Um conto de “mãos vazias”!

Numa época de crise pandémica, financeira, económica e, consequentemente social, à imagem do ano anterior a celebração deste Natal vive o drama da (possível) suspensão. Abandonada a religião do Deus menino que iluminava o homem, ironicamente, por toda a Europa paira o espectro do fantasma das cidades vazias. Virá ele anunciar que, vítima da pandemia, o deus das luzes está prestes a sucumbir? Duvido! O culto da estética e do consumo vai dando sinais de robusta imunização. Este ano, tal como os atrasados, vendem-se os mesmos produtos e apregoam-se os eternos clichés: “O presente perfeito”, “Onde o Natal é mais barato”. No meio deste conto que não nos é lido como a maior dádiva, que escutamos mergulhados no mar das prendas, lembrei-me de uma jovem da palestina.

Com ela aprendi que o Natal não são apenas boas notícias com anjos a cantar canções de paz e fraternidade. Ele emerge de uma história terrível onde a reputação perdida, perante o noivo, a família e a comunidade, coloca uma jovem na iminência da morte. Mas com ela recordei que o choro pode durar uma noite, mas o cântico vem pela manhã. E, mais do que uma melodia ou expressão de sentimentos, o seu cântico revela a fonte da sua paz e confiança. Finalmente com ela também pude aprender que a Estrela não nos leva ao palácio real, mas à cidade Belém, onde os valores das ofertas são transformados em significados preciosos. Mostrou-me que existe tanta riqueza nas mãos vazias dos pastores da cidade de Belém como no presente dos sábios do Oriente. No lugar de adornar o recém-nascido com o ouro ofertado usou-o para concretizar a fuga que fez escapar o menino de um entre os maiores infanticídios. Ao contrário dos contos, a história do primeiro Natal termina com o choro de muitas famílias perante a chacina das suas crianças.

Não porque divina ou mediadora mas, por ser profundamente humana, com o seu testemunho posso aprender que não obstante a crise pandémica ter abalado o mundo com uma dimensão mortal inesperada; com a exposição das fragilidades e colapsos dos melhores e mais robustos sistemas de saúde nacionais, assim como a possibilidade de vermos reeditar uma crise financeira à escala global e com ela o ressurgimento de tensões e conflitos sociais que tendem a transformar as ruas em campos de batalha, tal como Maria, apesar das circunstâncias  adversas, precisamos de ser capazes de olhar para as Escrituras de modo a que elas despertem em nós um cântico de esperança. Uma esperança que se traduz na aceitação da missão do menino como seu Salvador.

Talvez os natais que se avizinham experimentem a transformação do Kronós (tempo dos homens) no Kairos (tempo de Deus) do primeiro Natal.  Celebrá-lo de “mãos vazias” de forma que nada possa impedir de serem preenchidas pelo vazio gracioso de outras mãos. Mas, se algum dom se apresentar nas palmas dessas mesmas mãos, tenhamos a coragem de utilizá-lo a favor de alguém em trânsito, em viagem de refúgio, á procura da digna sobrevivência.

Este conteúdo foi publicado em Segunda-feira 13 dezembro 2021