repleta de ensinamentos e ironias. A começar pelo facto de ela convidar-nos a prestar mais atenção ao personagem doente do que aos protagonistas sãos (curiosamente Jesus também dava mais atenção aos enfermos). Deixou-vos três notas que me têm ajudado a superar o desafio que está diante de nós.

Em primeiro lugar esta estória propõe-me fazer Silêncio (Job 40:3-5). É compreensível a nossa inquietação não só perante as coisas que tememos mas sobretudo as que desconhecemos. Todavia, não nos devemos precipitar a falar (pior, publicar) daquilo que não entendemos! Sobretudo quando os próprios especialistas procuram articular observações distintas e teses em tensão. Seremos nós, meros observadores, capazes de nos propormos por instantes ao silêncio? Um recolhimento que significa suspender as nossas néscias opiniões ou visões pessoais? Se não conseguirmos dedicar à oração, pelo menos, fiquemos calados. Quiçá quando nos aquietarmos Deus possa falar? Em segundo lugar com esta estória aprendi o valor da Confissão, não de pecados ocultos (ou de ocultos culpados conforme a minha tentação) mas da liberdade de manifestar os nossos sentimentos de angústia (3, 1-10), frustração e medo (23, 1-17).  Sem esquecer de confessar também a nossa falta de discernimento que nos conduz à infantilidade espiritual (42, 1-6). Dito isto, registo aqui o meu medo de contrair o vírus, a frustração com os meus planos desfeitos e a revolta perante a atitude de alguns cidadãos que, em vez de limparem as mãos, «limparam» os supermercados, e daqueles que, no lugar do recolhimento sugerido, que também significa aquietar, ficaram em casa infetando as redes sociais. Aproveito para deixar aqui o meu sincero pedido de perdão se, na minha ansiedade humana e tolice espiritual, «contaminei» colegas, família e amigos. Por último, mas não menos importante (bem pelo contrário), mediante esta estória também apre(e)ndi (42,15) a Graciosidade. Mais do que a restauração da saúde, dos filhos e dos bens, no final da estória existe um aspeto que revela muito mais do que a bondade de Deus: a sua graça. A identidade das filhas e o anonimato dos segundos filhos mostra que elas se tornaram famosas. Não tanto pela sua formosura, mas porque, ao contrário da lei hebraica, extraordinariamente foram feitas herdeiras do Pai. O zelo de Job pela justificação dos primeiros filhos no início (1,5) deu lugar ao exercício da graça com os segundos, indo além da lei ao colocar filhos e filhas na mesma condição. Elas não tinham direito, porém o encontro com Deus tornou Job um homem gracioso constituindo-as herdeiras. Mais do que os meus «ídolos» do futebol, da televisão ou redes sociais, os profissionais de saúde não merecem apenas o meu respeito, mas também a minha justa e profunda admiração. Algumas vezes fui injusto e tantas que não lhes fiz justiça. Quando tudo isto passar, além da restauração desejada, peço a Deus que me conceda a oportunidade de ser um homem inclinado a agir com mais graciosidade para com todos.

 

Simão Fonseca
(Colaborador da Sociedade Bíblica)

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