BÍBLIA

UM PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE
UM CÓDIGO PARA A CULTURA PORTUGUESA

A BÍBLIA é um precioso património dado por Deus a toda a humanidade. Património material, porque este texto tão antigo se preserva através de milhares de preciosíssimos manuscritos, alguns integrais muitos fragmentários, de notáveis incunábulos e das mais diversificadas impressões; mas também património imaterial, porque a ele se associam saberes, tradições, valores adquiridos e transmitidos por muitas culturas e expressões sociais por toda a face da Terra.

Mais do que um conjunto de textos de teor estritamente religioso, as Sagradas Escrituras dos cristãos são Palavra de Deus, mas também palavras de esperança, de amor, de justiça, de compreensão, de tolerância, de verdade e de dignidade humana. Nenhum outro texto tem, ao longo de tanto tempo, sido de tão grande influência para tantas pessoas em contextos espaciotemporais tão diversos. E, desde mesmo antes de ter ficado completa, há cerca de 2000 anos, a sua indelével marca tem estado presente nas mais diversas expressões do ser humano, como as artes plásticas, a literatura, o teatro, a música, as ciências, o direito e a política, a economia, a ética e a moral, etc. Muito mais do que um épico, grandiloquente e heróico, a Bíblia apresenta-se-nos como um repositório de memórias, desejos, vontades, sucessos, mas também de lacunas, omissões de simples homens e mulheres, vivenciando situações igualmente simples do seu quotidiano.

O Deus trinitário dos cristãos é ontologicamente comunicacional. Um só Deus, por isso uma só essência e natureza, coexistindo em três Pessoas – Pai, Filho, Espírito Santo –, é um mistério insondável e inescrutável para todas as finitas mentes. Todavia, é esta existência una e subsistência tríplice que garantem lidar com um Ser pessoal e amoroso. Para os cristãos a revelação não está limitada a um tempo, lugar, língua ou linguagem; não há, pois, uma língua oficial ou superior. Existem as línguas originais em que a Bíblia foi escrita – o hebraico, o aramaico, o grego –, mas existem depois mais de dois milhares de línguas em que a Bíblia está já traduzida no todo ou em parte.

A língua portuguesa tem sido beneficiada desde tempos remotos com a tradução de textos bíblicos. E com os textos bíblicos vêm a cultura, as vivências, o ser povo e nação, amplamente impregnados dessa matriz judaico-cristã que, a todos, homens e mulheres de fé ou sem ela, marcam, não fôssemos nós portugueses. Falar da Bíblia em português é falar de D. Dinis, o lavrador que também foi poeta, e um reconhecido apaixonado pelas Sagradas Escrituras. Falar da Bíblia em português é relembrar os monges de Cister que por terras de Alcobaça se esforçavam por pôr o povo a «dizer» a Bíblia. Falar da Bíblia em português é falar desse tão dilecto membro da ínclita geração, D. Duarte, que no Leal Conselheiro fez questão de incluir textos sagrados na língua lusa, seguindo certamente o exemplo de seu pai, D. João I, a quem alguns atribuem a tradução de belos Salmos. Falar da Bíblia em português é falar dessa generosa senhora, D. Leonor, fundadora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mas também mecenas de uma das primeiras obras impressas em português, a tradução da obra latina De Vita Christi. Falar da Bíblia em português é não esquecer o grande humanista Damião de Góis que, apesar de não ter ido além da tradução do Livro de Eclesiastes, marca indelevelmente um período da história da Bíblia na nossa língua. Falar da Bíblia em português é falar daqueles que ao longo destes últimos séculos têm trabalhado denodadamente, mas de forma quase anónima, para que a Palavra fale de forma que se possa compreender; são várias os grupos de trabalho de reputados biblistas que têm dado um enorme contributo para que a Bíblia fale português e para que o português possa falar a Bíblia.

No entanto, poucos deram tamanho contributo à divulgação das Sagradas Letras na língua de Camões como João Ferreira de Almeida, ao iniciar o visionário projeto de se completar a primeira tradução integral da Bíblia para português, quando tinha a idade de 14 anos. Nascido nas faldas da serra da Estrela, mas vivendo no Extremo Oriente até lá morrer, o lusitano Almeida dedicou toda uma vida ao nobre intento de tornar disponível aos seus compatriotas e a todos os falantes da língua «a maior dádiva, o mais precioso tesouro» como o próprio se referia à Bíblia. Em 1681 seria publicada a editio princeps do Novo Testamento, vindo à estampa todo o Antigo Testamento em 1753, já muitos anos depois da morte de Ferreira de Almeida ocorrida em 1691. A «Bíblia de Almeida» surgiu, assim, num contexto muito peculiar, distinguindo-se, nesse sentido, das primeiras traduções realizadas para as principais línguas europeias na sequência do movimento de Reforma Protestante iniciado em 1517, desde logo por ter sido completada cerca de dois séculos após a maior parte dessas traduções, conseguindo assim absorver toda a ciência de tradução bíblica que, entretanto, se havia desenvolvido; mas, principalmente por ter sido produzida em contexto colonial, portanto fora do território de origem da própria língua e destinada não só aos seus falantes de origem, como a um público inicial maioritariamente constituído por pessoas que não tinham o português como língua materna. A verdade é que o ambiente histórico próprio resultante do contexto missionário em que Almeida realizou a sua obra tornou-a distinta dos empreendimentos semelhantes realizados para outras línguas. Ao fim de quase três séculos de sucessivas edições a tradução da Bíblia de João Ferreira de Almeida é indubitavelmente a obra literária mais divulgada de sempre na nossa língua. São largas centenas de edições, correspondendo a aproximadamente 200 milhões de exemplares distribuídos em todos os continentes, que colocam a «Bíblia de Almeida» num lugar singular, assumindo-se como um inestimável bem e um código único para a compreensão da cultura em língua portuguesa.

Timóteo A. J.

Este conteúdo foi publicado em Terça-feira 4 maio 2021
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