Descobrindo a presença de Deus através do lamento

Não é exagero descrever Job como o campeão do lamento na Bíblia, escreve a Dra. Jutta Henner. Não é de admirar, ao vermos a forma como os golpes do destino o atingiram.

O livro de Job voltou a chamar-me a atenção no final da primavera de 2020, quando a Covid e o primeiro confinamento atingiram o mundo. Tomei conhecimento da situação dolorosa e trágica de um casal de idosos, amigos da Sociedade Bíblica, em meio à pandemia. O marido, que frequentava um centro de dia após ter sofrido um derrame, teve de ir ao hospital para um tratamento de rotina. Enquanto lá estava, rebentou a Covid e o atendimento ao domicílio deixou de ser possível, tendo de ser admitido num lar de 3ª idade. Após 65 anos de casamento, o casal foi separado à força. Durante várias semanas, nem sequer se conseguiram ver. Foi o lamento que os uniu. Só quando o marido estava prestes a morrer é que foi permitido que a sua esposa o visse na casa de repouso – através de uma parede de vidro. O seu último encontro foi triste. O lamento tornou-se o companheiro da viúva. Após um funeral apenas com cinco participantes, e a solidão por companhia, começou a ler o livro de Job regularmente. As palavras de lamento de Job tornaram-se as suas palavras.

O livro de Job tem oferecido um vasto espaço de identificação para os muitos que sofrem com a Covid: como manter a fé numa situação tão desesperada? Relacionamentos quebrados, perda de perspetiva, de um emprego, de saúde ou mesmo de entes queridos têm levado à dúvida e ao desespero, à perda de qualquer esperança e confiança. Não há outro livro na Bíblia que leve o seu leitor a uma jornada tão notável, através do mais profundo sofrimento e escuridão do que o livro de Job.
Ao reler este livro nos últimos meses, a minha atenção voltou-se também para os três amigos de Job. Eles visitam-no, sentam-se em silêncio e juntam-se a ele no luto. Depois, começam a falar: sabem explicar o sofrimento e o desespero de Job. Procuram dar um significado a toda as experiências terríveis que ele estava a passar. E culpam-no, responsabilizam-no pelo seu sofrimento. Porém, não se juntam a Jó no seu lamento.
Pergunto-me sobre o que sobrecarregava mais Job nesta situação difícil: o sofrimento pelo qual estava a passar ou as palavras bem-intencionadas dos seus amigos a fazer aumentar o seu desespero?

Job está entre a fé e a dúvida. Só há uma maneira de expressar os seus sentimentos para com Deus: ele lamenta-se! E vai mais longe: acusa Deus com palavras fortes. Ao lamentar-se, Job espera algum tipo de reação ou resposta de Deus.

Parece que Job está prestes a perder também o seu Deus, um Deus que se tornou para ele um Deus silencioso e incompreensível. A sua fé tradicional foi abalada até aos seus alicerces. Mas mesmo assim, Job atira as suas experiências contra o seu Deus. Os leitores da Bíblia sabem que leva muito tempo até que Deus rompa o silêncio. E quando o faz, é de uma forma diferente daquela que Job esperava. Deus não explica nada. Não responde a nenhuma das perguntas de Jó. Muito pelo contrário: Deus faz a Job muitas perguntas, às quais ele não pode responder e revela-se de uma maneira diferente daquela que Job conhecera anteriormente.

Surpreendentemente, para Job isto é suficiente. O facto de Deus falar, consola-o no seu desespero. Mesmo no final da notável história de Job, uma história sobre uma jornada de fé que explora todas as profundezas possíveis, ele confessa (Jó 42.5, BPT): “De facto, eu mal tinha ouvido falar de ti, mas agora vi-te com os meus próprios olhos.”. Job reconhece os limites da imaginação humana sobre Deus. Deus não previne nenhum dano e tristeza, mas ele faz-se presente, mesmo em meio a um sofrimento inexplicável.
Na minha última conversa por telefone com a velha viúva, ela disse-me que depois de vários meses de lamento, havia encontrado paz. Ela sabe agora que Deus estava com ela e com o seu marido, mesmo nos momentos mais tristes das suas vidas. E partilhou comigo que o livro de Job – para ela, um livro estranho na Bíblia, tornou-se um companheiro valioso neste período sombrio da sua vida. E incentivou-me a promover a leitura deste livro entre os que estão em desespero e sofrimento.

Dra. Jutta Henner é Secretária Geral da Sociedade Bíblica da Áustria

Este conteúdo foi publicado em Quinta-feira 18 fevereiro 2021
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